Violência na palma da mão

Violência na palma da mão

Violência na palma da mão (desligando o celular 3ª parte) 

Insultos disfarçados de memes e o julgamento como passatempo. Como o cyberbullying se tornou parte do cotidiano da vida on-line?

Por Érica Sena, Rafael Kolberg e Eduardo Rodrigues / Publicado em 20 de agosto de 2025

 

Violência virtual: o cyberbullying pode ter sérias consequências para a saúde mental dos adolescentes, incluindo sintomas de depressão, ansiedade e isolamento social.
Foto: Rafael Kolberg

 

 

A claridade que ilumina apenas um rosto. No canto da sala de estar, deitado no sofá e com fones de ouvido. Os olhos quase não piscam e a imaginação vai longe. O que ele pode estar vendo na tela do celular? “Eu deixo ele à vontade porque é uma das poucas diversões que ele tem. Não acho que seja um risco porque ele está dentro de casa e perto de mim”, é assim que Jaqueline Morais, mãe do estudante Henrique, explica o motivo pelo qual o adolescente de 12 anos não desgruda do aparelho.

De acordo com dados divulgados pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), departamento do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), em 2024, A proporção de crianças que utilizam internet entre 2015 e 2024: de 9% para 44% na faixa de 0 a 2 anos; de 26% para 71% na de 3 a 5 anos e de 41% para 82% na faixa etária de 6 a 8 anos.

Violência na palma da mão
Uso de internet por crianças tem aumento alarmante em pesquisa feita pelo CGI
Arte: Eduardo Rodrigues

 

 

“Os adolescentes que passam mais tempo em frente às telas têm maior probabilidade de relatar sintomas de depressão e ansiedade. Eles também são mais propensos a se sentir solitários e desconectados, mesmo estando sempre on-line”, escreveu Jean Twenge, professora da San Diego State University, e autora de iGen: Why Today’s Super-Connected Kids Are Growing Up Less Rebellious, More Tolerant, Less Happy — and Completely Unprepared for Adulthood (iGen: Por que as crianças superconectadas de hoje estão crescendo menos rebeldes, mais tolerantes, menos felizes e completamente despreparadas para a vida adulta).

Para o professor de filosofia e escritor Elenilton Neukamp, o excesso de telas piorou a percepção dos jovens sobre o mundo. “O prazer é muito rápido, em 40 segundos se tem uma narrativa inteira, início, meio e fim. Existe essa ilusão de que a vida toda é um vídeo e que o resultado sempre é positivo e muito rápido. Então, conteúdos e questões que se trabalhavam em um período de 50 minutos, agora se resolvem em cinco, mas a compreensão não aconteceu, porque a linguagem do professor não condiz com a linguagem da tela”, explica. Elenilton argumenta que a dependência das telas empobreceu o momento da aula e a experiência de vida dos alunos. A longo prazo, o professor teme pelos resultados.

Com a popularização em massa dos smartphones, os jovens nascidos a partir de 2010 já crescem conectados. Os celulares chegaram a muitos lares como uma distração para crianças e adolescentes. Dessa maneira, em um ambiente digital, além dos problemas já citados, essa história tem outro vilão: o cyberbullying. Os fatos que caracterizam o cyberbullying são a conduta realizada por meio de redes sociais, jogos on-line, assim como em qualquer ambiente digital. Segundo a psicóloga Sônia Sebenelo, o agravante do cyberbullying em relação ao bullying é o anonimato de quem propaga o ódio. “O cyberbullying é potencialmente mais prejudicial, pois é mais difícil de escapar, e é frequentemente praticado de forma anônima”, pontuou.

Bullying virtual, violência real

Pelo menos 23% dos estudantes brasileiros afirmam ter sido vítimas de bullying, de acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2019), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística — IBGE — e divulgada em 2021. Além disso, o levantamento também mostrou que um a cada dez alunos, dos 188 mil entrevistados, já se sentiu ameaçado ou ofendido nas redes sociais, sendo vítimas de cyberbullying.

É o caso de Henrique Morais, de 12 anos. O adolescente que passa pelo menos 10 horas do dia em frente às telas, demonstra problemas de relacionamento com os colegas, distorção da própria imagem, além de sinais de dependência do aparelho celular. A mãe do jovem, Jaqueline Morais, não permitiu que ele falasse com a reportagem, mas conta que já percebeu algumas mudanças no comportamento do filho. “Ele acorda, vai para a escola, conversa com alguns dos poucos amigos que ele tem… Ele sempre fala muito do Lorenzo, que é coleguinha dele desde o segundo ano. Depois ele volta pra casa, almoça, deita no sofá e fica ali jogando por horas. Eu acho que ele fica jogando com os coleguinhas, é o que ele me conta”, revela a mãe.

De acordo com Jaqueline, entre as mudanças de comportamento do menino, é possível observar uma preocupação excessiva com a imagem corporal, além da desconexão com o mundo fora das telas. “Ele se preocupa muito com o que ele come, quanto ele tá pesando, como ele vai fazer pra eliminar o que ele comeu… Ele só tem 12 anos e se preocupa com isso”, lamenta.

Na percepção do professor Elenilton Neukamp, os pais são os principais culpados por deixarem seus filhos com aparelhos celulares sem a devida supervisão e orientação. “Eu acho criminoso que pai e mãe entreguem aparelhos celulares para uma criança pequena, em primeiro lugar para mexer, em segundo lugar de presente, então aí já começa o problema. Depois segue a culpa dos pais de não controlar esse uso, não limitar esse uso, então eu ouço de vários alunos e alunas que eles dormem com o celular embaixo do travesseiro… Quer dizer, a família está diretamente envolvida, implicada e tem culpa aí”, enfatiza o professor.

Para a psicóloga Sônia Sebenelo é fundamental reconhecer o bullying e o cyberbullying como fenômenos complexos que ultrapassam a via jurídica e policial. “Além de diálogos entre família e escola, o Conselho Tutelar, o Ministério Público e outros órgãos do Estado podem auxiliar os pais na prevenção e proteção de casos de cyberbullying e bullying”.

Traumas digitais

As marcas deixadas nas vítimas de cyberbullying carregam consigo consequências profundas e, em 2025, ganharam espaço na dramaturgia. A série ficcional Adolescência, produzida pela Netflix e lançada em 13 de março, narra a história de um adolescente de 13 anos acusado de assassinar uma colega de escola. O enredo aborda temas como bullying, redes sociais, violência e saúde mental.

E esse tipo de violência não se restringe apenas ao campo da ficção. Pode não ser visível aos olhos, mas ela ocorre, muitas vezes bem ao nosso lado. “O bullying é mais fácil de perceber na sala de aula, de identificar, embora nem sempre seja tão evidente. Agora, o cyberbullying pode demorar muito para ser percebido. O que o professor ou a professora percebe na sala de aula são os sintomas. Quando o aluno está mais acanhado, triste, ou com crise de ansiedade. Agora, chegar nessa motivação, é muito difícil”, reflete o professor Elenilton Neukamp, em relação à incompreensibilidade de detectar o cyberbullying.

Os ataques em massa, disparados à velocidade de um clique, eliminam todas as possibilidades de defesa da vítima. “Perfis falsos, ofensas, tudo isso aumenta a ansiedade provocada na vítima. Embora todas as ações on-line deixem um rastro, isso não significa que será fácil identificá-las”, conclui Sônia Sebenelo. A psicóloga ainda afirma que a família tem uma função fundamental neste cenário de perseguição on-line: “Acolher a vítima, oferecer confiança e proximidade. Apenas dessa maneira o jovem estará em uma posição confortável para iniciar um desabafo e falar sobre suas angústias”, salientou.

Sebenelo orienta que os pais devem ficar atentos aos sinais apresentados pelos filhos — não apenas para garantir que eles não estejam sendo perseguidos, mas também para ter certeza de que o adolescente não seja o perseguidor. A Lei 14.811/2024, de 12/01/2024, prevê pena de reclusão de dois a quatro anos, além de multa, para os praticantes de cyberbullying.

A advogada Kelli Angelini alerta que, caso o infrator seja menor de idade, a responsabilidade recai sobre os responsáveis legais. “Menores não respondem criminalmente, mas sim por atos infracionais. Se houver outros crimes, como extorsão ou ameaça, pais ou responsáveis legais podem responder pelo ato”, revela Kelli, ao comentar os riscos que a prática do cyberbullying pode causar para toda a família.

Violência virtual com plateia

Os efeitos do cyberbullying transcendem os limites da tela do celular, afetando a rotina do dia a dia, as relações e a autoconfiança da vítima. É o caso de Eduarda Lima. A jovem de 27 anos, que tem um perfil no X (antigo Twitter), viu sua foto ganhar destaque em diversos comentários com críticas a respeito de sua aparência depois de responder um post da rede social. “É complicado porque ninguém espera receber esse tipo de linchamento on-line. Se é uma pessoa com a cabeça mais fraca… Coisas ruins podem acontecer. São mensagens de ódio que falam bem mais do que só sobre a aparência”, lamenta.

Mas engana-se quem pensa que o cyberbullying é menos grave por acontecer através da internet, espaço onde diversos usuários se escondem atrás de perfis com fotos de personagens. Perante a lei, os crimes virtuais têm consequências sérias para quem os pratica. De acordo com a advogada Kelli Angelini, a penalidade é ainda mais grave para esse tipo de violência. “A gente tem uma diferença na lei que caracterizou a 14.811 de 2024 que enquadrou bullying e cyberbullying como crimes e trouxe essas ações para o Código Penal. A lei trata de forma diferenciada, dando uma penalidade maior para o cyberbullying do que o bullying devido a tantas consequências mais severas que trazem”.

Além das medidas sancionatórias (consequências desfavoráveis aplicadas a quem infringe a lei ou viola as normas de um determinado sistema) e das medidas de reparação sancionatórias (ações que visam punir infrações ou violações de direitos e, ao mesmo tempo, reparar os danos causados, seja em âmbito civil, penal ou ambiental), que podem ser buscadas no campo jurídico, a advogada reforça que a vítima de cyberbullying sempre que possível deve denunciar o perfil do agressor na plataforma responsável. “Essas vítimas têm que ser amparadas, acolhidas, devem ter tratamento médico e acompanhamento adequado, em qualquer momento que venha a ter conhecimento disso, mas também ser amparadas em qualquer local que ela esteja, seja na escola, num clube, na internet”, enfatiza Kelli.

Além do agressor direto — que pratica a violência — a advogada explica que quem assiste ou encoraja esse tipo de crime também pode ser responsabilizado juridicamente e, caso haja uma ação de indenização, quem participou também pode ter que responder civilmente. “Em relação a apoiadores, aqueles que dão risadinha em grupos, que mandam figurinhas incentivando, que fazem comentários também ofensivos, eles têm uma responsabilidade jurídica, porque são co-participantes nesse crime. Então, juridicamente, eles também serão responsabilizados”.

Para a advogada, quem pratica o bullying e o cyberbullying, quando tem um público, se sente fortalecido por ter uma plateia que se cala ou que consente. Kelli reforça que é necessário observar todos os autores envolvidos no ato, sejam eles diretos ou indiretos. “Muitas vezes esses telespectadores não fazem nada porque têm medo de ser próximas vítimas. Eu já fui em diversas escolas em que os alunos que estavam envolvidos disseram: “eu ia pra casa com medo, porque tinha receio de que no dia seguinte aquele agressor iria me agredir também”, relembra.

Piada séria que envelhece junto com a vítima

A longo prazo, as marcas deixadas pelo cyberbullying podem causar transtornos psicológicos, que se não forem tratados adequadamente, crescem com as vítimas.

Estudos realizados pela Universidade de King’s College, em Londres, na Inglaterra, indicam que as consequências do bullying e do cyberbullying praticados ainda na infância podem perdurar por toda a vida.

De acordo com a psicóloga Patrícia Spindler, esse tipo de agressão psicológica, e às vezes física, tende a desencadear e aumentar problemas relacionados à saúde, às relações sociais e principalmente com a própria identidade da pessoa. Os danos psicológicos podem ser sentidos tanto para quem pratica, quanto para quem sofre. “As crianças e jovens que sofreram abuso psicológico continuam sendo vítimas destas ações na fase adulta. Isso ocorre porque, na maioria das situações, a criança não tinha concluído o seu desenvolvimento de maturidade emocional. Crianças de, por exemplo, 8 ou 10 anos de idade, não possuem os mesmos recursos psicológicos e emocionais de uma pessoa adulta”, explica.

A psicóloga também explica que uma pessoa que passou por violência psicológica terá como consequência uma maior propensão a adquirir transtornos ou doenças, fobias sociais, estresse, ansiedade, pensamentos suicidas, sentimento de culpa, manifestações neuróticas e de raiva. É comum que as vítimas de bullying e cyberbullying demonstrem desequilíbrios de poder, seja real ou imaginário, como agressões, violência física, agressões indiretas como roubos, violência verbal e manipulação, por exemplo.

Além dos danos psicológicos e emocionais, algumas das consequências mais comuns do bullying na vida adulta são problemas cardíacos, transtornos alimentares que levam à obesidade ou ainda a anorexia e bulimia, abuso de álcool e drogas, depressão, tendências suicidas e psicose.

Patrícia destaca que encarar as consequências do bullying como forma ou tipo de violência é de interesse social. “O bem-estar de todos fica em perigo quando a naturalização é vista como aspecto cultural. Sem o devido acompanhamento estes problemas são tratados apenas como medo, depressão ou ansiedade. Os comportamentos apresentados indicam uma tendência à vitimização como forma de criar estratégias para exteriorizar essa sua dor”, esclarece.

Caminho para a conscientização e prevenção à violência on-line

Assim como o adolescente Henrique, que interage diariamente com seus amigos por meio de plataformas de jogos on-line, e a jovem Eduarda, que utiliza as redes sociais para expressar ideias com seus seguidores na plataforma X, é cada vez mais comum que os meios digitais sejam utilizados como espaços de socialização entre adolescentes, jovens e adultos.

De acordo com a advogada Kelli Angelini, o ideal é que estes espaços estivessem protegidos, buscando frear os crimes virtuais, como o cyberbullying. “As redes sociais, os meios digitais, os jogos são o novo espaço de socialização da criança e do adolescente. Por serem espaços de socialização, precisam estar estruturados, precisam prever punição àqueles que agem mal ali dentro. E precisam ser protegidos para que as nossas crianças cresçam seguras, se relacionando com o mundo, inclusive por meios digitais”, conclui a advogada.

Dessa forma, o caminho mais árduo, mas talvez o mais resistente seja o da conscientização e educação digital contra a violência. Um trabalho em conjunto que deve iniciar dentro de casa, com o adolescente deitado no sofá, enquanto a claridade da tela que ilumina apenas um rosto é a única luz em um ambiente escuro.

Leia também:

O que a tela não ensina (Desligando o celular – 1ª parte)

O trabalho pode ser em dupla: eu e meu celular? (Desligando o celular – 2ª parte)

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Reportagem produzida por estudantes na Unidade Curricular Dual Laboratório de Produtos Jornalísticos do curso de Jornalismo do Centro Universitário Ritter dos Reis (Uniritter), com a orientação dos professores Ana Acker e Roberto Belmonte.

Esta  é a terceira de uma série de quatro reportagens intitulada “DESLIGANDO O CELULAR”, sobre o cotidiano da comunidade escolar após a proibição dos aparelhos nas escolas e foram realizadas no primeiro semestre de 2025. Extra Classe e a Uniritter firmaram Termo de Cooperação no início de 2025, para a veiculação no jornal de reportagens produzidas pelos estudantes com acompanhamento final e publicação pela equipe do EC sob responsabilidade do editor executivo César Fraga e da editora-chefe Valéria Ochôa.

 

FONTE:

https://www.extraclasse.org.br/educacao/2025/08/violencia-na-palma-da-mao-desligando-o-celular-3a-parte/




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