A aposta no caos

A aposta no caos

A aposta no caos

por Silvio Caccia Bava         01 de junho de 2020

Esse imobilismo do campo democrático abre espaço para Bolsonaro avançar em sua estratégia de golpe. Há uma agenda de urgências a ser implementada, e o primeiro passo é a conformação de uma frente antifascista. As disputas entre partidos por força das eleições municipais, que aliás ninguém discute e não sabemos quando vão ocorrer, não podem impedir a formação dessa frente.  

A situação é desesperadora. Vivemos uma epidemia que já mata mais de mil pessoas por dia no Brasil, sem que o governo federal tenha adotado uma estratégia de defesa da vida e mobilizado todos os recursos disponíveis para controlar a Covid-19. O vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, além de todos os seus desatinos, mostra que o governo nem sequer aborda a pandemia que se alastra pelo país. Ao contrário, Bolsonaro sabota a proposta de isolamento social e se choca com as orientações da Organização Mundial da Saúde e de seu próprio Ministério da Saúde, o que já levou dois ministros a se demitirem em plena pandemia. Pesa sobre o presidente da República a acusação de estar promovendo um genocídio dos brasileiros.

Dados recentes, de 14 de maio, nos dizem que, dos R$ 18,9 bilhões destinados ao combate à Covid-19 no âmbito do Fundo Nacional de Saúde, apenas R$ 8 bilhões foram pagos. A insuficiência e a lentidão dos repasses aos fundos estaduais e municipais de saúde merecem destaque num quadro de uma relação extremamente conflitiva do presidente com governadores de vários estados, especialmente de São Paulo, do Rio de Janeiro e do Nordeste do país.1

Os ataques presidenciais à política de isolamento têm a adesão de uma significativa parcela da população mais pobre, composta de trabalhadores informais e desempregados, que vivem de bico e de venda de produtos nas ruas e precisam trabalhar para obter a cada dia os recursos para sobreviver. Esses brasileiros e brasileiras mais pobres, que somam mais de 80 milhões de pessoas, se não tiverem recursos públicos para se manter, passarão fome e desespero. Propor o fim do isolamento é uma política perversa, pois convoca a expansão da pandemia.

Em vez de garantir o isolamento dos mais pobres pagando o auxílio-pandemia para que fiquem em casa, o governo federal segura esses recursos para forçar o fim do isolamento e a retomada das atividades econômicas. O repasse dos R$ 600/mês, que eram R$ 200 na proposta original do Executivo, mas foram ampliados pelo Congresso, ainda que insuficientes para alimentar uma família, chegam com atraso e lentidão. Nem todos os que deles precisam recebem. Há uma orientação do governo federal de recusar 33% das solicitações. E a segunda parcela ainda não foi paga e não se tem prazo definido para isso. Embora haja dotação para as cestas de alimentos para a população indígena, nada lhes foi entregue. Após mais de dois meses de isolamento, a fome começa a bater às portas dessa população empobrecida.   

Pela falta de políticas públicas capazes de enfrentar a pandemia e com a fome chegando às populações mais empobrecidas, situação que alguns analistas identificam como deliberada e de responsabilidade do governo federal, é previsível que entraremos em um período, a curto prazo, de convulsões sociais – e, eventualmente, de saques aos supermercados. Pode-se repetir no Brasil situações que já ocorrem em outros países. Sem que seja possível enterrar os mortos, como aconteceu em Guayaquil, no Equador, nem levar comida para filhos e familiares, o desespero vai desencadear a violência e o caos, como apontam as últimas manifestações populares no Chile. 

Essa situação de convulsão social permitiria ao presidente buscar mobilizar as Forças Armadas e implantar um estado de sítio. Com isso, Jair Bolsonaro e seus filhos resolveriam seus problemas com a Polícia Federal, com o Judiciário e com o Parlamento, o que parece ser a maior preocupação do presidente do Brasil.

Mas a aposta no caos é compartilhada pelas elites brasileiras, que até agora respaldam o governo Bolsonaro? A Febraban, a Fiesp e a CNI continuarão a apoiar as pretensões ditatoriais do capitão? As Forças Armadas se alinharão com o golpe pretendido pelo presidente? O Judiciário foi controlado por Bolsonaro ou vai assumir seu papel constitucional de defesa da democracia e imputar ao presidente os crimes que ele já cometeu? A Polícia Federal vai concluir os inquéritos que envolvem Bolsonaro e seus filhos? O Congresso vai ser controlado pelo presidente, que está comprando o apoio do Centrão?  

Essas são as questões centrais desta conjuntura, e não o uso da hidroxicloroquina.  

E cabe também outro questionamento. Para além de manifestos e declarações, qual é a estratégia dos democratas para enfrentar o capitão e o golpe em curso? O que fazem, na sociedade e no Congresso, o PT, o maior partido brasileiro, e os demais partidos de oposição? Quais são suas propostas e seu engajamento para enfrentar a crise de saúde, a profunda recessão e o desemprego que já é grande e vai se tornar maior? 

Esse imobilismo do campo democrático abre espaço para Bolsonaro avançar em sua estratégia de golpe. Há uma agenda de urgências a ser implementada, e o primeiro passo é a conformação de uma frente antifascista. As disputas entre partidos por força das eleições municipais, que aliás ninguém discute e não sabemos quando vão ocorrer, não podem impedir a formação dessa frente.  

Alguns sinais recentes mostram atos de resistência democrática diante das seguidas manifestações de rua dos bolsonaristas. No domingo, 24 de maio, um grupo de sindicalistas e das torcidas organizadas do Grêmio e do Inter retomou a ocupação das ruas e impediu a manifestação dos fascistas, um pequeno e barulhento grupo de pessoas vestidas de verde e amarelo.  

 

Silvio Caccia Bava é editor-chefe do Le Monde Diplomatique Brasil.

1 José Roberto Affonso e Elida Graziane Pinto, “Pouca saúde”, Le Monde Diplomatique Brasil, 19 maio 2020.

 

https://diplomatique.org.br/a-aposta-no-caos/?fbclid=IwAR0UwTvliwhCtyDWR122axDD9o3pkpUKWsjWIXEnAGC3e30LmkZkCqTFKfw




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