A escolha de KN

A escolha de KN

 

 

Eu aqui na sacada, um temporal chegando, tentando entender a estratégia de KN. Depois de tantas controvérsias e de denúncias que, segundo relatos públicos, envolvem promiscuidade, além de episódios que ainda demandariam esclarecimentos, inclusive sobre dinheiro e alegações de possível propina relacionadas a seu filho, ele continua demonstrando forte apoio ao filho de seu padrinho. Não cabe afirmar, sem provas, quais são suas motivações; ainda assim, essa postura pode ser interpretada por críticos como uma demonstração de lealdade política ou pessoal. Ah, a gratidão! É uma virtude belíssima, dessas que enobrecem a alma, embora, em certas circunstâncias, possa parecer acompanhada de um compromisso de fidelidade renovado a cada nova polêmica. Talvez o mais prudente fosse adotar a postura de um abajur antigo da sala, com a lâmpada apagada e, se possível, coberto por uma toalha de crochê, para que ninguém sequer se lembrasse de que ele existe. Afinal, em determinadas circunstâncias, o silêncio é uma forma elementar de prudência.

Eu evitaria provocações, não alimentaria conflitos e, sobretudo, não sairia por aí distribuindo picadas. Afinal, quem conhece um vespeiro sabe que a pior estratégia é bater nele com um pedaço de pau e depois reclamar que as vespas ficaram agressivas.

Mas não parece ser essa a escolha de KN. Na minha avaliação, ele se expõe como um para-raios em dia de tempestade. Quanto mais a situação exige cautela, mais ele dobra a aposta; quanto mais recomendável seria ficar pianinho, mais dá a impressão de tentar reger uma orquestra em que cada instrumento toca uma nota diferente e o maestro perdeu a partitura. O resultado se aproxima mais de uma fanfarra em parada cívica durante a ditadura militar.

Talvez exista uma estratégia por trás disso que minha modesta inteligência ainda não tenha alcançado. Quem sabe a intenção seja provocar uma reação ampla e, depois, apresentar-se como alvo de perseguição? Essa é apenas uma hipótese interpretativa, não uma afirmação sobre suas intenções. O problema é que provocar um incêndio retórico e, em seguida, reclamar da presença dos bombeiros não transforma, por si só, uma investigação em perseguição, mas em revelação.

Não se trata de desejar a desgraça de ninguém. Trata-se de observar uma sequência de atos e escolhas públicas que, na minha opinião, parecem ampliar, em vez de esclarecer, os problemas já existentes. Há quem, diante de uma crise, pare, respire, consulte um guru e pense antes de agir. Só que o desespero turva a ideia, o tempo urge.

Quando a situação já é delicada, a última coisa sensata a fazer é transformar cada ação em combustível para a próxima polêmica. Uma coisa é cometer um erro de decisão. Outra, inteiramente diferente, é insistir na mesma linha, repetir alegações e oferecer novas oportunidades para que o debate se afaste dos fatos. A crítica, nesse caso, deve recair sobre a forma de conduta e sobre a ausência de esclarecimentos, não sobre uma culpa que ainda não tenha sido demonstrada.

Mas o espetáculo político ainda não terminou. Na minha leitura dessa tragicomédia nacional, há uma pergunta inevitável. E se Flávio Bolsonaro perder a eleição, como ficará a posição de KN? Quem lhe oferecerá respaldo político? Quem ajudará a organizar a mensagem? Quem lembrará que, em certas ocasiões, ficar em silêncio também é uma decisão perfeitamente legítima? Não vai ter como acender uma vela para Deus e outra para o diabo.

É aí que imagino a cena em câmera lenta. KN não precisa ser derrotado diretamente pelos adversários para enfrentar desgaste político decorrente de suas próprias escolhas públicas. Ao responder a cada crítica com uma nova provocação, pode acabar transformando a defesa de sua posição em um exercício de autossabotagem. Trata-se de uma avaliação opinativa sobre os riscos de sua estratégia, não de uma afirmação sobre suas intenções ou sobre um resultado já determinado.

É uma espécie de desgaste político acompanhado pela plateia, com transmissão ao vivo, comentaristas voluntários e intervalo comercial para vender um curso sobre a síndrome do pensamento acelerado, de Augusto Cury. Afinal, se os pensamentos corressem na mesma velocidade das canetadas de KN, até o Dr. Augusto Cury precisaria pedir um intervalo para respirar!

KN, meu caro, se a intenção é enfrentar os adversários, convém conferir a direção dos argumentos antes de dispará-los. Porque, do jeito que a coisa avança, o oponente nem precisa fazer muito esforço. Basta oferecer uma cadeira, uma pipoca e aguardar o próximo capítulo.

Essa trama tupiniquim, definitivamente, não perde nem para novela turca. De um episódio para outro, a trama muda de direção, quando o espectador finalmente pensa que entendeu alguma coisa, lá vem outra reviravolta tão absurda que até o Curupira, com seus pés virados para trás, fica sem saber para que lado caminhar. E olha que, nesse roteiro, andar para trás parece ser uma especialidade!

E a realidade, coitada, está trabalhando tanto para acompanhar essa história que já merece receber hora extra. Aliás, se a PEC que prevê o fim da escala 6 por 1 for aprovada, vai ser preciso negociar uma exceção para ela. Afinal, a realidade também não tem direito a descanso semanal? Porque, do jeito que o Brasil anda, nem a ficção consegue acompanhar o expediente!

Boa noite!

Vânia




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