A morte de um cão
Muito mais do que a morte de um cão
O caso de Orelha deve ser visto no contexto de um Estado consumido pelos estigmas que criou
Por Moisés Mendes / Publicado em 29 de janeiro de 2026

Foto: Redes sociais/Reprodução
Um cachorro morto a pauladas por um grupo de jovens será notícia em qualquer lugar, mas não vira manchete. Por que então em Santa Catarina a tortura e a morte de um cão foram parar nas manchetes dos jornais do Estado?
Porque em Santa Catarina todas as notícias ruins passam a ser vistas dentro de um contexto. Há muito tempo é assim. Um cão morto em Santa Catarina não é apenas um cão, é mais um alarme acionado.
Matam cães em Santa Catarina. Destroem as praias e contaminam todas as águas doces e salgadas. Impedem que forasteiros pobres se aproximem de algumas cidades, começando pela capital.
Grupos supremacistas fomentam a criação de células nazistas espalhadas pelo Estado todo. Os deputados e o governo decidem que o sistema de cotas para negros, em universidades que recebam recursos estaduais, deixará de existir em Santa Catarina.
Em Santa Catarina, um cachorro morto a pauladas por jovens brancos ricos e de classe média é um fato coerente com uma coesão majoritária de ideias e ações extremistas.
Não, ninguém está dizendo que todos os catarinenses têm a mesma índole dos jovens que torturaram e mataram o cão Orelha, na Praia Brava, pelo prazer de matar.
Não, não se diz que o catarinense é racista, que o nazismo se disseminou entre a população e que todos os moradores do Estado são cruéis e odeiam forasteiros pobres.
Não é nada disso. O que se diz é que, por conexões sociais, por explicitação política de uma maioria, pelas decisões das autoridades e pela complacência com que tudo isso vem sendo tratado, Santa Catarina convive com situações que passam longe da evolução civilizatória.
Normalizaram o que não pode ser normalizado. O que está claro é que, sob controle da extrema direita, o Estado se expõe como reduto de ultraconservadores.
As eleições provam que o extremismo é a índole majoritária de Santa Catarina hoje, para muito além das questões morais e de valores elementares. O extremismo é assumido, é explicitamente político.
E foi assim que o Estado construiu seus estigmas. Se não fosse, o poder político, da Assembleia ao governo do Estado, e o poder do sistema de Justiça, muitas vezes leniente com os desmandos dos poderosos, não teriam tantas convergências.
Santa Catarina se coloca, por essa posição majoritária de vínculos com o mais extremado bolsonarismo e seus efeitos colaterais, nas primeiras posições entre os Estados mais vulneráveis ao avanço do fascismo.
Se não fosse assim, as estruturas sociais e institucionais de Santa Catarina não conviveriam com tantos desmandos. Nem 29 prefeitos teriam sido presos por corrupção. Não haveria a destruição de suas belezas naturais.
Há uma aceitação passiva de deliberações de lideranças reacionárias, como essa que tentou eliminar a possibilidade de reparação, pelas universidades, de tudo o que os brancos fizeram contra os negros em mais de três séculos da escravidão.
Se Santa Catarina não tivesse sido dominada pela índole fascista do bolsonarismo extremado, seus cidadãos teriam, em maioria e com determinação, rejeitado a decisão da prefeitura da sua capital de que todos os que chegam sem emprego, sem dinheiro e sem família na cidade devem voltar para onde vieram.
Santa Catarina aceita decisões políticas com muita condescendência. Porque as iniciativas de quem tem poder, qualquer poder, têm respaldo do que já se chamou um dia de sociedade civil organizada.
A sociedade civil avaliza o que acontece em Santa Catarina. Os quatro adolescentes que mataram o cachorro da Praia Brava cometeram uma crueldade que não é exclusividade de Santa Catarina. Torturam cães, queimam mendigos e continuam caçando animais silvestres em toda parte.
Mas o que aconteceu com Orelha não é mais um caso. É um caso inserido num contexto aterrador. Tão assustador que o maior jornal de Santa Catarina, o NSC, já dedicou manchetes ao crime da Brava.
E aí ficamos sabendo que pais poderosos ameaçaram testemunhas. Que uma juíza saltou fora do caso por ser amiga da família de um dos adolescentes.
Que pelo menos dois jovens sob suspeita viajaram para os Estados Unidos depois do caso, ocorrido no início de janeiro, e que a comoção inicial pode se esvair diante de um desfecho previsível.
O desfecho pode combinar situações frustrantes para quem espera algum tipo de reparação. É possível que as provas não sejam suficientes para atestar a participação de cada um dos jovens.
Testemunhas poderão recuar, diante de ameaças e do poder dos familiares. É possível também que, com o passar do tempo, a morte de Orelha se transforme em mais um caso a ser esquecido na terra do véio da Havan.
Por que não esqueceriam Orelha, se esquecem as mulheres vítimas de feminicídio e os negros assassinados pela polícia?
A Santa Catarina das comunidades tão acolhedoras de forasteiros. De iniciativas municipais consagradas de defesa do meio ambiente. Da arte popular, do artesanato das rendeiras, da conversa boa, da solidariedade dos doadores de órgãos do Estado que mais faz transplantes no Brasil – essa Santa Catarina não merece tanto extremismo.
Um extremismo praticado em nome da defesa de interesses locais. Mas interesses de quem? Os catarinenses saberão salvar Santa Catarina do fascismo e até da ameaça de ter Carluxo como senador.
Moisés Mendes é jornalista e escreve quinzenalmente para o Extra Classe.
FONTE:
https://www.extraclasse.org.br/opiniao/colunistas/2026/01/muito-mais-do-que-a-morte-de-um-cao/





