A voz do silêncio

A voz do silêncio

 

Ernani Terra 

Sei que é a terceira vez que volto ao tema, desta vez com um artigo de Dorrit Harazim publicado em 'O Globo' de hoje, p. 3. Sei também que o filme não é nada tranquilo de se assistir. Em tempo: antes que falem que estou torcendo contra, deixo claro que minha torcida pelo Oscar, na categoria, é pelo 'O agente secreto', de Kleber Mendonça Filho. Mas, se puderem, assistam também a 'A voz de Hind Rajab'. Segue o texto da Dorrit Harazin.

A VOZ DO SILÊNCIO

Quinta-feira é o dia da semana em que novos filmes entram em cartaz. Na semana passada, a sessão das 18h30 na sala 3 do Reserva Cultural, na Avenida Paulista, foi pouco concorrida. Melhor assim, pois permitiu a quem assistiu ao drama documental “A voz de Hind Rajab” permanecer colado na poltrona, mudo e no escuro, antes de sair de cabeça encolhida para não ter de olhar para os outros nem se ver no espelho. Mesmo para quem conhece os detalhes da história real e escreve sobre as investigações do caso, o filme dirigido pela tunisiana Kaouther Ben Hania tem a força de um soco. Na cara.

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional, em competição com o brasileiro “O agente secreto”, “A voz de Hind Rajab” está ancorado em fatos. Tem urgência dilacerante, e, não por acaso, sua estreia mundial coincide com a data exata da execução de uma menina palestina por tropas da ocupação israelense em Gaza.

Foi no dia 29 de janeiro de 2024 que atendentes humanitários do Crescente Vermelho em Ramallah, na Cisjordânia ocupada, ouviram pela primeira vez a voz miúda de Hind Rajab no telefone de emergência. O pedido de socorro inicial fora feito por outra voz também não adulta — de seu primo Layan, de 15 anos. Mas Layan foi morrendo ao longo do telefonema. Não só ele. O tio, a tia e dois primos menores, com quem Hind viajava de carro, haviam sido estraçalhados por uma fuzilaria vinda de tanques israelenses. Quando a menina de 6 anos assume o contato telefônico, repete que está “sozinha” e com muito medo.

Os atendentes levam algum tempo para decifrar que Hind está presa dentro de um carro metralhado, rodeada de parentes mortos. Eles se revezam na tentativa de manter a ligação com a menina enquanto acionam a desumana burocracia imposta por Israel para o envio de uma ambulância. O filme é todo construído sob a ótica desses agentes humanitários, que trabalham em condições impossíveis, e tem como fio condutor a gravação real, em tempo real, da voz de Hind. A comunicação telefônica com a menina dura a cruel eternidade de três horas, entremeada de quedas de sinal. Pode ser entendida como o cordão umbilical de Gaza com o mundo dos vivos. Só que esse mundo falhou.

(Atenção: spoiler no próximo parágrafo.)

Somente quando o cruel cipoal de normas foi cumprido, foi autorizado o percurso de uma ambulância que estava a meros oito minutos de distância de Hind. Em vão. Uma fuzilaria de tiros esmigalhou a ambulância e matou os dois socorristas a bordo. A menina ainda sussurrou que ouviu os tiros. Pouco depois, ouve-se nova saraivada de calibre grosso. E silêncio.

O conjunto de corpos na carcaça retorcida ficou naquela paisagem lunar por 12 dias, até poder ser recolhido. Inicialmente, Israel ainda tentou sustentar que, naquele dia, hora e local, não havia qualquer unidade de suas Forças Armadas capaz de atingir o veículo. Numa segunda tentativa, atribuiu as 335 marcas de bala no carro da menina a uma troca de tiros entre as Forças de Defesa de Israel (FDI) e militantes palestinos. A referência a uma investigação mais minuciosa por parte das FDI tampouco avançou.

Em compensação, levantamento empreendido pelo grupo interdisciplinar Forensic Architecture, da Universidade de Londres, reuniu provas em contrário e serve de base a um documentário produzido pela Fundação Hind Rajab e pela Al Jazeera, que identifica a brigada, o batalhão e os co- mandantes suspeitos de responsabilidade no caso. São, segundo o documentário, 20 os militares israelenses, com nome, sobrenome e patente, associados ao crime.

— A história de Hind carrega o peso de todo um povo — diz a atriz Saja Kilani, uma das personagens centrais do concorrente ao Oscar. — Sua voz é uma entre as dezenas de milhares de crianças mortas em Gaza nos últimos dois anos.

A semana passada é particularmente apropriada para falar em números de palestinos mortos por ação direta das FDI. Pela primeira vez desde o início da operação de terra arrasada contra Gaza, Israel admitiu aceitar os dados. Seriam, portanto, pelo menos 71,5 mil, sem contar aqueles cujos corpos continuam soterrados entre as ruínas do que sobrou. Desse total, segundo dados de julho de 2025, mais de 18.500 são crianças.

Crianças de Gaza cuja voz silenciada, como a de Hind Rajab, nos condena.

FONTE:

Ernani Terra ·

 

 

 

 

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Já havia postado aqui sobre o filme 'A voz de Hind Rajab'. Reproduzo agora artigo de Marcelo Miranda publicado na 'CartaCapital' desta semana, p. 54.

GUERRA E TERROR

'A voz de Hind Rajab' concorre aos Oscar e reconstitui a tragédia de uma palestina vítima dos israelenses

Em janeiro de 2024, na região de Tel al-Hawa, em Gaza, um carro com sete passageiros é alvejado por forças militares israelenses. Duas crianças sobrevivem ao ataque. Uma delas, de 15 anos, liga para a ONG Crescente Vermelho e pede socorro. Pouco depois ela é morta numa segunda investida. A garotinha de 5 anos, Hind Rajab, permanece viva no carro ao longo de muitas horas, em contato constante com a ONG enquanto aguarda a chegada de ambulâncias. Ao fim do dia, ela também não sobreviverá ao Exército de Israel.

O drama da menina é reconstituído num misto de ficção e documentário em 'A Voz de Hind Rajab', coprodução entre Tunísia e França que estreia na quinta-feira 29 nos cinemas. A direção é de Kaouther Ben Hania, e o filme vem embalado pelas indicações ao Globo de Ouro e ao Oscar de melhor longa-metragem internacional. No Festival de Veneza, onde teve estreia mundial no ano passado, ganhou o Grande Prêmio do Júri.

Para ampliar o impacto da tragédia na versão fílmica, a diretora se reapropria dos áudios originais da menina, gravados pela ONG, e os reproduz na íntegra enquanto o elenco de atores e atrizes reencena as tentativas de conseguir enviar ajuda para salvá-la. Há, então, o hibridismo de um arquivo real, que intitula o próprio filme, e a dramatização dos acontecimentos a partir de relatos dos envolvidos.

Questões éticas envolvem o uso da voz real de uma garota de 5 anos horas an- tes de ela morrer pelas balas dos militares, mas o longa-metragem se sustenta o suficiente nisso para tentar passar incólume por essas discussões. O choque de “reviver” Rajab pela sua voz para então ela morrer novamente a cada reexibição do filme é um recurso que não vai além de seu próprio efeito de horror.

É claro que o filme é emocionante, mas ter a voz real da garota, para além do dado extrafílmico (ainda que informado num letreiro), tem pouco lastro. Há carga forte de sensacionalismo, ainda que de intenções humanitárias, numa narrativa que sofre pela encenação carregada de interpretações melodramáticas a tentar repassar a angústia dos envolvidos.

Ainda assim, 'A Voz de Hind Rajab' tem causado muita comoção em plateias do mundo e não deverá ser diferente no Brasil. Há força nisso, além do fato de concorrer ao Oscar num ano de filmes de destaque na disputa, incluindo outro a lidar com traumas do Oriente Médio, 'Foi Apenas Um Acidente', do iraniano Jafar Panahi, e ainda o brasileiro 'O Agente Secreto'. FONTE:

Ernani Terra ·

 

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Artigo de André Miranda no Segundo Caderno de ‘O Globo’ de hoje, p. C2, sobre o filme ‘A voz de Hind Rajab’, em cartaz nos cinemas a partir de amanhã (29 de janeiro).

OBRA QUE USA O REAL PARA CONVIDAR A TOMAR POSIÇÃO

Qualquer reflexão sobre “A voz de Hind Rajab” começa, se desenvolve e termina no uso do áudio real de uma criança palestina de 5 anos, moradora de Gaza, extraído de uma conversa por telefone com socorristas do Crescente Vermelho - organização humanitária equivalente à Cruz Vermelha, só que para países majoritariamente muçulmanos. É nesse áudio que está a força do filme da diretora tunisiana Kaouther Ben Hania. É ele que tem feito o público sair profundamente impactado das salas de cinema.

A gravação foi realizada em janeiro de 2024, em meio ao conflito com Israel. O carro em que amenina Hind Rajab estava com a família foi

atingido, todos os outros ocupantes morreram, e ela acabou em contato com os socorristas através do celular de um parente. Na época, o

Crescente Vermelho se mobilizou para tentar resgatar a criança, inclusive com a divulgação de vídeos on-line outra mídia incorporada pelo filme, e acusou militares israelenses como responsáveis pelos disparos. Israel, por sua vez, sempre negou envolvimento.

A dramatização se passa quase toda dentro do escritório do Crescente Vermelho em Ramallah, na Cisjordânia, com atores profissionais interpretando os socorristas. Sua estrutura é a de um suspense, em que a tensão escala conforme o tempo avança e as possibilidades de resgate se estreitam. No centro de tudo isso,

ouve-se a voz de Hind Rajab.

Éaí que se impõe um dificil debate ético, sobre o uso de um áudio real com propósito artístico. Por um lado, a voz que confere um peso enorme à trama, é como se fosse a prova documental de um crime. Por outro, trata-se de um elemento do real inserido numa construção estética, com

montagem, ângulos de câmera e silêncios escolhidos intencionalmente para provocar comoção.

Pesa a favor do filme o fato de que esse tipo de fricção não é estranho à obra de Kaouther Ben Hania. Por exemplo, em seu trabalho anterior, o documentário "As 4 filhas de Olfa", a cineasta escalou as próprias protagonistas para dramatizarem lembranças traumáticas, encenando episódios da vida real em que filhas e irmãs foram aliciadas pelo Estado Islâmico.

O cinema recente de Ben Hania, portanto, se constrói justamente nesse vaivém sobre uma linha - imaginária, tênue ou talvez inexistente entre realidade ficção. "A voz de Hind Rajab" é a radicalização desse gesto: uma obra de arte queincorpora elementos do redal para incomodar e convidar os espectadores a tomarem uma posição.

FONTE:

Ernani Terra · 




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