Abismo entre o gabinete e escola

Abismo entre o gabinete e escola

O abismo entre o gabinete e o chão da escola 

Por trás do discurso técnico, a proposta de municipalizar 21 escolas estaduais da capital esconde a perda de vínculos e o apagamento da escuta

por Geana Krause

Sul 21 - sul21@sul21.com.br 

Escolas Mariano Beck  e Nossa Senhora de Fátima. Foto: Divulgação/Atempa
Escolas Mariano Beck e Nossa Senhora de Fátima.
Foto: Divulgação/Atempa

 

Por Geana Taisa Machado Krause (*)

 

Nem a chuva forte que caiu sobre Porto Alegre foi capaz de calar as vozes que se ergueram em frente ao Piratini. Debaixo de guarda-chuvas encharcados, estudantes, professoras e famílias gritavam contra o que o governo chama de “reestruturação” e a comunidade chama de desmonte.

Quando o Estado se cala, a escola grita.

A proposta de municipalizar 21 escolas estaduais da capital — dividindo a oferta do ensino fundamental entre município e Estado até 2029 — vem sendo apresentada como uma medida de “eficiência”. Mas por trás do discurso técnico, há o enfraquecimento das redes públicas, a perda de vínculos e o apagamento da escuta. A educação, reduzida à lógica da planilha, vai se afastando daquilo que a sustenta: o território, as pessoas, o pertencimento.

Em bairros atravessados por fronteiras invisíveis, onde circular pode significar arriscar-se, a escola é muito mais que um prédio: é porto, abrigo, referência. Transferir crianças sem considerar isso é planejar de cima, ignorando a vida que pulsa em cada comunidade. É um jogo de deslocamentos forçados em que quem perde sempre são os mesmos — os mais vulneráveis.

Essa decisão também fere um dos maiores legados da educação pública porto-alegrense: a gestão democrática. Foi aqui que nasceram os conselhos escolares, as eleições diretas e a formação continuada de educadores. Medidas que afirmaram a escola como espaço de cidadania — não como um braço burocrático do Estado. Quando o governo decide sem escutar, a democracia perde voz e a escola, sua alma.

Por trás da “reestruturação” está aquela velha agenda de eficiência administrativa na qual o Estado se retira, os municípios arcam com o custo e a educação vira despesa a ser cortada. A pedagogia da escuta dá lugar à pedagogia da planilha. Professores são deslocados, vínculos se rompem, e o chão da escola — esse espaço vivo de encontros — começa a ruir.

Porto Alegre foi, por décadas, um laboratório de ideias democráticas e práticas emancipatórias. Hoje, esse legado corre o risco de ser apagado pelo silêncio de quem decide sem ouvir.

É hora de sair do gabinete e voltar ao chão da escola — onde a educação acontece de verdade.

Porque sem comunidade, não há escola pública. E sem democracia, não há educação que emancipe.

(*) Mestre em Educação UFRGS, jornalista, psicopedagoga institucional e clínica, especialista em educação especial e Inclusiva e neuropsicóloga

FONTE:

https://sul21.com.br/opiniao/2025/11/o-abismo-entre-o-gabinete-e-o-chao-da-escola-por-geana-krause/ 




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