Alguma coisa mudou

Alguma coisa mudou

Alguma coisa mudou

Grande dia. Há dias em que a gente acorda e sente que alguma coisa mudou no ar. Não porque o mundo tenha resolvido todos os seus problemas, nem porque a humanidade tenha aprendido, de repente, a conviver com as diferenças. Mas porque, depois de tanto tempo assistindo à intolerância ocupar espaços, à violência tentar calar a palavra e ao ódio se apresentar como projeto de poder, a esperança volta a encontrar uma fresta por onde entrar.

Lula vence, e com ele renasce em milhões de brasileiros a sensação de que a democracia ainda vale a pena. Jair Bolsonaro está preso, e a história nos lembra que nenhum poder é eterno e que ninguém está acima da lei. Flávio Bolsonaro deixa o país, segundo as notícias que acompanham esse momento, e a família que durante tanto tempo ocupou o centro das disputas políticas brasileiras deixa de parecer invencível.

E, do outro lado do mundo, Benjamin Netanyahu pode perder uma votação e deixar o cargo de primeiro-ministro de Israel após anos no poder. Netanyahu pode perder o poder mesmo que seu partido, o Likud, continue sendo o maior partido individual. O que importa é a capacidade dos adversários de reunir uma maioria parlamentar e formar um governo alternativo. Uma nova composição política assume, reunindo forças diferentes, inclusive partidos árabes e de esquerda. Mais uma vez, a política demonstra que até estruturas aparentemente consolidadas podem mudar.

E os olhos também se voltam para os Estados Unidos, onde Donald Trump enfrenta uma crescente insatisfação popular. Pesquisas de opinião têm apontado níveis elevados de desaprovação ao seu governo, um sinal do desgaste político que enfrenta. Isso não significa que esteja prestes a perder o mandato, mas revela que até mesmo o poder da maior potência mundial está sujeito ao julgamento da sociedade e às regras da democracia. Nenhum governante deveria confundir o privilégio temporário de ocupar um cargo com o direito de decidir, sozinho, os destinos de um povo.

Não é preciso acreditar que todos os problemas terminaram. Não terminaram. Há guerras, crianças que ainda não conhecem a paz, famílias destroçadas, povos inteiros esperando o direito de viver sem medo. A prisão de um homem não encerra o bolsonarismo, assim como a mudança de governo em Israel não apaga o sofrimento de palestinos e israelenses. A paz não nasce de um único resultado eleitoral, nem se sustenta apenas na saída de um governante.

Mas existem dias em que os acontecimentos nos permitem respirar mais fundo.

Talvez seja isso que eu esteja sentindo. Uma espécie de descanso depois de anos de tensão. A vontade de tomar meu café sem carregar no peito a angústia de cada notícia. De olhar pela janela e perceber que a vida continua, que os animais dormem tranquilos, que as árvores seguem seu ritmo e que o mundo, apesar de tudo, ainda pode surpreender.

Nós lutamos sem fuzis, sem tanques, sem exércitos. Lutamos com palavras, com consciência, com votos, com a insistência de quem se recusa a entregar a democracia aos que desejam enfraquecê-la. Fomos atacados, hostilizados, chamados de inimigos. Houve momentos em que parecia que o ódio tinha tomado conta de tudo. Ainda assim, continuamos aqui.

E hoje eu penso em quantas pessoas, como eu, passaram noites inquietas, acompanharam cada apuração com o coração apertado e precisaram reunir coragem para não desistir daquilo em que acreditavam.

A política não é um espetáculo distante. Ela entra na nossa casa, altera o nosso cotidiano, interfere na nossa segurança, na nossa dignidade e na maneira como enxergamos o futuro. Por isso, quando os ventos parecem mudar, a emoção não é apenas política. É humana.

Eu não sei se estamos diante do começo de um tempo melhor. A história não oferece garantias, e a democracia exige vigilância todos os dias. Mas quero me permitir sentir esperança sem pedir desculpas por ela.

Hoje, quero acreditar que o mundo pode ser menos hostil, que a democracia pode sobreviver aos seus agressores e que a paz pode deixar de ser apenas uma palavra repetida em discursos.

Talvez estejamos diante de um daqueles momentos em que a história não muda de uma vez, mas começa a dar sinais de que o poder não é invencível, de que os povos podem reagir e de que a vontade de mudança continua viva.

Grande dia. Não porque o mundo esteja em paz, mas porque, depois de tanto tempo, voltamos a conseguir imaginar a paz sem que ela nos pareça uma ingenuidade.

E, às vezes, para quem passou tanto tempo resistindo, voltar a ter esperança já é uma maneira de respirar de novo.

FONTE:

Vânia Wolff 

 

 

 

 

Hoje de manhã, em São José do Rio Preto, minha terra, fui comprar pão. Na televisão da padaria passava uma notícia sobre Deolane Bezerra. A mulher do caixa aproveitou para entrar no assunto político e soltou a pérola do dia. Flávio Bolsonaro teria fugido porque, se ficasse no Brasil, Lula e Alexandre de Moraes o perseguiriam.

Resolvi fazer a ingênua. Mas eu soube que existem investigações, denúncias e fatos bastante sérios envolvendo a família Bolsonaro. Não seria melhor ficar e provar a própria inocência?

A resposta veio pronta. Tudo invenção do PT! Os filhos do Lula são bandidos e nenhum está preso! Basta ser Bolsonaro para ser perseguido!

É impressionante como o fanatismo transforma a realidade. Quando a suspeita envolve o adversário, a pessoa condena antes do julgamento. Quando envolve seu ídolo, exige que ninguém sequer faça perguntas.

Mas vamos aos fatos. No caso das rachadinhas, a investigação sobre Flávio Bolsonaro reuniu movimentações financeiras suspeitas e registros bancários. Há imagens de Fabrício Queiroz pagando, em dinheiro vivo, boletos escolares das filhas de Flávio. O Ministério Público sustentou que esses pagamentos estavam relacionados ao esquema de desvio de salários de assessores. A denúncia foi rejeitada depois de decisões judiciais que invalidaram elementos da investigação, e o caso terminou sem julgamento do mérito das acusações. Será que tudo foi inventado pelo PT?

Também existem vínculos documentados entre Flávio e Adriano da Nóbrega, miliciano cujos familiares trabalharam em seu gabinete e que recebeu homenagens parlamentares dele. Esses vínculos merecem escrutínio, pois é público o envolvimento dele com milicianos.

E há outro episódio que não pode ser ignorado. Jair Bolsonaro declarou que interferiria na Polícia Federal, provocando uma crise política que culminou na saída de Sergio Moro do Ministério da Justiça. O episódio levantou questionamentos graves sobre o uso do poder presidencial para proteger interesses familiares . Percebem a diferença? Eu não estou pedindo que ninguém condene Flávio sem julgamento. Estou pedindo que não transformem o arquivamento de um processo em prova de que todas as suspeitas eram falsas. A presunção de inocência é um direito fundamental, não uma licença para apagar fatos inconvenientes.

E pergunto àquela mulher da padaria. Se tudo isso envolvesse um filho de Lula, você aceitaria o encerramento do caso sem questionamentos? Ou estaria exigindo explicações, novas investigações e punições? É essa seletividade que me espanta. Para uns, qualquer suspeita é suficiente para condenar. Para outros, mesmo diante de registros, documentos e investigações, tudo vira perseguição. Quanto à fuga de Flávio Bolsonaro, não seria prova de culpa? Seria caracterizada perseguição? Quem se considera inocente tem direito de se defender, e a sociedade tem direito de exigir respostas. Não existe certificado automático de perseguição política para quem enfrenta problemas judiciais.

E o patriotismo? Onde fica quando interesses particulares, irregularidades e relações políticas são tratados como assuntos menores apenas porque envolvem os nossos? A pátria não pertence a partido algum. Defender o Brasil também significa cobrar transparência de quem diz representá-lo.Saí da padaria pensando em uma pergunta que continua sem resposta. Quantas provas, quantas notícias e quantas contradições serão necessárias para que algumas pessoas revejam suas certezas?

Não faltam informação, mas disposição para aceitar aquilo que contraria as próprias convicções. O fanático não examina os fatos para descobrir a verdade. Escolhe primeiro em quem acreditar e depois adapta a realidade à sua escolha. E assim a política deixa de ser exercício de cidadania e vira torcida organizada. O adversário é sempre culpado, o aliado é sempre perseguido e a Justiça só merece respeito quando decide a favor dos nossos. Não sei quando essas pessoas vão cair na real. Sei apenas que nenhuma democracia funciona plenamente quando o cidadão abre mão da própria consciência para proteger um político. O pão a gente compra na padaria. A consciência, não. Essa precisa ser cultivada todos os dias. E fica a pergunta que deveria valer para todos os lados. Se você tem tanta certeza de que seu político é inocente, por que tem tanto medo de que os fatos sejam examinados?

Bom dia!

FONTE:

Vânia Wolff 




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