André Lara Resende

André Lara Resende

Obrigado, André Lara Resende

Ele disse, com coragem e autoridade, que o rei está nu. Viu dogmatismo intelectual nos que fingiram ignorá-lo. Recorro a outra palavra: política — aquela cuja matriz é a luta de classes. E recomendo ao professor: aperte o cinto; as reações são tão mais violentas quão mais incontestável for a voz

.

Não é mais segredo para ninguém razoavelmente informado que são os juros que tornam a dívida pública um problema, mas as elites e seus ventríloquos midiáticos acusam os gastos, os gastos do governo – e todos sabemos a que se referem – o que pretendem cortar. A solução óbvia seria reduzir os juros, que paralisam a economia e tornam a taxa média de retorno da especulação financeira incomparavelmente superior à que os investimentos na economia real poderiam alcançar. Significa desestimulá-los, na melhor das hipóteses, e inviabilizá-los, na pior hipótese, quando o acesso ao crédito se torna proibitivo.

Os juros oscilam no mercado mas tomam como base a Selic, ditada pelo Banco Central, que se recusa a reduzi-la, significativamente, em nome da tese de que, se o fizesse, aquecendo a economia e, portanto, a demanda, provocaria inflação, no contexto de pleno emprego. A intenção é desaquecer, desempregar, aguardar sinais positivos dos fronts bélicos geopolíticos, exorcizar expectativas negativas e, então, lentamente, afrouxar as rédeas com que os juros sufocam a vitalidade econômica. O círculo vicioso concentra renda, aprofunda desigualdades, enriquece os rentistas e se realimenta da indigência, do desalento, da depressão generalizada – solo estéril, mas fertilíssimo para adesões pretensamente antissistema da extrema direita.

Por isso, o que parecia óbvio, reduzir a Selic, constituiria suprema heresia: eis o mantra reiterado ad nauseam pelos consultores do mercado, ouvidos e chancelados pela mídia corporativa, dia e noite, sem que se dê nenhuma chance ao contraditório.

Ao presidente, ainda refratário ao fiscalismo, ainda resistente às chantagens para que promova o “ajuste das contas públicas”, ainda não rendido a uma guinada rumo a “políticas de austeridade” – ao presidente, pedras e ameaças. A pior delas, mais radical do que o impeachment, seria a fuga de capitais, a desestabilização do câmbio (um maremoto superior ao contrapeso que o fundo soberano poderia lhe opor), provocando explosão inflacionária e seu cortejo de horrores. Nesse caso, o impeachment seria apenas o epílogo de um desastre que custaria perdas irreparáveis às forças democráticas e ao país.

Haveria razões para uma onda inflacionária? Se o câmbio fosse seriamente atingido, sim. Vê-se, então, que tudo converge para um ponto: haveria fuga de capitais? Haveria motivo para uma corrida ao dólar e a mercados mais atraentes à especulação, se os juros, mesmo caindo expressivamente, mantivessem um diferencial que garantisse a lucratividade oferecida pelo real? Os profetas do caos, escoteiros do apocalipse, rosnam, sádicos: sim, sim, porque mesmo a vantagem preservada por esse diferencial seria percebida pelos grandes especuladores como inferior aos riscos. Mas riscos de quê? Riscos de que sua corrida para o dólar acontecesse. Em outras palavras: riscos de que ocorresse o que eles fariam ocorrer. Ou seja, gestam a profecia e se condenam a cumpri-la, como se a sua própria ação fosse um destino inexorável e exterior à sua ação.

O jogo da expectativa existe e engendra paradoxos, é verdade: o que é racional, individualmente, pode tornar-se irracional, coletivamente. De fato, esses dilemas são correntes na sociologia. Mas justamente por serem triviais e muito comuns, a sociedade inventou um remédio bastante eficaz: chama-se política, acordo, pactuação, negociação, entendimento entre interesses contrários.

Entretanto, o puzzle da chantagem foi propositalmente plantado justamente como ação política, como vacina contra a política que as elites rentistas e seus ventríloquos lutam ferozmente para evitar: uma solução política que viabilizasse o entendimento transparente em torno de um projeto minimamente razoável e justo de país, esse projeto que as urnas anunciaram, para além das margens de erro. As elites sabem que o bloqueio a alternativas desenvolvimentistas é político, não é parte da natureza da economia, porque é política a chantagem econômica a que se devotam como adictos antecipando a abstinência. Aliás, isso nos leva à questão das bets, intrinsecamente ligada ao universo especulativo do capitalismo financeiro. Mas isso é matéria para o próximo artigo.

O papel notável nisso tudo de André Lara Resende foi simplesmente dizer que o rei está nu. Disse com coragem e autoridade, e pôs o dedo na ferida. Ele avalia que a indiferença com que foi tratado denota dogmatismo intelectual, além, eventualmente, de alguns compromissos. Eu prefiro nomear a negligência e depois os arroubos negacionistas de seus colegas, recorrendo a outra palavra: política, é de política que se trata, professor. Política, aquela cuja matriz é a luta de classes. Sei que sua persuasão liberal não o levaria tão longe. Obrigado por sua coragem e sua lucidez. Reconhecer a nudez real não é pouca coisa. Daí minha recomendação solidária: aperte o cinto. As reações são tão mais violentas quão mais incontestável for a voz.

FONTE:

https://outraspalavras.net/mercadovsdemocracia/obrigado-andre-lara-resende/ 




ONLINE
29