Avaliação do segundo turno
Avaliação do segundo turno: Donde saíram os 10,4 milhões de votos da vitória de Lula?
A virada eleitoral é analisada a partir da mudança no comportamento dos eleitores, da migração de votos e do papel das redes sociais na disputa.
Editado em 30 de outubro de 2026

Próximos estamos das orelhas de milhões,
do brasileiro, do esquimó, do espanhol
Que murmure solitário o bacharel.
Estou contente por vivermos neste tempo
em que se canta pelo céu.
Maiakóviski, À Arte Soviética
Eu aprendi nesse segundo turno a grande lição
da minha vida: quando o governante não
sabe o que fazer, ele pergunta ao seu povo,
que seu povo saberá o que fazer!
Lula da Silva,
Comemoração da Vitória na Paulista, Out.26
1. Mais que uma vitória: um marco histórico
Ainda estamos todos nos beliscando para ter certeza de que não foi um sonho e que estamos genuinamente acordados. Estamos em festa e ela é merecida e deve ser comemorado. Como disse Gregório Duvivier, nós não vencemos apenas a Globo, o SBT, a Veja, a Folha de São Paulo ou o Estadão. Nós dobramos as big techs (Meta, X, etc.), a Faria Lima, Trump, Netanyahu, as Milícias, o Comando Vermelho e a frente ampla “liberal-privateira”, que unifica agentes (que se querem, mais do que efetivamente são) díspares como Eduardo Leite (que anunciou “neutralidade” no segundo turno das eleições mais importantes do Brasil pós-Ditadura) Tarcísio de Freitas, Daniel Vorcaro, Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro. Foi uma vitória épica.
Mas não basta festejar essa vitória. É preciso entendê-la. Vou apresentar minha leitura do que se passou e já anuncio o elemento mais polêmico dessa interpretação. Acredito que a virada não se deu após o primeiro turno; mas começou antes. Tenho plena consciência de que essa é uma tese paradoxal. Afinal, não pode haver “virada” se não houve uma derrota inicial. E, de fato, ela ocorreu no primeiro turno. Lula obteve menos votos do que Bolsonaro e os candidatos conservadores (aliados de Flávio) aos Governos Estaduais venceram nos estados mais ricos da federação (São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina) sem necessidade de segundo turno. E isso sem falar na “lavada” nas eleições para o Senado, que nos brindou com figuras como Ubiratan Sanderson (PL-RS), Marcel Van Hattem (Novo-RS), Carol de Toni (PL-SC), Carlos Bolsonaro (PL-SC), Filipe Barros (PL-PR), Deltan Dallagnol (Novo-PR), Guilherme Derrite (PP-SP), André do Prado (PL-SP), Carlos Portinho (PL-RJ), Carlos Jordy (PL-RJ), dentre outros.
Não estou negando nenhuma dessas obviedades. O que eu estou tentando dizer é que não haveria como se construir uma “virada” tão monumental se ela já não estivesse sendo preparada desde antes. Para ir ao ponto: o General Janones só alcançou incorporar 10 milhões de soldados para o Exército de Lula porque os novos “Voluntários da Pátria” já se encontravam de prontidão. E não só porque vivemos todos imersos em redes (ainda que a esquerda em geral e o PT em especial não tivessem despertado plenamente para essa realidade). Mas também porque houve uma abertura para que “agentes estrangeiros ao petismo raiz” fossem incorporados como “coordenadores adjuntos” da campanha. E foi Lula que abriu – de forma paulatina, sem atropelos, mas de forma resoluta – esta porta. E o fez não apenas pela sua proverbial e reconhecida capacidade de aglutinação política: Lula foi muito além de seus movimentos tradicionais: ele não atraiu apenas lideranças políticas consolidadas, com estatura e envergadura para se colocarem, inclusive, como alternativas na disputa presidencial. Lula percebeu muito antes dos demais caciques do PT que a briga seria (como foi) muito feia e que era preciso ir além das costuras pelo alto que levaram à incorporação de quadros como José Alencar, Henrique Meirelles, Nelson Jobim, Marina Silva, Luis Fernando Furlan, Geraldo Alckmin ou Simone Tebet em seus mandatos anteriores. Lula sinalizou para o “baixo clero emergente”, para a turma do Janones. E este foi um passo muito ousado.
Para que se entenda adequadamente este movimento é preciso entender que ele é “orgânico”. Não se trata de convidar fulano ou cicrano para atuar na campanha e, em troca, prometer essa ou aquela pasta ministerial num eventual próximo governo. A partir da metade de 2026, Lula percebeu que era preciso ouvir o povo, dialogar com ele e atender as reivindicações que a turma do Planalto Central não conseguia sequer ouvir (veja a segunda epígrafe deste texto, acima).
Acredito que Lula preparava a inflexão à qual me refiro desde, pelo menos, sua fala histórica na Primeira Reunião de Mobilização Progressista Global (MPG), em abril deste ano em Barcelona. Mas ele só começa a operar efetivamente a transição na política econômica em curso no segundo semestre de 2026, quando Haddad já estava afastado de suas funções como Ministro da Fazenda. São vários os marcos dessa transição, mas há alguns elementos marcantes, que merecem ser listados: 1) o reajuste do Bolsa-Família; 2) o fim das BETs; 3) o Novo Desenrola (finalmente, a juros realmente módicos: dignos de Pronaf e Plano Safra); 4) a nova política para as MEIs; 5) a mobilização pelo fim da jornada 6 x1; e 6) o anúncio do projeto para a criação de um sistema nacional cooperativo de transporte público por aplicativo.
Esses movimentos envolvem três inflexões importantes. Em primeiro lugar – como muito bem diagnosticaram os jornalões conservadores do país (que chamaram as medidas de eleitoreiras) -, Lula colocou o compromisso com o equilíbrio social e com o bem-estar da população acima do compromisso com o equilíbrio fiscal. Não se trata de abandonar a busca do equilíbrio fiscal. Trata-se apenas de – coerentemente com sua fala de Barcelona – compreender que um governo progressista não pode colocar a austeridade acima do compromisso com o enfrentamento da desigualdade.
A segunda inflexão é de foco da política socioeconômica. As novas políticas anunciadas por Lula voltam-se ao precariado; aquele parcela da população trabalhadora que vem se tornando redundante para o capital com a aceleração do progresso técnico poupador de mão-de-obra. Mesmo aquela parcela da classe trabalhadora contemporânea que está formalmente empregada tem plena consciência da precariedade de sua inserção profissional. A automação e a robótica já eliminaram parcela expressiva dos postos de trabalho na indústria; e avança celeremente sobre a agricultura e sobre os serviços. Não há segurança alguma. E o sonho de muitos é a criação e sustentação de um pequeno negócio. De preferência, sem os oligopólios que fazem a intermediação dos serviços e – como a Uber – mudam as regras da “parceria” ao seu bel prazer e quando bem entendem. O apoio às MEIs e o anúncio de uma nova plataforma cooperativa com apoio estatal é um grande passo. Mas ainda há muito que andar. Oxalá, este movimento persista e se aprofunde.
A terceira inflexão é mais sutil e diz respeito à disposição para interlocução. Ao colocar o compromisso com o equilíbrio social acima do compromisso fiscal, ao adotar iniciativas que vão de encontro aos interesses do capital (como o fim da escala 6 x 1 e o compromisso com a criação de uma plataforma nacional cooperativa de transporte por aplicativo), ao alterar o regramento para MEIs, ao ampliar o valor do Bolsa-Família, ao enfrentar as BETs, ao propor um novo Desenrola “não-fiscalista”, vejo Lula dando um recado para a “turma da cobertura”: já que todos os meus esforços para conquistar a confiança, respeito e apoio de vossas senhorias têm se mostrado improdutivos (e vocês insistem em apoiar o fascismo, mesmo sob o risco da perda da soberania nacional), vou me dedicar a dialogar com os moradores dos andares de baixo. Em especial, com a turma do térreo e do subsolo.
Creio que um marco desse privilegiamento do diálogo com os “simples” foi a decisão de Lula, ainda antes do primeiro turno, de se recusar a ir ao debate dos presidenciáveis organizado pela Globo e dar uma entrevista para o Flow. Um sem-número de “petistas-raiz” torceram o nariz para esta decisão de Lula; argumentando que o veículo havia sido criado por dois comentaristas de direita: Igor 3K e Monark. Pretendiam, também, que a audiência seria pequena e que o público seria essencialmente conservador; confundindo a audiência ao vivo com a audiência posterior (inclusive a partir dos cortes feitos pela equipe do Flow e pela equipe de marketing da campanha de Lula) e demonstrando sua incapacidade de entender a importância de “furar a bolha”. Foram os mesmos “petistas raiz” que torceram o nariz pela criação do “Exército de Lula” sob a liderança de André Janones, um sujeito com uma trajetória política “camaleônico-complicada”. Não deixa de ser interessante observar que, como regra geral, os críticos de Igor 3K e Janones são bem mais tolerantes com figuras que, no passado, também tiveram (senão os dois, pelo menos) um pé na direita, como o influenciador Felipe Neto e o capo de tutti capi do ICL, senhor Eduardo Moreira. Será que eu estaria sendo preconceituoso se achasse (é só achologia, tá xenti?) que o fato de Neto e Moreira serem jovens, bonitos, elegantes, ricos e cultos contribui para que nos olvidemos de seus “pecadilhos passados”?
A pergunta acima é e não é retórica (com o perdão da dialética básica!). É retórica no sentido de que é uma provocação “para ajudar a pensar”. E não é retórica no sentido de que ainda há, sim, um profundo elitismo no pensamento da esquerda tupi. Definitivamente, a esquerda brasileira parece não haver entendido dois elementos cruciais. Em primeiro lugar, que o processo de conscientização e desenvolvimento de uma leitura crítica do mundo passa pelo diálogo, pela dialogia, pela dialética e pela maiêutica radical. E esse diálogo, hoje, passa pelas redes sociais e pelos veículos de informação não tradicionais. Veículos em que os debates se realizam sem filtros, sem pudores e sem qualquer apego aos cânones do politicamente correto. E as pessoas aprendem muito nesses veículos. Tanto os que acessam e ouvem os debates, quanto aqueles que os organizam e participam da conversa ao vivo. O segundo ponto que é fundamental entender é que os governos petistas alimentaram, sim, um processo de inclusão social pela distribuição da renda e, por extensão, pelo acesso ao consumo. Mas esta “patuleia emergente” não é como a antiga classe média, cujos pais eram advogados, professores, profissionais liberais, comerciantes etc. e que estudaram nos melhores colégios públicos ou privados. A “patuleia emergente” é tosca. Mas também aprende. Do seu jeito e ao seu tempo. De preferência, sem doutrinação, plisssss!
Igor 3K aprendeu muito do que sabe por aí. Janones, idem. Julian Lemos, também. E viu de perto (até demais) o que é o bolsonarismo e o que ele provoca. Idem, Joice Hasselmann. Idem, o General Santos Cruz. E não tem cabimento exigir “comprovante de bons antecedentes políticos” para esta turma. O Brasil está mais do que polarizado: está à beira de uma guerra civil (em muitas favelas do Brasil afora, já passou – e muito – da “beira). E não é hora de fazer “nojinho” para quem quer que se disponha a cerrar fileiras conosco. Lula não fez “nojinho”. E dialogou franca e abertamente com Igor e Janones. E até colocou parte da entrevista do General Santos Cruz em sua propaganda eleitoral televisiva. Grande Lula, bravo Lula, inteligente Lula! O que será de nós quando nos abandonares?
Em suma; do meu ponto de vista nossa derrota no Primeiro Turno foi filha do 1) bom-mocismo daqueles que acreditam que seja possível ganhar a Faria Lima com equilíbrio fiscal (quando eles estão apenas interessados em mais privataria); 2) da arrogância dos que acreditaram demais em indicadores econômicos, tais como baixa taxa de desemprego, salário real em alta, taxas de crescimento do PIB relativamente elevadas etc. e que alardeavam aos quatro ventos que venceríamos no primeiro turno; 3) dos “puros”, que não dialogam com os emergentes mal-educados (especialmente com aqueles foram ou ainda são conservadores). A virada começou antes da derrota. Por mais incrível que possa parecer. Mas os movimentos de Lula foram tardios. Com Janones e seu Exército fizemos chegar ao povo dos mais diversos rincões as mensagens que precisávamos passar.
2. A Virada
Abaixo estão três Quadros (1, 2 e 3) com dados eleitorais do Primeiro e do Segundo Turno no Brasil e no Exterior. Eu poderia apresentar os dados num único Quadro. Mas optei por apresentá-los separadamente em prol da clareza. Pois eles não contam com o mesmo número de colunas, por razões que se tornarão evidentes logo adiante.



No Quadro 1 temos os resultados do primeiro turno; no Quadro 2, do segundo turno; e no Quadro 3, a diferença de votação nos dois candidatos que foram ao segundo turno. Evidentemente, não consta do Quadro 2 a coluna referente à votação nos “Outros Candidatos”. E não consta do Quadro 3 – cujo tema são as variações – a coluna sobre “Votos Potenciais” (vale dizer: o colégio eleitoral, o número máximo possível de eleitores; esse número é constante). Em compensação, introduzimos como último coluna do Quadro 3 a variação (absoluta e percentual) do número de votos válidos, que traduzem a diminuição da abstenção e do número de votos brancos e nulos entre os dois turnos. Vale salientar que calculamos o percentual dos votos: a) em cada candidato; b) “nulos e brancos”; e c) das abstenções tomando por base o total de votos possíveis. Essa referência é distinta do padrão adotado em diversas avaliações, que avaliam os percentuais a partir, ou do número de eleitores que oram votar (inclusive nulos e brancos), ou do número de votos válidos (exclusive nulos e brancos).
Os três Quadros devem ser lidos em simultâneo. Proponho olhar primeiramente para o Quadro 3. O que se observa? Que a votação em Lula cresceu em 10,4 milhões de eleitores (19,26% acima da votação do primeiro turno); enquanto Flávio Bolsonaro obteve 3,7 milhões de votos a mais (6,63% acima do primeiro turno). Mas há uma diferença crucial na evolução dos votos internos e dos votos no exterior. O crescimento da votação de Lula no exterior foi ainda maior em termos percentuais (27,17%), mas o crescimento da votação em Bolsonaro também foi expressivo (19,18%). Outra diferença instigante: a queda dos votos nulos e brancos no exterior, seja a absoluta (-1.092 votos), seja a percentual (-10,03%) foi muito pequena e significativamente inferior à queda do “voto inválido” no Brasil: 1,82 milhões de votos foram validados entre o primeiro e o segundo turno: uma queda de -30,52% nos votos Nulos e Brancos. Igualmente bem, a queda nas abstenções foi percentualmente mais expressiva (-8,88%) no Brasil do que no exterior (-6,9%). Em suma: a virada foi interna. A variação da votação externa foi pouco significativa.
Por que isso é tão relevante? Porque há um elemento de estratificação socioeconômica que diferencia o voto externo do interno: quem vive no exterior e mantém vínculos políticos, culturais e afetivos com o Brasil (e conta com recursos para se deslocar até os -poucos e raros – consulados com seções eleitorais) é – como regra geral sujeita a exceções – de estrato socioeconômico superior. E, por isso mesmo, a dinâmica peculiar do voto no exterior serve como uma proxy da evolução do voto entre estratos sociais. O que ela sugere é que a “virada extraordinária” entre o primeiro e o segundo turno das eleições de 2026 não se deu, fundamentalmente, entre a elite.
Isso não implica negar o fato – evidente! – de que a virada também se deu em segmentos da elite e no exterior. Na verdade, se a evolução percentual dos votos internos nos dois candidatos fosse a mesma, do exterior, Lula também teria vencido as eleições. Mas o faria por uma margem muito inferior. Venceria por apenas 1,7 milhões de votos, ao invés de vencer – como ocorreu – por 4,4 milhões de votos.
Analisemos, agora, a evolução dos votos totais om mais atenção. Flávio obteve 3,72 milhões de votos a mais do que no primeiro turno. Isso corresponde a 39,94% dos votos dos demais candidatos no primeiro turno (que foi de 9,32 milhões). Este dado já é, por si mesmo, muito intrigante. Afinal, Caiado, Zema, Cury e Santos – os 4 candidatos do campo conservador – receberam quase a totalidade (97,2%) dos votos “alternativos”. Imaginar que Flávio obteve menos da metade dos votos dos candidatos eliminados do segundo turno envolve pressupor que Lula auferiu 60% desses votos (5,6 milhões) mais a totalidade dos votos daqueles que deixaram de votar nulo ou branco (1,82 milhões) mais a totalidade dos votos daqueles que haviam se abstido e se fizeram presente no segundo turno (2,96 milhões): 5,6 + 1,82 + 2,96 = 10,38 milhões de votos. Ora, isso não é apenas inverossímil: está errado, como demonstraremos adiante ao analisar as correlações entre variação das abstenções e nulos e a variação na votação dos dois candidatos. Assim como parte da queda da abstenção dos votos no exterior foi canalizada para Flávio, o mesmo ocorreu no Brasil.
Onde está a “mágica”, então? Simples: parte dos que votaram em Flávio no primeiro turno votaram em Lula no segundo turno. Flávio recebeu mais do que 40% dos votos “alternativos”, assim como recebeu parte dos votos daqueles que abriram mão de se abster (como haviam feito no primeiro turno) e parte dos votos daqueles que optaram por validar seu voto ao invés de anulá-lo. O fluxo em direção a Flávio certamente superou os 3,7 milhões de votos a mais que ele obteve no segundo turno. Mas ele perdeu votos “para si mesmo” entre os dois turnos! Senão, vejamos.
Em 938 dos 5.571 municípios brasileiros, Flávio Bolsonaro obteve menos votos no segundo turno de 2026 do que no primeiro turno: perdeu 133,9 mil votos nesses municípios. A votação em Lula cresceu em 487 mil votos. Ora, só emergem reversões desse tipo onde o colégio eleitoral total é relativamente pequeno. No caso, ele é de 13,4 milhões de votos (8,44% do colégio eleitoral total). Mas há um outro elemento importante: em 727 desses 938 municípios onde Flávio obteve menos votos no segundo turno do que no primeiro, a abstenção cresceu, passando de 2,69 milhões (20,1% dos votos potenciais) para 2,97 milhões (22,16% dos votos potenciais). Este movimento vai na contramão da evolução da abstenção no colégio eleitoral total (interno e externo): ela foi de 21,08% no primeiro turno e de 19,22% no segundo turno. Esses dados estão sistematizados no Quadro 4, abaixo.

O primeiro a observar é que os municípios em que a votação de Flávio Bolsonaro foi menor no segundo do que no primeiro turno já apresentavam – em média – um viés pró-Lula, que conquistou 46% dos voto potencial (e 59,9% dos votos válidos) na primeira etapa da disputa eleitoral. Esse viés tem uma base geográfica: 585 dos 938 municípios onde Flávio “perdeu para si mesmo” estão localizados no Nordeste, sendo 171 apenas no Maranhão. Mas a amostra é um pouco mais representativa do que pode parecer num primeiro momento.
Flávio perdeu “para si mesmo” em 115 dos 139 municípios de Tocantins, apresentando menos votos totais nesta UF no segundo turno do que no primeiro. Os municípios onde a queda de votação de Flávio foi mais expressiva foram, em ordem, Macapá (AP, – 3.875 votos); Sena Madureira (AC, – 2.292 votos); Tarauacá (AC, – 2.135 votos); Cruzeiro do Sul (AC, – 2.069) e Rorainópolis (RR, – 1.389). Mais: a perda líquida de votos entre o primeiro e o segundo turno manifestou-se – ainda que de forma distinta, com intensidade distinta – em municípios de 24 Unidades da Federação. Os únicos estados onde Flávio não apresentou um único município com queda de votos entre o primeiro e o segundo turno foram Espírito Santo (um Estado com poucos municípios), Goiás (onde se deu o maior crescimento dos votos em Flávio, alavancado pela movimentação de Ronaldo Caiado) e o Distrito Federal (que é uma UF indivisa, sem municípios).
Além disso, há um outro componente interessante nessa perda de votação. Observemos a última linha do Quadro 4. A perda absoluta de votos foi discreta: 133.907 votos; uma perda média de 143 votos por município (133.907 / 938). E isso não pode surpreender. Tal como vimos em nossa análise dos resultados do primeiro turno, a probabilidade de “viradas eleitorais absolutas” – vale dizer, envolvendo a conquista de uma votação inferior à votação inicial – é tão maior quanto menor for o colégio eleitoral. Um exemplo heurístico: se o colégio eleitoral é de 10 pessoas e a abstenção é de 30%, haverá apenas 7 votos; se os eleitores estão divididos em dois grupos equivalentes, basta que uma pessoa mude o voto para que o resultado “vire” de 3 x 4 para 4 x 3. Essa questão pode parecer pueril, mas não é. Ela nos ajuda a entender que, na verdade, Flávio perdeu mais eleitores entre o primeiro e o segundo turno do que a amostra acima parece informar.
Imaginemos que os 462.463 votos dados aos “Outros Candidatos” no primeiro turno nos 938 municípios do Quadro 4 tenham se dividido igualmente em três porções: 154,1 mil votos foram para Lula; 154,1 mil votos foram para Flávio e 154,1 mil eleitores se abstiveram. Ora, mas se foi assim, Flávio recebeu mais de 154 mil votos “novos”. Como explicar que ele tenha perdido 133.907 votos no segundo turno em relação ao primeiro? Isso só é possível se 288 mil eleitores de Flávio do primeiro turno migrassem para outras alternativas. Como a abstenção cresceu em 274,9 mil votos e, pela hipótese que levantamos acima, 154,1 mil se originaram de eleitores que optaram pela “terceira via” no primeiro turno, apenas 120,8 mil eleitores de Flávio podem ter feito esta opção. Como os votos brancos e nulos não subiram mas, ao contrário, caíram, somos obrigados a concluir que no mínimo 167 mil eleitores que votaram em Flávio no primeiro turno migraram para Lula no segundo turno. E isso imaginando que a totalidade – sem exceção! – dos eleitores que validaram seus votos no segundo turno (vale dizer; não anularam seu voto, nem votaram em branco) migraram para Lula. Só assim podemos entender que Lula tenha ampliado sua votação em 486.912 votos: ele teria obtido os 165.443 votos validados (que foram Brancos e Nulos do primeiro turno), 154,1 mil votos (1/3) da “terceira via” mais 167 mil votos que foram de Flávio e deixaram de ser.
Evidentemente, essa é apenas uma dentre infinitas possibilidades: não há como resolver o sistema de forma categórica, pois não contamos com informações suficientes e há mais variáveis do que equações disponíveis. Porém, seja qual for a hipótese que se adote é preciso admitir que parcela dos eleitores que votaram em Flávio no primeiro turno, migraram para Lula no segundo turno. Outro exemplo: imagine que o crescimento da abstenção foi determinado, todo ele, por eleitores que optaram pelos “Outros Candidatos” no primeiro turno. Como o crescimento da abstenção foi menor do que os eleitores dos demais candidatos no primeiro turno, a equação só fecha se admitirmos que todos os eleitores da “terceira via” (Caiado, Zema, Santos e Cury) que não se abstiveram (187.562 = 462.463 – 274.901) votaram em Lula no segundo turno. Que também teria recebido todos os votos que foram validados no segundo turno mais todos os votos que Flávio perdeu: 486,9 = 187,6 + 133,9 + 165,4. Do meu ponto de vista, esta segunda hipótese é ainda menos verosímil que a primeira. Mas o que todas elas nos dizem é: eleitores de Flávio no primeiro turno votaram em Lula no segundo turno. E isso foi assim em todo o Brasil. Mesmo em municípios onde Flávio não apresentou queda na votação entre o primeiro e o segundo turno. Na dúvida, releia os dois parágrafos acima, que antecedem o Quadro 4.
Por que estou insistindo nesse ponto? Porque ele coloca luz num elemento da maior importância: não podemos identificar o crescimento da votação em Lula com a queda das abstenções, com a queda dos votos nulos & brancos e com a convergência de 60% (percentagem pouco verossímil) dos votos da “terceira via” para Lula. As denúncias dos inúmeros malfeitos de Flávio que foram espalhadas Brasil afora pelas redes sociais sob comando do “General Janones” tiveram elevadíssimo impacto e chegaram nos mais distantes grotões do Brasil. O processo eleitoral brasileiro de 2026 operou um salto no nível de informação e no desenvolvimento da consciência crítica de uma enorme parcela da população. E uma das expressões mais claras desse “despertar da consciência” é a queda muito significativa dos votos nulos e brancos. Por quê?
Porque, ao contrário da abstenção (que resulta das mais diversas determinações, da ausência por motivo de viagem ao trabalho no fim-de-semana, passando por puro e simples cansaço e exaustão no mundo em que ainda vige a escala 6 x 1), o voto branco e nulo expressa apenas desilusão: o eleitor foi até a seção depositar seu voto, mas não alcança ver diferença entre as candidaturas disponíveis; este é o típico eleitor para o qual “todo o político é igual”; é a vítima maior da demonização da política composta, orquestrada e reproduzida exaustivamente pela – mais que conservadora – perversa mídia nacional. Porém, entre um turno e outro, os votos brancos e nulos caíram 30,48%. E, como veremos na próxima seção mais até do que a abstenção, este novo-votante depositou sua confiança em Lula. O que nos traz mais uma novidade que tem que ser saudada: a pecha de “corrupto” saiu de Lula e grudou em Flávio. E isso é uma pequena-grande revolução. Essa é a verdadeira transformação dessas eleições: organizado e em rede o Brasil crítico se impôs, e fez chegar sua leitura a todos os rincões e a uma parcela muito expressiva dos lares do país. Foi, de fato, gol de tricicleta carpada. Salve Lula; salve Janones; salve o Exército de Lula.
3. O papel da queda nos votos nulos e brancos e nas abstenções na vitória épica
Carlos Águedo Paiva
Economista, Doutor em Economia e Diretor da Paradoxo Consultoria Econômica.
FONTE:
Foto de capa: Carlos Paiva | IA



