Bolsonaro e o senso comum

Bolsonaro e o senso comum

*Bolsonaro e o senso comum*

Juremir Machado da Silva

"O homem que se ensanguenta de excitação vendo José Luís Datena vota em Jair Bolsonaro. O homem radical do senso comum que se farta vendo Faustão, Ratinho ou Luciano Huck como o melhor que já se produziu vota em Bolsonaro em nome dos bons costumes. O homem do senso comum que passa a vida vociferando na frente da televisão vota em Bolsonaro. O senso comum não sussurra. Grita suas verdades. Não se intimida. Exibe o seu ódio. Não pondera. Desfila suas simplificações definitivas. O senso comum sabe tudo, sabe de tudo, sabe até o que não sabe. Não sente vergonha, berra: “Bandido bom é bandido morto”. O machão que se sente desvalorizado na sua virilidade com o empoderamento das mulheres e dos LGBT vota no capitão. O senso comum sai do armário e grita em praça pública: “Odeio cotas, odeio o bolsa-família, odeio índios com terras demarcadas, odeio pobres”. O capitão tenta disfarçar para garantir votos. Não adianta. O seu eleitor fala.


O senso comum convence o pobre de que ele é pobre exclusivamente por sua culpa. O general Mourão, vice do capitão, desenhou para o mundo entender a profundidade da sua ideologia alimentada pela antropologia do século XIX: a nossa indolência vem do índio; a malandragem, do negro; a beleza, do branco (“Meu neto é um cara bonito, viu ali? Branqueamento da raça”). Brincadeira de milico rude? Racismo que não se envergonha de marchar em ordem desunida? Flagrante de uma visão que saiu do armário e desfila na esfera pública.


O senso comum de classe média revolta-se contra o politicamente correto, garante que há exagero nas denúncias de assédio sexual, considera vagabundo quem precisa de auxílio de políticas públicas, acha salutar certo trabalho infantil, especialmente do filho dos outros, os filhos dos pobres, assegura que algumas mulheres provocam o estupro, admira Donald Trump, sonha com a volta dos militares, ataca a corrupção e pede nota fria para enganar a Receita Federal. E vota em Bolsonaro. Vota com entusiasmo no “mito” que trará de volta os “bons velhos tempos”. O senso comum tem certeza de que criança precisa de palmada e, às vezes, até de uma “boa” surra para se educar e aprender os bons valores, os valores da ordem e da dominação branca masculina.


O senso comum é um senhor de ceroula no portão de casa que discursa sentindo-se coberto por justa indignação e um fraque de mentirinha: “Não se pode mais chamar negro de crioulo nem gay de viado. Um absurdo! Onde já se viu!? Estamos numa ditadura. Um homem de bem não tem direito a mais nada. Homem não pode mais nem gostar de mulher. Vamos ser todos putos”. E vota em Bolsonaro. O senso comum odeia a corrupção, mas odeia mais a corrupção de uns que a de outros, odeia mais a “corrupção” de costumes que o roubo do dinheiro público, embora diga o contrário, pois é o que provoca mais empatia. O senso comum culpa o Estado por existir e nunca imagina que o Estado seja apenas uma forma de organização da sociedade. Sentindo-se livre, leve e solto, o senso comum se acha erudito e ensina: “O nazismo era de esquerda, The Economist não é liberal, Pinochet foi um democrata”. 


E vota em Bolsonaro. Vota com paixão. O homem do senso comum carrega o pior nas entranhas e sente vontade de vomitá-lo para regar o mundo com seu fel, que considera um adubo. No mundo do homem do senso comum há uma hierarquia a ser respeitada. O modelo desse mundo ideal é o quartel. É um mundo sem manifestações, sem greves e sem pessoas interrompendo ruas para protestar contra racismo, homofobia, machismo, xenofobia, sexismo e outros que tais. A forma de governo desse velho novo mundo é o que Álvaro Larangeira chama de ignorancialismo. O homem do senso comum, que encontrou nas redes sociais o campo ideal para a sua intolerância, embriagado de pretensa sabedoria, sobe num toco e insulta o mundo com sua teimosia. Uiva: “Abaixo o comunismo”. E vota em Jair Bolsonaro para salvar o Brasil de Mao, Lenin e Fidel Castro.


Quem salva o Brasil do homem do senso comum?"

 

https://www.facebook.com/jaqueline.moll/posts/2168742456734318 




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