Carta ao Túlio

Túlio, caríssimo.
Receba desde já as sempre necessárias saudações pela brilhante carreira, iniciada aqui em gramados goianos – fazendo bonito no Goiás Esporte Clube, que tanta dor de cabeça já deu ao meu Vila Nova, mas isso é passado. Aliás, é com o passado que você ultimamente anda parecendo demonstrar fortes laços, meu caro Túlio. E laços, convenhamos, são o que há.
Entendo que sua filha, a influenciadora Tulianne Maravilha (coçaram-me os dedos pra perguntar se esse é mesmo o nome na certidão dela, mas não me dou essas liberdades) foi desaconselhada por você e sua zelosa esposa Cristiane (Maravilha também, por certo) a ingressar na faculdade em que ela foi aprovada por – sendo uma federal – constituir-se em um antro de atentados aos valores familiares.
Você foi direto ao ponto, caro Túlio. Basta verificar, num rápido apanhado Brasil afora, a ausência de preceito e a falta de decência que norteiam nossas instituições federais de ensino superior. É de escandalizar, por exemplo, a audácia dos cientistas dos departamentos de Química e Gerontologia da Universidade Federal de São Carlos, que desenvolveram um sensor pra diagnóstico precoce do Alzheimer, a partir de uma proteína do sangue, o Adam 10, e que já traz resultados promissores. Olha que falta de vergonha: fazendo os velhinhos sonharem, Túlio. Tem mais: um grupo de pesquisa da Universidade Federal do Cariri desenvolveu estudo com uma planta endêmica da Chapada do Araripe, conhecida como candeeiro, pra produzir em larga escala um óleo anestésico comercializável. Falta de respeito com a dor dos outros, isso de querer eliminá-la, não, caríssimo Túlio? Tsc.
E o que dizer da Universidade Federal de Rondônia que, em parceria com a Federal do Rio Grande do Sul e a de Pelotas, desenvolveu a síntese e caracterização de novas acil-hidrazidas como reforços no tratamento da tuberculose, sem os efeitos colaterais dos medicamentos em uso hoje, Túlio? Um desavergonhado vilipêndio a uma instituição secular como a tuberculose. Tem mais, tem mais – o programa de pós-graduação em Neurociência Cognitiva da Universidade Federal da Paraíba, desenvolvendo um tratamento não invasivo – corrente elétrica ETCC – em crianças com microcefalia decorrente do Zika Vírus. Fazendo isso com menores de idade, Túlio! Aonde vamos chegar?!?
Casos similares abundam (ops - desculpe, Túlio) pelos campi federais afora, mas não vamos nos esquivar da lembrança de que aqui, na nossa terrinha, o Instituto de Informática da Universidade Federal de Goiás criou o curso de graduação em Inteligência Artificial, um dos poucos do país a trabalhar intensivamente com a Robótica e a Mecatrônica, e tendo seu Centro de Excelência, Graduação e Pós-Graduação já consolidado no cenário mundial como referência em pesquisa na área. Onde já se viu, Túlio, essas práticas heterodoxas chegando ao nosso conservador Goiás??
Mas, sim, vamos ficar só nisso, pra deixar claro que fecho incondicionalmente com seu recato a respeito desses comportamentos avançadinhos das federais, meu caro Túlio. Só falta descobrirmos que os acadêmicos dessas instituições já andaram posando pra G Magazine, há áureas décadas, pra aí sim podermos desancar com gosto esses antros de perdição.
Mas vá firme na luta, grande artilheiro. Lembro de suas piruetas em campo, no Botafogo, marcando gols de forma, como direi, singular, inclusive de, como direi, nádegas, coroando seu estilo, como direi, irreverente de jogar. E pensar que tem gente utilizando essa mesma parte do corpo hoje pra exprimir-se em declarações à imprensa, meu pudico goleador. O que esperar disso?
Força, guerreiro, em sua destemida cruzada contra as federais. Até porque muitos correligionários seus também tremem ao ouvir o adjetivo “federal”, quiçá por outros motivos – os quais não me cabe pormenorizar ou dissertar sobre.
Saudações de conterrâneo. E beijos (respeitosos, por óbvio) na esposa e na filha universitária. Se falamos em passado lá no começo, cabe lembrar que o futuro agora é todo da Tulianne. Sim, sim, Maravilha – já ia esquecendo.
Aquele abraço.
FONTE:





