Competição mundial de educação profissional
Estudantes gaúchos são destaque em competição mundial de educação profissional na China
Jovens do RS conquistaram medalhas de excelência na WorldSkills após dois anos de preparação; conheça os competidores
Representar o Brasil em uma competição internacional parecia o tipo de história reservada aos atletas olímpicos. Mesmo assim, a chance chegou cedo para quatro jovens gaúchos – e não pela via esportiva. Entre aulas de gastronomia, enfermagem, hotelaria e estética, estudantes do Senac-RS descobriram que suas profissões também poderiam levá-los ao outro lado do mundo.
Foi assim que Cássia Eloá, Gustavo Argould, Maria Eduarda da Silveira e Natália Corso desembarcaram em setembro em Xangai, na China, para disputar a WorldSkills 2026, considerada a maior competição de educação profissional. Depois de quatro dias de provas, Gustavo, Cássia e Natália voltaram para casa com medalhas de excelência – reconhecimento concedido aos competidores que alcançam pontuação próxima à dos melhores do mundo.
Mas, para eles, a conquista começou muito antes de pisar na China.
— A gente só vê essas coisas de sair para outros países para representar o Brasil em uma Olimpíada, a gente nunca imagina que vai ser a gente. Muitas vezes, a WorldSkills ninguém conhece antes de competir — resume Natália, 22 anos, que mora em Taquara.
Foram meses de treinamentos que começaram nas escolas do Senac, passaram pelas etapas regional e nacional e terminaram em uma rotina intensa de preparação técnica e psicológica. Os competidores deixaram suas cidades para treinar em Porto Alegre, acompanhados por especialistas de cada área e por uma equipe voltada ao preparo emocional.
— Tem uma equipe específica para acompanhá-los, tanto nas questões técnicas quanto nas questões comportamentais. A gente tem uma psicóloga, por exemplo, que acompanha esse tipo de preparação — explica o gerente de Educação Profissional do Senac-RS, Sidinei Rossi.

Jonathan Heckler / Grupo RBS
Quatro profissões, um desafio
Embora competissem em áreas diferentes, os desafios tinham algo em comum: todos precisavam demonstrar domínio técnico em situações muito próximas da rotina profissional.
Na cozinha, Gustavo, 21 anos, morador de Porto Alegre, precisou identificar ingredientes, executar cortes e técnicas culinárias, preparar pratos que misturavam influências brasileiras e asiáticas e, na etapa final, elaborar um menu completo. Em uma das provas, seus pratos precisavam ser servidos em conjunto com os competidores da ocupação de Serviço de Restaurante.
Na enfermagem, Cássia, 22 anos, moradora de São Borja, passou por simulações que reproduziam atendimentos reais em hospitais, ambulatórios e instituições de longa permanência. Em um dos módulos, precisou atender um paciente com suspeita de infarto, realizar a avaliação inicial e encaminhá-lo corretamente para outro serviço de saúde.
As provas, porém, nunca eram exatamente iguais ao cotidiano brasileiro. Durante a competição, a jovem precisou considerar, por exemplo, hábitos ligados à medicina tradicional chinesa e adaptar suas orientações ao contexto cultural.
— Tem culturas que vão utilizar um tipo de medicamento que dentro da nossa cultura não é comum. Mas eles tentam padronizar o máximo possível para não ter essa dificuldade de culturas, porque são muitos países juntos — explica Cássia.
Enquanto isso, Natália precisava lidar com hóspedes fictícios, imprevistos e situações-surpresa típicas da recepção hoteleira. A canoense Maria Eduarda, 21 anos, na área de estética também enfrentava atendimentos simulados que exigiam domínio técnico e rapidez na tomada de decisões.

Jonathan Heckler / Grupo RBS
Mas, antes mesmo da prova começar, havia um adversário comum a todos: a pressão. A cobrança começava antes do cronômetro disparar. Para Natália, o maior desafio não estava nas tarefas técnicas, mas em controlar a ansiedade de competir contra profissionais que eram referência mundial.
— Além dos desafios da própria prova, a gente tem que lidar com o fator psicológico. A gente começa a ver essas pessoas de outros lugares que são referências dessa área, então a gente acaba se sentindo um pouco mais inseguro, acha que não vai conseguir — conta a jovem.
Na gastronomia, Gustavo também sentiu o peso do relógio:
— No primeiro dia eu já comecei a entender que ia ser difícil. Eu estava muito nervoso, muito inseguro para saber se eu ia conseguir fazer as entregas. Na nossa ocupação, um minuto é muito tempo. Acho que isso foi mais desafiador do que eu imaginei.
O preparo emocional fez parte da rotina dos competidores durante todo o ciclo de treinamento. Segundo o gerente do Senac-RS, além do aperfeiçoamento técnico, os jovens recebem acompanhamento para lidar com a pressão de representar o país.
— Olha a pressão que eles sofrem vivendo essa competição, todo mundo olhando para eles, sendo avaliado a todo instante. E isso deixa eles muito mais experientes para o mundo do trabalho — afirma Rossi.
Comida diferente
Se dentro da arena de competições tudo exigia precisão, do lado de fora a experiência também era um mergulho em um universo completamente novo. Antes mesmo da WorldSkills, os estudantes tiveram a oportunidade de viajar à China para um período de treinamento. Foi quando vieram os primeiros contatos com uma cultura bastante diferente da brasileira.
A alimentação foi um dos maiores desafios.
— A cultura deles é muito forte. A alimentação é completamente diferente. É muita pimenta, muito miúdo. Eles comem muito bucho. A primeira vez que eu fui, eu passei fome — lembra Cássia, entre risos.
Maria Eduarda concorda que a comida foi o aspecto mais difícil da viagem.
— É muito diferente e muito apimentado. Eu não gostei muito. Foi a comida que mais me pegou. Mas, de resto, é um país lindo, muito iluminado, as ruas são limpas.
Já Natália e Gustavo curtiram as novidades culinárias.
Ao mesmo tempo, a viagem abriu espaço para conhecer tecnologias e métodos de trabalho que ainda não fazem parte da rotina brasileira. Na área da saúde, por exemplo, Cássia precisou aprender a utilizar equipamentos que nunca havia visto.
— Teve muita coisa que eu tive que aprender lá na hora, no dia da ambientação, materiais diferentes, porque aqui no Brasil a gente não tem — recorda a técnica em enfermagem.
Na gastronomia, Gustavo precisou adaptar receitas e técnicas para produzir pratos com influência asiática, enquanto Natália observava uma hotelaria marcada por padrões internacionais de atendimento.
Para o gerente do Senac-RS, esse contato com outras culturas é justamente um dos maiores ganhos da competição.
— O mais importante é toda essa convivência num aspecto internacional. A gente sai do nosso mundo para viver uma experiência e poder trazer tudo isso para incorporar no nosso fazer educacional, dentro das nossas escolas — afirma Rossi.
Muito além da medalha
Ao voltar para casa, três dos quatro competidores trouxeram medalhas de excelência. Mas, quando falam sobre a experiência, quase sempre colocam a conquista em segundo plano.
Gustavo define a participação na WorldSkills como "a melhor experiência" da vida dele.
— Eu me sinto muito feliz de ter ido lá, mostrar o meu trabalho para diversos países, um monte de gente nos olhando. Todo dia que eu ia para o treinamento... foi uma recompensa de tudo isso — resume o jovem.
Cássia deixa as competições aos 22 anos depois de um ciclo iniciado ainda na adolescência. Gustavo voltou ao mercado de trabalho com uma bagagem que poucos profissionais da idade dele possuem. E Natália espera que a experiência inspire outros jovens a seguirem o mesmo caminho:
—Quero que o máximo de pessoas saibam disso e que mais jovens possam se beneficiar dessa oportunidade.
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