Consequências do voto

As consequências do voto.
ZUCCO E OS EQUÍVOCOS DE UM GOVERNO QUE AINDA NEM COMEÇOU
O futuro governo de Zucco começa a dar sinais preocupantes. Suas primeiras escolhas revelam equívocos políticos e administrativos e apontam para uma concepção de Estado que privilegia interesses corporativos e alinhamentos ideológicos, em vez do interesse público e das necessidades da população gaúcha.
O primeiro equívoco está na educação. É preciso distinguir Colégios Militares do Exército, Colégios Tiradentes da Brigada Militar e escolas cívico-militares: são modelos diferentes. Os Tiradentes são instituições estaduais, vinculadas à Brigada Militar, com estrutura educacional própria. Já as escolas cívico-militares são escolas regulares, com direção e professores civis, que recebem apoio de militares. Não se pode utilizar o desempenho dos Tiradentes para vender a ideia de que o modelo cívico-militar produzirá os mesmos resultados. No IDEB 2025, as oito unidades da Rede Tiradentes obtiveram notas entre 6,7 e 7,5. Apropriar-se desses resultados para promover outro modelo é uma comparação intelectualmente desonesta. Educação de qualidade exige investimento, professores valorizados e estrutura adequada, não apenas disciplina de pátio.
O segundo equívoco está na composição do governo. A escolha de generais da reserva para comandar áreas estratégicas, como Segurança Pública e Obras, Logística e Infraestrutura, além de um oficial da reserva da Marinha para a Defesa Civil, lembra a experiência de Jair Bolsonaro, que transformou a presença militar na administração federal em credencial política. O problema não é um militar ocupar cargo público, mas transformar afinidade corporativa e ideológica em critério de escolha. O Estado não é quartel! A administração pública exige conhecimento técnico, pluralidade e compromisso com a sociedade, não submissão a interesses de grupos ou corporações.
O terceiro equívoco está na Secretaria da Fazenda. Cláudio Branchieri, deputado estadual e economista cotado para comandar a pasta, afirmou que existe risco de retorno do parcelamento salarial a partir de 2027, embora tenha dito que essa não é a intenção do futuro governo. O atual governo contestou a avaliação, afirmando possuir recursos e planejamento para manter os salários em dia. Ainda assim, a declaração preocupa os servidores. Depois de tantos anos de luta para recuperar a regularidade salarial, é inadmissível voltar a tratar o funcionalismo como variável de ajuste. O equilíbrio fiscal é necessário, mas não pode se sobrepor à dignidade de quem mantém os serviços públicos funcionando.
O quarto equívoco talvez seja o mais grave: a aparente falta de compreensão da dimensão do cargo conquistado por Zucco nas urnas. Vencer uma eleição não significa estar preparado para governar. O Rio Grande do Sul tem uma máquina pública complexa, compromissos fiscais e profundas desigualdades sociais. Não se administra um Estado com improvisação, fidelidade ideológica ou discursos de campanha. Zucco parece ter dado um passo maior que a perna.
Confesso que jamais imaginei dizer isso, mas talvez venhamos a sentir saudades do governo Eduardo Leite, a quem tantas críticas fiz. Também é impossível não recordar o governo Tarso Genro, especialmente pela valorização do funcionalismo e pela continuidade da expansão da Rede Tiradentes. O Colégio Tiradentes de Pelotas, por exemplo, foi criado em 2008, instalado em 2010 e iniciou suas atividades em fevereiro de 2011, já no governo Tarso. Não se trata de idealizar governos passados, mas de reconhecer a importância da continuidade das políticas públicas.
Zucco ainda terá de demonstrar que está preparado para governar. Se esses equívocos se transformarem em práticas administrativas, poderá enfrentar uma grave crise política e institucional. O impeachment é um instrumento constitucional, condicionado à prática de crime de responsabilidade e ao devido processo legal. Wilson Witzel, no Rio de Janeiro, perdeu definitivamente o mandato por impeachment em 2021, sendo o primeiro governador a sofrer essa consequência desde a redemocratização.
O Rio Grande do Sul não precisa de nostalgia autoritária, militarização da política ou improvisação administrativa. Precisa de um governo comprometido com a educação pública, os direitos sociais, a valorização dos trabalhadores e a redução das desigualdades. O Estado deve servir à sociedade, sobretudo aos que mais precisam, e não aos interesses de um grupo político ou de uma corporação.
Paulo Ricardo Tito Coelho
Major da Brigada Militar
Novembro de 2026
FONTE:






