CPMI do INSS, pastores e igrejas

CPMI do INSS, pastores e igrejas

 

Sim, ela mesma. A ex-ministra e hoje senadora que via demônio em tudo, menos em rachadinha, agora diz que a CPMI do INSS tropeçou em grandes igrejas e grandes pastores envolvidos num esquema de fraude que sugava dinheiro direto da aposentadoria dos mais pobres. Pobres, detalhe nada irrelevante, que em boa parte são fiéis dessas mesmas igrejas.

O roteiro é indecente de tão conhecido. Associações “amigas”, convênios com o INSS, descontos automáticos em folha e uma multidão de idosos que nunca autorizou nada. Quando a comissão chega perto dos nomes graúdos, começa o coral: não investiguem, os fiéis vão ficar tristes. Tradução simultânea: mexer no esquema pode atrapalhar arrecadação, voto e púlpito.

Aqui não tem mistério jurídico. Desconto sem autorização é fraude. Organização para isso é crime. Bíblia não vira salvo-conduto penal. E “obra de Deus” não justifica meter a mão no benefício de quem mal consegue pagar o gás.

O dado político é o mais constrangedor: quando até Damares Alves admite que a coisa fede, é porque o esgoto já subiu ao altar. Não estamos falando de exceção, mas de um modelo em que fé vira instrumento financeiro e o INSS, caixa eletrônico paralelo.

[...]

Quando Damares Alves diz, numa CPMI, que encontrou grandes igrejas e grandes pastores metidos em fraude contra aposentados, o mínimo esperado seria silêncio respeitoso e investigação séria. Mas não. O que vem é chilique, ameaça moral e berreiro de púlpito.

Silas Malafaia resolveu reagir como se estivesse num culto, não num Estado laico: chamou a senadora de linguaruda, mandou calar a boca, invocou Satanás, ímpios e perseguição religiosa. Faltou só passar o chapéu no final do vídeo.

Reparem no truque retórico: ninguém diz “isso é falso”. Ninguém explica por que associações ligadas a igrejas descontavam dinheiro direto do benefício de idosos. A cobrança não é por verdade, é por silêncio. Ou dá os nomes agora, ou cale-se. Tradução: investigue menos, atrapalhe menos, exponha menos.

O ponto não é Damares ser heroína. Não é. O ponto é outro: quando até ela desce da goiabeira e diz “isso machuca”, é porque a sujeira chegou ao altar. E quando a reação é xingar, calar e ameaçar, o cheiro só piora.

Investigação não é perseguição religiosa; é dever de Estado. Fé não é salvo-conduto penal. E dízimo em folha de pagamento de aposentado não é milagre; é método.

Sigam gritando. A CPMI segue andando. E o extrato bancário, como sempre, fala mais alto que o púlpito.

Júlio Benchimol Pinto

https://www.facebook.com/juliorobertopinto?locale=pt_BR 

 

 

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A cena é quase didática. Trágica, mas didática. Uma daquelas aulas públicas sobre inversão de valores que o Brasil insiste em repetir como se fosse inovação.

Depois de ser publicamente desafiada por Silas Malafaia, a senadora Damares Alves faz o que, em tese, deveria ser o básico em qualquer democracia minimamente funcional: apresenta nomes. Não condena. Não sentencia. Não excomunga. Lista para investigação. Simples assim. O famoso “vamos apurar”.

E aí o país treme.

Porque, veja bem, investigar virou crime moral. Pedir transparência virou perseguição religiosa. Exigir responsabilidade virou “ataque à fé”. A fé, curiosamente, sempre a mesma: blindada, barulhenta, seletiva — e profundamente sensível quando o holofote sai do púlpito e aponta para o caixa.

A lista divulgada inclui nomes conhecidos do meio evangélico, como André Valadão, igrejas como a Igreja Adoração Church, a Assembleia de Deus Ministério do Renovo, o Ministério Deus é Fiel Church (SeteChurch), além de líderes como Cesar Belucci Nascimento, Pericles Albino Nascimento, Fabiano Zettel, André Fernandes e a Igreja Evangélica Campo de Anatote. Todos, segundo a própria senadora, apenas no campo da apuração, como manda o devido processo legal.

Mas o estrago simbólico já estava feito. Não pelo que foi dito — e sim por quem foi tocado.

Porque desde a onda bolsonarista, o Brasil entrou num mundo invertido digno de um experimento sociológico mal-sucedido.

As igrejas, que deveriam ser espaços de ética, acolhimento e exemplo moral, passaram a funcionar, em muitos casos, como escritórios de negócios, palcos de ódio, trincheiras políticas e, não raro, abrigos de mau-caratismo travestido de versículo. Racismo com microfone. Ganância com louvor. Machismo com Bíblia aberta. Ladrão dizendo “amém”. Prostituição moral em nome de Deus.

Enquanto isso — ironia das ironias — a política, historicamente o esgoto moral do país, começa a produzir figuras que falam em regra, processo, investigação, limites institucionais. Não são santos. Não são perfeitos. Mas, pasme: respeitam o rito. Algo que parte do meio religioso abandonou em nome do grito e da ameaça.

E a cereja do bolo: nessa inversão total, até os lugares historicamente marginalizados — a zona, o prostíbulo, o puteiro — aparecem, na metáfora social, como espaços onde ainda existem lealdade, companheirismo, palavra cumprida e código de honra. Ali ninguém finge ser santo. Aqui, muitos fingem ser enviados de Deus.

O problema nunca foi a fé.

O problema sempre foi o uso da fé como escudo para não prestar contas.

Quando um pastor se revolta mais com a investigação do que com a possibilidade de fraude, algo apodreceu. Quando líderes religiosos se sentem acima do Estado, da lei e da ética, o altar vira balcão. E quando o nome de Deus é usado para intimidar, o evangelho vira instrumento de poder — não de salvação.

Reflexão final (sem anestesia):

Talvez o Brasil não esteja vivendo uma crise política. Talvez esteja vivendo uma crise espiritual profunda — onde Deus foi substituído por ideologia, o púlpito virou palanque e a fé virou CNPJ. E quando investigar vira perseguição, é porque a verdade já está fazendo barulho demais.

Isso não é ataque à religião.

É defesa da dignidade.

E quem teme investigação, geralmente não teme a Deus — teme a verdade

Ass : André Luiz Thiago também conhecido por André negrão.

 

FONTE:

https://www.facebook.com/profile.php?id=100002807573028&locale=pt_BR 




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