Dançar à beira do abismo

Dançar à beira do abismo

Não é hora de dançar à beira do abismo

Thiago Domenici  - 23 de setembro de 2022

 

A essa altura da campanha de 2022 — faltam 9 dias — você já deve ter definido seu voto para presidente da república. Numa campanha marcada por dois candidatos antagônicos, Lula e Bolsonaro, em que os índices das pesquisas nunca demonstraram tração da chamada terceira via, a bola da vez é saber se eleitores de Ciro Gomes e outros candidatos podem optar pelo voto útil.

É fato que o debate do voto útil impõe ao leitor pensar de forma estratégica, pragmática ou votar de forma sincera, de acordo com as suas reais preferências, independentemente das consequências.

Para vencer no primeiro turno é preciso que o candidato tenha 50% dos votos válidos mais um, e quem mais estaria perto dessa possibilidade é o líder das pesquisas, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), como indicou o Datafolha de ontem à noite.

Como explica hoje Felipe Nunes na entrevista ao podcast Pauta Pública, as chances de uma eleição apenas em 1º turno não é matematicamente impossível, apesar de improvável. Felipe é diretor da Quaest Pesquisa, cientista político e professor da UFMG. "Lula teria hoje 48,9% dos votos válidos na eleição. Bastaria 1,2% de votos válidos para que ele vencesse no 1 turno", aponta Felipe com base na pesquisa Genial/Quaest da última quarta-feira (21).

Mas quais seriam, então, as condições necessárias para isso acontecer? Felipe diz que os eleitores que hoje votam, principalmente, em Ciro Gomes precisariam mudar os seus votos completamente na direção de Lula.

"A pesquisa Genial/Quest desta semana mostra que 26% desses eleitores da chamada terceira via estão dispostos a mudar o voto no primeiro turno para que Lula vença". Ou seja, bastaria que Lula trouxesse para si os votos de três a quatro por cento dos 12% que hoje votam nesses outros candidatos para liquidar o pleito. "E esses votos viriam principalmente de eleitores de Ciro Gomes! Mesmo que Ciro não queira apoiar Lula, essa é uma decisão do seu eleitor", diz Felipe.

Não à toa, a campanha de Lula tem trabalhado para ganhar o voto do eleitor de Ciro, sob críticas do pedetista que em mais uma de suas afirmações verborrágicas disse nesta semana que no Brasil há um "fascismo de esquerda liderado pelo PT".

A reação desproporcional do candidato é consequência também da pressão que tem sofrido, caso da carta aberta de mais de 50 políticos e intelectuais da esquerda em países da América Latina, entre eles um Nobel da Paz, que pedem que Ciro desista da corrida presidencial em prol do voto útil em Lula. Entre os argumentos, a carta alega que a eleição deste ano no Brasil é uma disputa entre o fascismo e a democracia.

A carta tem razão. Numa eleição em que a barbárie, o caos e a destruição tentam a reeleição, o voto é também de sobrevivência — não só a nossa sobrevivência, mas a da Amazônia, a maior floresta tropical do mundo, que foi vilipendiada de todas as maneiras neste mandato presidencial anti-ambiental. Uma eventual sanção, nas urnas, ao candidato-capitão que incentiva a destruição da floresta, aprofundará a tendência de savanização do bioma.

Falo da Amazônia, mas Cerrado, Pantanal, Caatinga, Mata Atlântica sangram sob Bolsonaro. Em risco está a própria estabilidade do clima planetário. Neste sentido, o voto útil é contra aquele que, se pudesse, transformaria o país num grande garimpo armado em que mulheres e indígenas seriam escorraçados.

O que está em jogo nessas eleições, portanto, não é, de modo algum trivial.

Mesmo o professor de Harvard, Steven Levitsky, coautor do livro Como as Democracias Morrem (ed. Zahar), disse no Roda Viva da última segunda-feira que "o melhor caminho é tirar Bolsonaro no primeiro turno". Ele foi questionado se escolher uma terceira via é irresponsável neste momento. Para o cientista político, é "arriscado".

Deixar Bolsonaro ir ao segundo turno oferece a ele a chance que precisa para seguir questionando o sistema eleitoral, mantendo ativo o acirramento político, a violência e os flertes com a ruptura institucional. Bolsonaro, vocês já sabem, não atua dentro das regras do jogo democrático. O cenário que se desenha para o futuro não é animador.

Por isso, não é momento de dançar à beira do abismo.

Thiago Domenici

Diretor e editor da Agência Pública

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