Desafios do ano letivo na Pandemia

Desafios do ano letivo na Pandemia

Departamento de Educação debate os desafios do ano letivo e os movimentos do governo em meio à pandemia

O Departamento de Educação do CPERS se reuniu remotamente no início desta semana para debater os desafios do ano letivo em meio à pandemia e a perspectiva de retorno às aulas.

Em pauta, os métodos a serem adotados pelo Estado para avaliar o resultado das aulas programadas, o futuro do Conselho Estadual de Educação (CEEd) e as dificuldades de ensino-aprendizagem no período de isolamento.

A diretora do departamento, Rosane Zan, ressaltou que qualquer decisão sobre o retorno às aulas e o andamento das atividades deve passar pelas escolas. 

“As comunidades precisam ser envolvidas nesse processo. Três órgãos estão discutindo a volta às aulas, a Seduc, a Undime e o Sinepe, e ainda tem o Ministério Público que é contrário à volta. Mas quem faz parte do dia a dia é quem tem que referendar”, afirma.

Métodos de Avaliação

Em reunião com o CPERS no último dia 12, o secretário Faisal Karam mencionou uma parceria com a Universidade Federal de Viçosa para avaliar a aprendizagem dos estudantes durante as aulas programadas.

O CPERS solicitou mais informações, mas ainda não recebeu retorno da Seduc.

Para Lucia Camini, representante do CPERS no CEEd, a autonomia das escolas deve prevalecer em qualquer decisão referente ao futuro do ano letivo de 2020. 

“Acredito que cabe à instituição reunir o seu conselho escolar para registrar as atividades realizadas e definir estes processos. Diversas escolas estão questionando se a avaliação pode ser remota. Na Argentina, estão adotando avaliação somente no ano que vem e dependendo do aprendizado do aluno”.

Lucia ainda complementa que eleger um único método de avaliação a ser aplicado em todas às escolas pode aumentar a desigualdade entre instituições. 

“Não dá para você tirar uma linha única e querer aplicar para todo o território do estado e uniformizar as avaliações. Poucas são as escolas que conseguiram manter o grau mínimo de atividades, primeiro porque não temos uma plataforma confiável e segundo porque nem os professores foram preparados para tanto”.

A ex-presidente do CPERS e representante do sindicato no CEEd, Simone Goldschmidt, lembrou que, por orientação da própria Seduc, as atividades domiciliares se limitavam à revisão de conteúdos, sem a pretensão de ensinar novos conceitos.

“A rede pública é muito diversificada, com alunos com acesso à internet e outros sem, alunos que nem conseguiram buscar as atividades. E vale lembrar que aqui no Rio Grande do Sul esse isolamento não vai acabar tão cedo, ainda temos todo um inverno pela frente”.

Para Candida Rossetto, secretária-geral do CPERS, a definição dos métodos de avaliação deveria ser das escolas, respeitando as leis de gestão democrática definidas pelo CEEd.

“A centralidade é a aprendizagem. A referência é o CEEd que considera a realidade de cada local, e quem tem propriedade é a comunidade escolar. Penso que temos que referendar a importância da avaliação, mas não um processo de ranqueamento nesse momento”.

Dulce Delan, funcionária de escola e também representante do CPERS no CEEd, também é crítica de um teste único.

“Eu trabalho em uma escola no bairro Menino Deus em Porto Alegre e ainda assim muitos dos alunos não conseguiram acessar as atividades. A maioria só tem internet no telefone e isso dificulta muito. As próprias mães enfrentam dificuldades com as atividades que estavam sendo enviadas. Me preocupa muito essa questão de uma avaliação única”.

Cássio Ritter, diretor do CPERS, crê que a adoção de métodos de avaliação pelo governo abre portas para o EAD.

“Não dá para aceitar uma avaliação externa, quem tem que avaliar é o professor, quem conhece  a realidade das escolas e dos alunos gaúchos”.

O 2º Vice-presidente do CPERS, Edson Garcia, considera imprudente não só a possível contratação de uma universidade para criar os critérios, como também considerar uma instituição de fora do estado que não conhece a realidade local. 

“Nós temos a UFRGS aqui, não faz sentido ter uma universidade de fora envolvida nesse processo. Essa iniciativa ignora as realidades das nossas escolas e a Lei de Gestão Democrática”.

A professora e doutora em Educação pela UFRGS, Nalú Farenzena, consultada pelo CPERS sobre o tema após a realização da reunião, diz que a avaliação deve ser um processo contínuo.

“Neste período de suspensão das aulas, os professores buscam acessar todos os meios ao seu dispor para que crianças, adolescentes, jovens e adultos possam realizar atividades formativas, no amplo sentido de formação humana e que abrange também conteúdos dos componentes curriculares. É momento em que a avaliação exige dos professores e das equipes escolares um olhar ainda mais contextualizado, ou seja, avaliar as condições da oferta e as condições dos educandos, com o objetivo, justamente, de propor atividades pedagógicas sensíveis às especificidades do momento”. 

Nalú acredita que para alcançar esse objetivo é importante que a equipe escolar se comunique para avaliar conjuntamente o trabalho.

“Quando possível, esta avaliação também deve envolver os responsáveis pelos educandos. As atividades realizadas pelos educandos e que chegam até os professores para avaliação podem ser  uma parte deste processo, mas ele é bem mais amplo e suas bases se encontram na insubstituível formação pedagógica do magistério”.

Situação do CEEd

As representantes do CPERS que participaram da reunião seguem no aguardo de serem empossadas, conforme previsto na legislação estadual.

Em reunião na semana passada com a Seduc, a direção central questionou os movimentos do governo para alterar a composição do Conselho, aumentando a representação do Estado, e a demora no processo.

Durante o encontro remoto do departamento, Lucia Camini reforçou que o Conselho vai lutar para manter o seu papel a sua autonomia. 

“O governo está dizendo que precisa ter maioria no conselho, e isso numa democracia é inadmissível. O debate precisa ser construído com base nas propostas”. 

Alunos mais vulneráveis na linha de frente do contágio

Sem previsão de retomada das aulas nas redes pública e privada do Rio Grande do Sul, o governo estadual tem aventado a possibilidade de abrir escolas para atender estudantes que não conseguem acessar a Internet.

Apesar da parceria a ser firmada com empresas de telefonia para disponibilizar planos de dados à comunidade, muitos sequer têm aparelhos celulares, ou possuem dispositivos muito antigos para acompanhar os conteúdos.

O 2º vice-presidente do CPERS Edson Garcia, se diz preocupado com a proposta do governo. 

“Esse sistema híbrido preocupa muito. A TVE já está sendo usada para aulas preparatórias para os terceiros anos, está tudo caminhando para que essas medidas sejam adotadas”.

Lucia Camini considera esse sistema híbrido proposto pelo governo possa abrir brechas para a privatização do ensino público. 

“O sistema híbrido reduzirá o número de professores nas escolas e abrirá caminho para a compra de materiais de grandes empresas. Os governos apresentam isso como solução para os problemas para justificar contratos por tempo determinado e a venda de pacotes prontos”. 

Rosane Zan reforça que o governo estadual precisa apresentar protocolos e critérios claros, mas não sem antes promover um amplo debate com a categoria.

“Esse momento da pandemia é um momento de refletir sobre a solidariedade, sobre o espaço do outro. Se falamos numa educação social, com direito para todos e universal, ela não pode ser dessa forma. Precisamos cobrar o respeito às diferentes realidades dos nossos alunos. Temos a educação quilombola, indígena, técnica de jovens e adultos, infantil, séries iniciais. Que tipo de alunado vamos ter com esses métodos excludentes de ensino?”

 

https://cpers.com.br/departamento-de-educacao-debate-os-desafios-do-ano-letivo-e-os-movimentos-do-governo-em-meio-a-pandemia/




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