Dissonância cognitiva

Existe um fenômeno recorrente no Brasil que mistura aspiração, confusão de classe e dissonância cognitiva. É o pobre de direita que acredita fazer parte da elite econômica só porque abriu uma pequena empresa, fatura vinte mil por mês e emprega quatro pessoas. Isso não é ser capitalista. Capitalista é quem vive da propriedade do capital, controla meios de produção em larga escala, influencia o Estado, o mercado, a política e as regras do jogo. Quem fatura vinte mil, paga aluguel, imposto, fornecedor, contador, funcionário e ainda trabalha doze horas por dia não vive do capital. Vive do próprio esforço. É trabalhador com CNPJ.
O capitalismo não se define por discurso, nem por sonho, nem por camiseta ideológica. Ele se define por poder estrutural. Quem depende do próprio trabalho para sobreviver, mesmo sendo patrão de si mesmo ou de alguns funcionários, está muito mais próximo da classe trabalhadora do que da elite econômica que ele defende com tanto entusiasmo.
A contradição fica ainda mais evidente quando pessoas historicamente marginalizadas passam a defender ideologias que as rejeitam. Um preto defendendo projetos políticos que sempre excluíram pessoas como ele. Uma mulher trans apoiando movimentos de extrema-direita que atacam frontalmente sua existência, seus direitos e sua dignidade. Não é provocação, é constatação. Essas ideologias nunca foram pensadas para incluir essas pessoas, apenas para usá-las como exceção simbólica ou escada retórica.
Isso não é liberdade de pensamento elevada. É identificação com o opressor na esperança de aceitação, pertencimento ou ascensão. A realidade, porém, costuma ser implacável. O sistema não recompensa lealdade simbólica. Ele protege interesses concretos.
No fim das contas, não se trata de opinião política isolada, mas de um conflito profundo entre identidade, realidade material e desejo de pertencimento. A dissonância cognitiva entra exatamente aí: quando a pessoa precisa distorcer fatos, história e estrutura social para sustentar uma crença que a própria realidade insiste em desmentir.
Wanderson Dutch
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DISSONÂNCIA COGNITIVA...
A imagem é um retrato cru de uma contradição que o sistema produz todos os dias e depois finge não enxergar. Uma trabalhadora autônoma, vendendo doces na rua, vivendo da própria força de trabalho, exposta ao sol, à instabilidade e à informalidade. No peito, a frase “fora Lula”. Não é só uma foto. É uma aula prática de dissonância cognitiva em plena calçada.
Dissonância cognitiva acontece quando aquilo que a pessoa vive entra em choque com aquilo que ela acredita defender. Para aliviar esse conflito interno, a realidade é distorcida. O problema nunca é o sistema que explora, precariza e empurra milhões para a informalidade. O problema vira sempre um nome, um rosto, um governo isolado, como se a estrutura econômica que produz essa desigualdade tivesse começado ontem.
Essa trabalhadora não é empresária, não é elite, não é dona de meios de produção. Ela depende da circulação de pessoas, de renda mínima, de políticas públicas que garantam consumo, saúde, transporte e dignidade. Ainda assim, repete um discurso que historicamente serve aos interesses de quem nunca precisou vender doce na rua para sobreviver. A desinformação cumpre exatamente esse papel. Afasta o trabalhador da compreensão dos próprios interesses de classe e o convence a lutar contra fantasmas cuidadosamente construídos.
O capitalismo adora esse cenário. Enquanto quem vive do trabalho aponta o dedo para o lado errado, quem acumula riqueza segue intocado. A precarização vira escolha individual. A pobreza vira falha moral. A exploração desaparece do debate. E o trabalhador, isolado, passa a se ver como inimigo de outros trabalhadores, nunca do sistema que o esmaga.
Essa imagem não fala sobre Lula apenas. Ela fala sobre um país que naturalizou a alienação, que ensinou o trabalhador a odiar aquilo que poderia melhorar minimamente sua condição de vida. Fala sobre como a ausência de pensamento crítico custa caro. Custa tempo, saúde, futuro e consciência. Enquanto isso, a elite agradece em silêncio e segue lucrando."
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(Wanderson Dutch)
FONTE:
Charles Brown - https://www.facebook.com/profile.php?id=100000752233556&locale=pt_BR





