Dívidas da Ditadura

Chamaram de milagre. Mas a dívida foi real.
Quando os militares chegaram ao poder, em 1964, o Brasil começou a pegar dinheiro emprestado fora do país. Esse dinheiro foi usado para fazer grandes obras, crescer a economia e ampliar a indústria. Os empréstimos vieram de bancos internacionais e de organismos como o FMI e o Banco Mundial.
Naquela época, em 1964, a dívida externa do Brasil era de cerca de 3 bilhões de dólares. Quando a ditadura acabou, em 1985, essa dívida tinha crescido muito e já estava entre 95 e 105 bilhões de dólares. Esse valor juntava todas as dívidas do Brasil com bancos, outros países e organismos internacionais.
Essa dívida não era uma conta só, nem tinha um credor só. Eram vários empréstimos diferentes, feitos em momentos diferentes, cada um com seus juros e prazos. Por isso, não existia uma conta única para pagar de uma vez.
O dinheiro desses empréstimos foi usado em grandes obras e para manter o modelo econômico do regime.
Muitos contratos obrigavam o Brasil a comprar máquinas e serviços de fora, o que deixava o país ainda mais dependente e fazia tudo sair mais caro depois.
O chamado milagre econômico, entre 1968 e 1973, faz parte dessa história. A economia cresceu, mas esse crescimento foi bancado com dinheiro emprestado. Os salários ficaram congelados, os sindicatos foram reprimidos e a renda ficou concentrada nas mãos de poucos. A economia cresceu, mas a maioria da população não sentiu melhora na vida.
No fim dos anos 1970, os juros internacionais subiram e o petróleo ficou mais caro. Aí o Brasil começou a ter dificuldade para pagar a dívida. Nos anos 1980, a crise ficou evidente. A ditadura acabou sem pagar a dívida externa que tinha sido criada.
Depois disso, os governos civis ficaram com essa dívida. Eles passaram a pagar e renegociar aos poucos, contrato por contrato. Uma parte foi paga no prazo, outra parte foi renegociada, e outra foi transformada em outro tipo de dívida. Não houve um dia em que tudo foi pago de uma vez, porque isso levou muitos anos.
Dentro desse processo, aconteceu algo importante: entre 2005 e 2006, o Brasil quitou toda a dívida que ainda tinha com o FMI, no valor de 15,5 bilhões de dólares. Esse pagamento acabou apenas com a dívida com o FMI. As outras partes da dívida externa já vinham sendo pagas antes, aos poucos.

Eu postei sobre a dívida da ditadura militar.Expliquei que essa dívida foi sendo paga ao longo dos governos e que a última parte, a dívida com o FMI, foi quitada em 2005–2006, no governo Lula.Por causa disso, fui até xingada.
O problema é que muita gente não entende que o Brasil tem várias dívidas diferentes e mistura tudo como se fosse uma coisa só.
Então vamos organizar os fatos.
A dívida da ditadura foi feita principalmente com empréstimos externos.
Ela não foi paga pela própria ditadura.
Essa dívida ficou para os governos seguintes e foi sendo paga e renegociada ao longo de décadas.
Dentro desse processo, existia uma parte da dívida que era com o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Essa parte foi paga em 2005–2006, no valor de US$ 15,5 bilhões.
Com isso, o Brasil encerrou a dívida com o FMI. Isso é fato histórico.
Pagar o FMI não significa que o Brasil ficou sem dívida nenhuma.
Significa apenas que acabou aquela dívida específica, ligada ao ciclo da dívida externa herdada da ditadura.
Hoje, o Brasil tem outras dívidas, diferentes daquela.
A dívida externa atual é o que o país deve para fora, em dólares.
Ela está hoje em torno de 700 a 800 bilhões de dólares.
Isso é bilhão, não trilhão.
Já a dívida pública interna é outra coisa.
Ela é em reais, não em dólares, e está hoje na casa de 8 a 9 trilhões de reais.
Essa dívida interna não nasceu agora e não começou com esse governo nem com o anterior.
A dívida pública do Brasil existe desde a Independência, há mais de 200 anos.
O que muda ao longo do tempo é o tamanho, os juros e a forma não a existência da dívida.
Por isso, dizer que o Brasil “não pagou nada” ou que “só trocou uma dívida por outra” não está correto.
O Brasil pagou a dívida da ditadura ao longo do tempo, e a quitação do FMI marcou o fim daquele ciclo.
As outras dívidas são outra história, de outro tipo.





