Entre a sandália e a tornozeleira

Entre a sandália e a tornozeleira

Entre a sandália gasta e a tornozeleira patriótica

 Friedric von Syphud*

10/01/2026

 

 

 

A política brasileira já foi muitas coisas, mas nos últimos anos ela decidiu ser também espetáculo. Um espetáculo estranho, às vezes grotesco, frequentemente cômico — não fosse trágico. Nesse palco, esquerda e extrema-direita disputam a cena, mas com figurinos, roteiros e noções de realidade bastante diferentes.

A esquerda brasileira segue imperfeita, barulhenta e cheia de contradições. Usa sandália gasta, tênis velho, carrega cartaz mal escrito e passa horas discutindo em assembleia. Reclama do sistema, critica o governo, briga entre si — mas, no fim do dia, ainda acredita que política se faz com voto, debate e algum apego à realidade objetiva.

Já a extrema-direita resolveu inovar. Substituiu o argumento pelo delírio, a fé pelo negócio e o patriotismo por uma fantasia verde-amarela de carnaval fora de época. Quando perde eleição, não aceita o resultado: pede golpe, ora para pneu, unge quartel e, se necessário, liga a lanterna do celular para o céu, na esperança de que algum ET se compadeça da confusão.

 O ápice dessa ópera bufa foi o 8 de janeiro, quando patriotas autoproclamados decidiram “salvar a democracia” quebrando tudo o que encontraram pela frente. Vidraças estilhaçadas, obras de arte destruídas e, como registro histórico incontornável, uma senhora idosa que resolveu defecar dentro de um prédio público, talvez numa tentativa desesperada de marcar território ideológico.

 Mas o enredo não para aí. Há também a defesa irrestrita das armas, que levou uma ex-deputada federal a perseguir um homem negro com uma pistola em punho, em plena via pública, como se o Estado de Direito fosse opcional. Há o caso de Roberto Jefferson, que, em nome da ordem e da moral, decidiu atirar e lançar granadas contra policiais federais, mostrando que o amor à polícia dura exatamente até o momento em que a polícia cumpre a lei.

No campo da fé, a diferença também é visível. A esquerda, com todas as suas críticas à institucionalidade religiosa, ainda lembra que cristianismo fala de partilha, justiça social e cuidado com os pobres. A extrema-direita preferiu transformar Deus em ativo financeiro: surgem pastores-empresários, profetas do “JOB”, cultos como lives motivacionais e escândalos de corrupção abençoados em nome da prosperidade.

 Na ciência, o contraste é igualmente gritante. Enquanto a esquerda aposta — ainda que criticamente — em vacina, SUS e pesquisa científica, a extrema-direita preferiu cloroquina, fake news e correntes de WhatsApp. O resultado foi uma tragédia sanitária que poderia ter sido menor, não fosse o flerte constante com a ignorância como projeto político.

No fundo, a diferença central é simples. A esquerda, com todos os seus defeitos, ainda acredita que o Brasil pode ser um país menos desigual, mais justo e mais racional — mesmo que isso dê trabalho. A extrema-direita, por sua vez, vive de um passado que nunca existiu, de uma moral seletiva e de um patriotismo que odeia o próprio povo.

Entre a sandália gasta e a tornozeleira patriótica, não há apenas uma escolha ideológica. Há uma escolha civilizatória. 

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  • Friedric von Syphud é PhD em Filosofia Quântica e Geopolítica Aeroespacial pela University of Greenland e pesquisador do Institute for Advanced Studies of Nowhere.


    FONTE:

    Rede Guadakan

 

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A bandeira que nunca foi vermelha (e o país que sempre sangrou)

Friedric von Syphud*

 

 

 

Há quem erga a bandeira brasileira como se levantasse um dogma religioso. O gesto vem quase sempre acompanhado de um brado automático: “a bandeira do Brasil nunca será vermelha”. A frase soa firme, patriótica, definitiva. O problema é que ela revela menos amor ao país e mais ignorância sobre a própria história do símbolo que se pretende defender.

A bandeira brasileira não nasceu do povo, nem de uma revolução popular, tampouco de um processo anticolonial. Sua origem está no Império, profundamente vinculada à lógica das monarquias europeias. O verde e o amarelo não simbolizavam florestas nem riquezas naturais. Representavam, de forma explícita, famílias reais: o verde da Casa de Bragança, de Dom Pedro I, e o amarelo da Casa de Habsburgo-Lorena, da imperatriz Leopoldina. A pátria, naquele momento, era uma genealogia, não um projeto coletivo.

A transição para a República, em 1889, tampouco foi um ato heroico de massas. Tratou-se de um golpe de Estado, conduzido por setores militares e civis oriundos das próprias elites imperiais. O marechal que depôs o imperador não era um revolucionário popular, mas um homem formado no interior do regime monárquico. A mudança de sistema político ocorreu sem consulta ampla à população e sem ruptura estrutural com o passado.

Essa ambiguidade explica por que a República manteve as cores imperiais. Retirou-se a coroa, mas preservou-se o verde e o amarelo. No lugar do brasão imperial, inseriu-se um lema positivista — Ordem e Progresso — expressão de uma elite que desejava modernizar o Estado sem democratizá-lo profundamente. A bandeira republicana nasceu conciliadora: nova na forma, conservadora na essência.

O patriotismo contemporâneo que idolatra esse símbolo costuma ignorar essa trajetória. Prefere a versão escolarizada segundo a qual o verde representa a mata, o amarelo o ouro, o azul o céu e o branco a paz. Trata-se de uma narrativa confortável, pois permite amar o símbolo sem enfrentar as contradições históricas que ele carrega.

Há, entretanto, uma cor que insiste em reaparecer, mesmo quando é rejeitada com fúria retórica: o vermelho do sangue.

Ainda que a bandeira nunca tenha sido vermelha em seu tecido, o Brasil foi construído sobre um vasto oceano de sangue. Sangue indígena, derramado em séculos de expropriação territorial, massacres e apagamentos culturais. Sangue africano, resultado do tráfico, da escravidão e da exploração sistemática. Sangue das revoltas esmagadas, dos quilombos destruídos, das periferias permanentemente violentadas.

A aversão histérica ao vermelho não é apenas política; é memorial. Trata-se do medo de reconhecer que o país não nasceu do consenso, mas da violência colonial. Gritar que a bandeira nunca será vermelha é tentar impedir que essa história venha à tona. É transformar o verde-amarelo em anestesia simbólica, como se cores pudessem apagar cadáveres e absolver estruturas de poder.

A bandeira brasileira não é um objeto neutro. É um documento histórico, produzido por vencedores e carregado de silêncios. Usá-la como escudo moral sem compreender sua origem equivale a reduzir o patriotismo a fetiche — e todo fetiche, como ensina a crítica social, serve mais para ocultar do que para revelar.

Talvez o problema não seja a bandeira nunca ter sido vermelha. Talvez o problema seja a recusa persistente de encarar o vermelho que constituiu o Brasil.

  • Friedric von Syphud é um PhD em Filosofia Quântica e Geopolítica Aeroespacial pela University of Greenland e pesquisador do Institute for Advanced Studies of Nowhere.

 

FONTE:

https://www.facebook.com/photo/?fbid=1283180577169869&set=a.479618527526082&locale=pt_BR 

 

 

 

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O Lumpenpatriota, a Histeria Sagrada e o Culto do Pneu

Friedric von Syphud*

 

 

 

No grande teatro político brasileiro do início do século XXI, emergiu uma figura que desafia as classificações tradicionais da ciência política e da psicologia social: o lumpenpatriota. Não se trata do patriota clássico, formado por consciência histórica, compromisso cívico e apreço pela soberania popular. Trata-se, antes, de um sujeito alienado cuja relação com a pátria se estabelece por meio de rituais simbólicos vazios, da repetição compulsiva de slogans e da mobilização de afetos negativos dirigidos contra inimigos imaginados.

O bolsonarismo ofereceu a esse sujeito uma gramática elementar: bandeira, hino, medo e a figura constante do “inimigo interno”. O lema “Nossa bandeira jamais será vermelha” converteu-se em expressão paradigmática de um nacionalismo negativo, definido não pelo amor concreto ao país, mas pela rejeição obsessiva de um espectro ideológico difuso. A pátria, nesse discurso, deixa de ser uma comunidade histórica plural para tornar-se um fetiche cromático e moral.

Pesquisas acadêmicas sobre análise do discurso indicam que o suposto nacionalismo bolsonarista apresenta baixa densidade ideológica quando comparado a nacionalismos históricos clássicos. Referências efetivas à soberania nacional, ao desenvolvimento científico, à proteção ambiental ou à autonomia econômica do Brasil são residuais, eclipsadas por uma retórica moralizante, conspiratória e personalista. O nacionalismo, assim, assume a forma de performance identitária, não de projeto político estruturado.

Esse vazio programático é preenchido por um fenômeno que ultrapassa os limites da racionalidade política ordinária: a histeria coletiva. A recusa reiterada de resultados eleitorais legitimamente certificados, a crença em fraudes inexistentes e a adesão acrítica a narrativas conspiratórias configuram um quadro de dissonância cognitiva socialmente organizada. O ponto culminante desse processo ocorreu em 8 de janeiro de 2023, quando multidões, imersas em uma realidade paralela, invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes da República, numa tentativa grotesca de suspender a própria democracia em nome de uma versão fantasmagórica dela.

Sob uma lente neomarxista, o fenômeno pode ser interpretado como uma mutação contemporânea da clássica categoria de lumpen, tal como formulada por Marx. O lumpenpatriota não é apenas economicamente precarizado ou politicamente desorganizado; ele é cognitivamente capturado por uma indústria simbólica que transforma ressentimento em identidade, ignorância em virtude e violência simbólica em dever moral. Não se trata apenas de falsa consciência, mas de uma consciência ativamente hostil ao conhecimento, às instituições democráticas e à mediação racional da realidade.

A apropriação do cristianismo pelo bolsonarismo explicita outro aspecto desse processo patológico. O Jesus histórico — associado à solidariedade, à defesa dos pobres e à crítica do poder — é substituído por um Cristo instrumentalizado, convertido em selo moral para legitimar discursos de exclusão, intolerância e autoritarismo. Analistas e pesquisadores já identificaram nesse fenômeno os contornos de uma religião política, na qual o líder assume traços messiânicos e a fidelidade ideológica substitui qualquer ética evangélica substantiva.

A defesa reiterada da chamada “família tradicional” obedece à mesma lógica. Não se trata da proteção de famílias reais, atravessadas por desigualdade, fome, precarização do trabalho e ausência de políticas públicas, mas da preservação de uma abstração moral mobilizada como arma retórica contra direitos civis, políticas sociais e a própria pluralidade da vida social. O lumpenpatriotismo, nesse sentido, mostra-se estruturalmente incompatível com qualquer projeto consistente de justiça social.

O culto ao pneu — literal e metafórico — sintetiza de maneira exemplar esse quadro. Um objeto industrial elevado à condição de ídolo político-místico revela o grau de regressão simbólica produzido pela alienação. Onde faltam argumentos, proliferam rituais; onde falta projeto político, impõe-se a fé cega; onde o pensamento crítico se ausenta, instala-se a histeria.

O lumpenpatriota não odeia o Brasil. Ele simplesmente não o conhece. Ama uma caricatura da pátria, fabricada por slogans, medos e delírios compartilhados. E, ao confundir essa caricatura com a nação real, converte o patriotismo em uma de suas formas mais pobres, regressivas e perigosas.

* Friedric von Syphud é PhD em Filosofia Quântica e Geopolítica Aeroespacial pela University of Greenland e pesquisador sênior do Institute for Advanced Studies of Nowhere.


FONTE:

https://www.facebook.com/RedeGuadakan?locale=pt_BR 




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