EUA, o país da pobreza

EUA, o país da pobreza

ESTADOS UNIDOS, O PAÍS DA POBREZA

Thomas de Toledo 

 

 

Não, aqui não falaremos das mansões que a elite vira-lata da América Latina compra em Miami. Não descreveremos os complexos residenciais de artistas e de celebridades nas colinas ensolaradas de Beverly Hills. Nem dos arranha-céus luxuosos de Nova York ou das casas futuristas dos businessmen do Vale do Silício. Tampouco dos palácios kitsch dos apostadores de Las Vegas, onde o dinheiro troca de mãos sob luz neon, com dançarinas de biquíni apetitando a noite de velhos tarados, ávidos por torrar suas poupanças achando que sairão de lá bilionários.

Esses cenários existem sim, claro, mas não passam de cartão-postal. Na verdade, não passam de anúncios que criam uma ilusão que esconde a verdade: a pobreza de uma enorme quantidade de pessoas, que garante a riqueza para uma meia dúzia. Para ver o famoso “sonho americano” difundido para o mundo, basta ligar a TV. Só aparecem coisas lindas. Gente rica e feliz, vivendo em casarão e dirigindo carrão.

Quem leva isso a sério acredita que Rambo venceu sozinho a Guerra do Vietnã; que um discurso do Rocky Balboa derrubou a União Soviética; e que robôs Transformers vindos do espaço defendem Washington contra o Irã. São os famosos enlatados estadunidenses. Uma forma de cinema ruim, de mau gosto e que foi feita muito mais pra fazer proselitismo ideológico do que para criar algo de valor artístico.

Aí a realidade começa quando o filme acaba.

Desça aos metrôs de Los Angeles e de Nova York e descubra as Cracolândias estadunidenses. Em estações onde o concreto escorre água suja e o cheiro de abandono se mistura com o de urina e fezes, onde pessoas dormem enfileiradas como se fossem parte da infraestrutura. Nada que o sempre limpo e moderno metrô de São Paulo que deveria ser um orgulho nacional.

Pessoas vivendo em lugares abandonados ou mal cuidados nas grandes cidades não são exceção. São a regra. Carrinhos de supermercado substituem armários, jornais viram cobertores, e a pressa dos que passam é a forma mais explícita do individualismo que é a marca da ideologia do self made man. O subsolo das cidades estadunidenses é um dormitório coletivo onde se escondem os que não querem que sejam vistos. Em Nova York, mais de 100 mil pessoas dormem diariamente em abrigos ou no metrô. Em Los Angeles, o número de sem-teto já ultrapassa 75 mil, muitos vivendo literalmente ao lado de hotéis onde diárias passam de 500 dólares.

Agora suba à superfície e caminhe pela famosa Calçada da Fama de Los Angeles. Entre estrelas douradas com nomes de atores milionários, há pessoas pedindo moedas para comer. A ironia é cruel demais para ser acidental. O chão celebra o sucesso, enquanto quem vive sobre ele luta para não morrer. A pobreza não está escondida. Ela é explícita. Mais de 40% dos sem-teto de Los Angeles sofrem insegurança alimentar severa, mesmo com a cidade recebendo bilhões anuais em turismo.

Os sem-teto estadunidenses equivalem à população de países inteiros. Não por um acidente social, mas como um produto do capitalismo de um país egoísta. Milhões perderam a casa na crise de 2008/2009. Com hipotecas impagáveis, aluguéis inflacionados, salários estagnados, a saída foi morar em trailers ou barracas. Um despejo que não é um drama individual, mas uma política econômica aplicada. Hoje, o aluguel médio de um apartamento simples ultrapassa 2.500 dólares mensais nas grandes cidades.

Nos Estados Unidos, perder o emprego pode significar perder o teto. Perder o teto costuma significar perder tudo, a começar pela dignidade. Afinal, em uma cultura que estereotipa como fracassado e chama de looser quem empobreceu, o que mais se poderia esperar?

A saúde completa o cerco. Não existe um sistema público de saúde como o SUS. Planos de saúde custam valores mensais obscenos. Quem não paga, não entra no hospital. Quem entra sem pagar os extras, sai antes de se curar. Não só isso. Se não pagar a fatura mesmo enquanto esteja doente, há precedentes para jogar a pessoa pra fora da maca, na rua. Isso é falta de humanidade? Não, é o capitalismo aplicado em sua cartilha. Um plano de saúde individual custa entre 600 e 1.200 dólares por mês. Uma internação simples pode gerar dívidas superiores a 50 mil dólares.

Dessa forma, o hospital funciona como empresa e o paciente como cliente inadimplente. O resultado é simples. Gente morre por falta de dinheiro em um dos países mais ricos do planeta.

Doença é, portanto, risco financeiro. Ambulância é dívida. Tratamento é privilégio. Medicamento é caríssimo. Nesse processo, muitos se endividam e precisam hipotecar ou vender a própria casa. De lá para a rua, é só um passo. Mais de 500 mil famílias entram em falência médica por ano.

A educação segue o mesmo roteiro. Cara, endividante e autocentrada. Forma mão de obra, não cidadãos do mundo. Ensina pouco sobre história global, quase nada sobre geografia, colonialismo, menos ainda sobre as próprias intervenções militares e guerras imperialistas. O mapa termina nas próprias fronteiras estadunidenses. O "resto" do planeta é palco de guerra, teatro de operações ou mercado consumidor. A dívida estudantil já ultrapassa 1,7 trilhão de dólares, com jovens devendo 40 mil, 80 mil, 120 mil dólares antes mesmo de conseguir um emprego.

Para fazer faculdade, o pai precisa fazer uma poupança desde que a criança nasceu. Para ser aceito nas grandes, um sobrenome ou uma carteira de aplicação ajuda muito. Para se manter, o rico ganha mesada do pai, o classe média trabalha de garçom e o pobre que rezar a cartilha da ideologia tenta uma bolsa.

Os povos indígenas vivem a continuidade do longo e cruel genocídio. Suas reservas são empobrecidas, falta-lhes saneamento básico e emprego. Como resultado, alcoolismo, suicídio, abandono estatal. A nação que se diz fundada na liberdade mantém seus primeiros habitantes em condições precárias, quando não os apaga da narrativa oficial. A colonização nunca acabou, só mudou de linguagem. Em algumas reservas, a expectativa de vida é inferior a 50 anos.

A segregação racial persiste, agora de terno e gravata. Negros são maioria entre os pobres, maioria entre os encarcerados, maioria entre os mortos pela polícia. O racismo não é desvio moral individual, é estrutura social herdada da escravidão. Endereço, cor da pele e sobrenome definem oportunidades. Mesmo colocando um negro como Obama na presidência, o racismo persiste e em tempos de Trump é até estimulado. A renda média de uma família negra é cerca de 60% da renda de uma família branca.

Já os imigrantes latino-americanos são os que sustentam setores inteiros da economia. Agricultura, construção, limpeza, serviços. Trabalham muito, ganham pouquinho, vivem distante do que há de bom, conflagrados no medo. Subemprego, miséria e isolamento cultural é o que predomina.

Imigrantes são então tratados como descartáveis. O aparato migratório age com brutalidade. Prisões, deportações sumárias, centros de detenção que funcionam como campos de concentração. Crianças são separadas das famílias e nunca mais se reencontram. Muita gente é presa sem crime algum, apenas porque policiais precisam cumprir cotas. A lei se impõe a eles como instrumento de terror administrativo. O ICE mantém mais de 200 centros de detenção, e milhares de crianças já foram separadas dos pais desde 2018.

A população carcerária é gigantesca. Milhões presos. Muitos por crimes não violentos que continuam presos por não terem recursos para pagar advogado e custas processuais. A prisão virou negócio. A pena de morte segue em vigor em boa parte do país, um resquício medieval travestido de justiça. O Estado que se diz guardião da vida decide quem deve morrer. Os EUA têm 25% de todos os presos do planeta, com apenas 4% da população mundial.

A isso se soma a violência endêmica. Circulam mais armas do que pessoas nos EUA. Todo ano, mais de 45 mil pessoas morrem por armas de fogo. Escolas são palco de massacres; alunos treinam rotinas de tiroteio; professores compram barricadas para as salas de aula. A fratura ideológica divide famílias, vizinhos, cidades inteiras. Milícias civis armadas se multiplicam, e a sombra de um conflito interno paira no ar como possibilidade real.

A pobreza é quantificável. Dezenas de milhões vivem abaixo da linha oficial. A desigualdade é obscena. Uma minoria concentra riqueza em níveis históricos, enquanto a maioria sobrevive no limite. O país lidera rankings de bilionários e, ao mesmo tempo, de insegurança alimentar. Abundância para poucos, escassez para muitos. Mais de 40 milhões vivem na pobreza oficial, e cerca de 60% não conseguem pagar uma emergência de 400 dólares.

Quando a população protesta por esse caos social, a resposta é repressão. Polícia militarizada, vigilância constante, criminalização do dissenso. Espaços democráticos são estreitos e restritos. O dinheiro define eleições da cidade ao governo federal. A política é um clubinho caro. A liberdade existe, desde que não atrapalhe o mercado.

As drogas completam o cenário de ruína social. O país que se apresenta como modelo de civilização enfrenta uma epidemia química permanente. O crack devastou bairros inteiros desde os anos 1980, a cocaína circula livremente entre executivos e celebridades, a heroína voltou com força entre os pobres, e o fentanil transformou a overdose em rotina estatística. Drogas sintéticas ainda piores, como carfentanil, metanfetamina cristal, xilazina, conhecida como “droga zumbi”, e misturas químicas imprevisíveis, corroem corpos e cidades inteiras. Ruas de Los Angeles, Filadélfia, São Francisco e Baltimore se tornaram vitrines do colapso humano. Milhões de dependentes são tratados não como doentes, mas como lixo social. O Estado alterna abandono e repressão, enquanto a indústria farmacêutica, a mesma que impulsionou a crise dos opioides, segue lucrando. O vício não é desvio moral. É produto direto de uma sociedade adoecida, desigual e sem horizonte.

Esse é o país real. Não o da tela grande, mas o da vida pequena. Não o da promessa, mas o da sobrevivência prática. Os Estados Unidos não são o país da oportunidade universal. São o país da pobreza administrada, da desigualdade naturalizada e da miséria escondida sob a propaganda do "American way of life". Um império que brilha por fora mas que apodrece por dentro. Um país empobrecido, fraturado, segregado, à beira de uma guerra civil.

FONTE:

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