Execuções sumárias em praça pública

Circula com insistência, na grande mídia ocidental e principalmente nas redes sociais, a ideia de que o Irã promove “execuções sumárias em praça pública”, como se mulheres e dissidentes fossem rotineiramente enforcados diante de multidões em espetáculos de terror...
Pelos comentários que chegam, inclusive em postagens minhas, é muito explícita a indignação, tão fervorosa quanto confusa, da galera escandalizada com as "ditaduras" por aí...
Essa idéia, embora eficaz para chocar e mobilizar emoções, não corresponde a realidade factual.
A realidade de um país, de seus governos e povos é composta de muitas camadas e qualquer juízo superficial será injusto.
Um pouco de interesse em fazer uma pesquisa séria ajudaria a não embarcar em narrativas despolitizantes, historica e sociologicamente problemáticas.
Mas, vamos em frente:
O Irã possui pena de morte em seu sistema jurídico sim. Isso é fato amplamente documentado e criticável, óbvio, mas execuções públicas não são a regra, tampouco ocorrem de forma indiscriminada ou cotidiana, em praça pública, como sugere o imaginário midiático...
A maioria grande destas execuções, quando ocorrem, são restritas a ambientes controlados, após processos judiciais formais, ainda que esses processos frequentemente careçam de garantias adequadas de defesa, sobretudo em casos políticos. Casos pontuais de execuções públicas existiram, sobretudo em décadas anteriores, e foram amplamente explorados pela imprensa internacional como se representassem a normalidade do funcionamento do Estado iraniano.
Nesse momento o país está convulsionando por conta de fortes protestos populares principalmente relacionados a economia. Há interferência estrangeira dos EUA e de Israel inflamando e desorientando gente, intensificando a violência. Há registros sérios de mortes, mas não de execuções promovidas pelo governo iraniano.
Não ainda.
Vamos com calma.
E ATENÇÃO: contestar o sensacionalismo não significa absolver o regime, por favor. O Estado iraniano reprime, prende, censura e pune, inclusive com a pena capital, e isso deve ser denunciado com clareza, com responsabilidade. Mas a denúncia perde força quando se apoia em caricaturas, exageros ou imagens fabricadas para consumo acrítico...
O combate às violações de direitos humanos exige precisão, não histeria; fatos, não clichês.
Essa indignação seletiva da galera emocionada nos comentários das redes fica ainda mais evidente quando olhamos para os Estados Unidos...
País que essa galera ama de paixão...
Lá também existe pena de morte. Esqueceram?
Existe perseguição documentada a dissidentes, denunciantes e movimentos políticos considerados ameaças à ordem, como demonstram o COINTELPRO, a perseguição a Edward Snowden e Julian Assange, e a repressão sistemática a movimentos como o Black Lives Matter...
Só pra exemplificar.
Existe uma polícia historicamente racista que mata pessoas negras e pobres nas ruas, muitas vezes diante de câmeras, sem que isso seja tratado como prova de um regime ditatorial...
Eu tô mentindo?
Há ainda o absoluto absurdo chamado prisão de Guantánamo, uma prisão ~extrajudicial~ mantida há mais de duas décadas, onde pessoas são sequestradas e jogadas lá, torturadas e mantidas presas indefinidamente sem acusação formal ou julgamento...
?? CADÊ A INDIGNAÇÃO ??
E há o ICE, responsável por centros de detenção de imigrantes marcados por denúncias recorrentes de tortura psicológica, separação de famílias, assassinatos sob custódia, desaparecimentos, detenções arbitrárias e violações sistemáticas de direitos humanos...
Incluindo crianças ok?
Nada disso, contudo, é chamado de “ditadura”...
Os EUA podem tudo?
Trump não se enquadra no rótulo "ditador" - por quê??
Nos Estados Unidos e por aqui também, essas violências aviltantes são enquadradas talvez como “falhas”, ou “excessos”, quem sabe “desvios pontuais” dentro de uma "democracia consolidada"...
Se é que alguém se dá ao menos ao trabalho de tentar justificar algo sobre isso...
Quando práticas semelhantes, ou até menos graves, ocorrem em países fora do eixo de poder ocidental, elas são imediatamente convertidas em prova de barbárie, tirania e atraso civilizacional...
Sabe o nome disso?
Começa por ignorância, e vai escalando pra racismo e xenofobia.
Temos aí provas recentes disso, Venezuela e Irã, países estigmatizados por preconceitos de origem imperialista incutidos na mente das pessoas de fora, que em nada contribuem pra um entendimento da realidade nem de seus governos nem de seu povo. E toda realidade é complexa, é multifacetada, exige aprofundamento e maturidade pra lidar com diferenças e desconstrução de paradigmas e estereótipos.
O problema, portanto, não é a defesa dos direitos humanos, mas quem detém o poder de defini-los e instrumentalizá-los. Direitos humanos, no discurso dominante, deixam de ser um princípio universal e passam a funcionar como arma política: servem para legitimar sanções, cercos econômicos, desestabilizações e guerras, enquanto crimes cometidos pelo império e seus aliados são relativizados ou invisibilizados.
Quando a violência é exercida pelo centro do sistema, ela vira “manutenção da ordem”.
Quando é exercida fora dele, vira “ditadura”.
E ATENÇÃO: desmontar esse duplo critério, essa seletividade, não significa silenciar críticas a regimes autoritários, mas recusar a manipulação moral que transforma sofrimento humano em propaganda de guerra, como também não significa se justificar um erro apontando outro. É só pra chamar a uma reflexão.
Esse é o objetivo do textão de hoje.
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Gi Stadnicki
Fonte de pesquisa pra aprofundamento:
https://youtu.be/VIMysKDw1i0?si=52-_8-BwFVrNF07L
FONTE:
https://www.facebook.com/photo?fbid=25200408449661351&set=a.317290998399774&locale=pt_BR





