Face do machismo brasileiro
NÃO É DIREITO DE NINGUÉM MATAR UMA MULHER
O feminicídio é a face mais brutal do machismo brasileiro.
René Ruschel

Não se trata de casos isolados, de crimes passionais ou de explosões momentâneas de ciúme.
Trata-se de um fenômeno estrutural, sustentado por uma cultura que, historicamente, ensinou homens a exercer poder sobre o corpo, a vida e as decisões das mulheres.
Quando uma mulher é assassinada por ser mulher o que está em jogo não é apenas uma tragédia individual, mas a confirmação de uma mentalidade que naturaliza a violência como instrumento de controle. Dados oficiais evidenciam a gravidade do problema.
Um trabalho recém-concluído no Rio Grande do Sul, elaborado pela Comissão Externa da Câmara dos Deputados sobre o feminicídio no estado, formada por deputadas gaúchas, revela que a cada quatro dias uma mulher é morta em território gaúcho.
No ano passado, durante os feriados da Semana Santa, onze mulheres foram assassinadas. Entre 2012 e 2015, outras 1.285 perderam a vida em razão desse crime.
De acordo com a Polícia Civil do Rio Grande do Sul, nos últimos cinco anos mais de 700 jovens, entre crianças e adolescentes, ficaram órfãs em decorrência do feminicídio.
São números que não cabem em estatísticas frias. São vidas interrompidas, famílias devastadas, infâncias marcadas pelo trauma.
Diante desses dados é inevitável perguntar: o que leva homens a agir dessa forma? O que justifica tamanha brutalidade? A resposta não está em um impulso momentâneo, mas em um padrão social.
O machismo brasileiro foi forjado em séculos de patriarcado, em que a figura masculina era vista como chefe absoluto da família, detentor do poder econômico e moral.
Sob o ponto de vista sociológico, o feminicídio é resultado de uma cultura de dominação. Muitos homens são socializados para acreditar que perder o controle sobre a companheira representa perda de honra, de virilidade e de autoridade.
A separação, a autonomia financeira ou mesmo a recusa a uma relação são interpretadas como afrontas pessoais. Incapazes de lidar com a frustração, recorrem à violência como mecanismo extremo de reafirmação de poder.
Não é amor que mata, é a posse. Não é paixão, é o controle.
O estado, por sua vez, tem falhado na prevenção. O governo do Rio Grande do Sul pouco tem feito para conter essa escalada de crimes.
Faltam políticas públicas robustas, investimentos em casas de acolhimento, ampliação de delegacias especializadas e campanhas permanentes de conscientização. A repressão isolada não basta. É preciso atuar na raiz do problema.
Um dos caminhos mais eficazes é a educação. A escola é o espaço privilegiado de formação de valores.
Ensinar meninos e meninas desde cedo que ninguém é propriedade de ninguém e que divergências não se resolvem com agressão. Só a educação é capaz de romper o ciclo histórico que legitima a violência.
O feminicídio não é uma fatalidade, é resultado de escolhas individuais amparadas por uma estrutura social permissiva.
Questionar o machismo brasileiro é confrontar privilégios arraigados e desconstruir padrões tóxicos de masculinidade.
Não há justificativa possível para tirar a vida de uma mulher. Não existe honra, ciúme ou dor que legitime o assassinato. O direito à vida é inegociável.
Enquanto aceitarmos o silêncio, a omissão e a desculpa fácil, novas estatísticas continuarão a ser produzidas e novas crianças continuarão a crescer sem suas mães.
Será preciso indignação, políticas públicas efetivas e, sobretudo, transformação cultural.
Porque nenhuma sociedade pode se dizer justa enquanto mulheres seguem sendo mortas por ousarem existir.
FONTE:
https://www.facebook.com/rene.ruschel.79?locale=pt_BR





