Feminicídio, doença do fascismo
O feminicídio é uma doença do fascismo
Pregações e atitudes de líderes da extrema direita liberam os homens para eliminar ‘suas’ mulheres
Por Moisés Mendes / Publicado em 12 de dezembro de 2025

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Os homens matam mulheres porque são terrivelmente fascistas, mesmo que cientistas, estudiosos e assemelhados prefiram não admitir, principalmente se também forem homens. Cientistas mulheres admitem. O feminicídio é uma doença da extrema direita.
Nunca mataram tanto como agora. Mas já matavam mulheres no Alegrete dos anos 70, quando a violência era quase assimilada como sendo da natureza da vida de duas pessoas. O macho matava em nome da honra.
Naquele tempo, matavam e às vezes só a polícia, a família e os vizinhos ficavam sabendo. Não dava manchete na Gazeta de Alegrete, que anunciava, todos os meses, que a universidade federal estava chegando.
Essa era a manchete que se repetia quase sempre com o mesmo formato. Com o general Alcy de Vargas Cheuiche, presidente da Fundação Educacional, dizendo que agora assim Alegrete teria um campus federal.
E a Gazeta estampava no alto da capa: a universidade está cada vez mais próxima. Porque Alegrete passará na frente de Uruguaiana e será a escolhida. A briga era sempre com Uruguaiana. A educação superior, em todas as áreas, era o sonho do Alegrete.
Até que um dia a Alegrete dos anos 70 leu uma manchete de impacto para muito além dos sonhos da universidade. Foi em 1972. Um homem matou a ex-companheira na frente da Gazeta, na Rua Vasco Alves, na frente da Igreja Nossa Senhora Conceição Aparecida. Com um tiro de revólver 22. No centro da cidade.
Os dois tinham ido à sede de uma entidade assistencial que funcionava numa garagem, ao lado do jornal, para pegar alguma ajuda e depois resolver a guarda de uma criança de menos de um ano no foro. É do que me lembro.
A criança estaria no colo da mulher quando o homem atirou no peito da ex-companheira, ou já estaria com ele quando ele matou a moça magrinha. Disso não tenho certeza.
A cena que eu vi, como repórter, foi essa: um homem gritando na calçada, com a criança no colo, um revolverzinho na mão, e a mulher pequena e frágil já morta no chão, com uma mancha de sangue no peito.
Os dois com idade em torno de 30 anos. Gente humilde, mas nada guardei que possa me lembrar hoje do que faziam como trabalhadores e de onde moravam.
O que lembro é que o homem dizia coisas depreciativas dirigidas à mulher morta. E que a manchete da Gazeta no dia seguinte foi essa: ‘Bárbaro assassínio’. O homem matou a companheira na frente do jornal. Foi minha primeira ‘grande’ reportagem.
Aquilo era um assassínio. A palavra dos textos dos jornais e da literatura do século 19 chegava até o século 20, mas não era suficiente para prever a palavra definidora que viria depois: aquilo era um feminicídio.
Lembro também que dias depois o advogado Pery Marzullo, o mais famoso criminalista do Alegrete, procurou Samuel Marques, diretor da Gazeta, o autor da manchete, para fazer uma oferta.
O homem daria uma entrevista para contar sua versão. E eu fui ao presídio com Marzullo para ouvir o assassino numa sala. Não lembro, não quero lembrar e não desejo que alguém lembre o que ele disse na tentativa de se defender e que o jornal acabou publicando.
Lembro que era magro, que não sei o que senti por ele e que pensava na moça morta enquanto ele falava. Era um homem desprezado pela mulher que ele dizia amar, e que preparava sua defesa já naquela entrevista. O que se sabe é que hoje ele não seria entrevistado. E que a manchete nesses dias poderia ser essa: ‘Mais um feminicídio’.
Eu gostaria de ver hoje a reação daquele homem diante dos cartazes expostos agora nas paredes da Câmara de Vereadores de Alegrete, com os rostos de vítimas de machos que matam porque ainda se consideram donos das mulheres que desejam se autodeterminar.
Vi os cartazes quando estive no Alegrete esse ano. Eu gostaria de saber onde está aquele homem, quantos anos de cadeia pegou, que sofrimentos carrega até hoje e onde está aquela criança. O homem pode estar com mais de 80 anos, a criança deve ter ao redor de 55.
E a Gazeta ainda está viva, Alegrete ganhou universidades e um campus do Instituto Federal, e os homens continuam matando mulheres que os mandam embora para tentar se livrar de todo tipo de crueldade.
Naquele tempo pouco se sabia. Mas hoje se sabe que o feminicídio é uma doença do fascismo. Os homens matam porque são orientados a serem violentos por líderes extremistas, por redes sociais e redes de tios do zap cruéis, misóginos, transfóbicos, racistas.
O feminicídio é uma doença do bolsonarismo que prega submissão absoluta e ‘saudável’, como diz Michelle Bolsonaro, e mata muito mais mulheres pobres e negras, mas mata também mulheres brancas de classe média. É a regra, e todo o resto é a exceção. A regra é: os feminicidas são bolsonaristas violentos e agem sob a inspiração de mulheres ativistas bolsonaristas.
Todas as mulheres sabem disso no Alegrete, em Sorocaba, em São Gabriel, em Caxias, em Marau. Sabem principalmente em São Paulo, na cidade e no Estado governados pela extrema direita, onde o fascismo nunca matou tantas mulheres como agora.
Moisés Mendes é jornalista e escreve quinzenalmente para o Extra Classe.
FONTE:
https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2025/12/o-feminicidio-e-uma-doenca-do-fascismo/






