Filmes, (In)justiça social e trabalho

Filmes, (In)justiça social e trabalho

Filmes: NOMADLAND e EU, DANIEL BLAKE – (In)justiça social e trabalho.

É impossível falar de justiça social sem abordar, paradoxalmente, a injustiça social. Mais difícil ainda, se associarmos a injustiça social ao trabalho, sua exploração ou precariedade. A luta por justiça social tem suas origens nas desigualdades econômicas e suas consequências, como a discriminação e o preconceito.

20 de fevereiro é o dia Mundial da Justiça Social. Logo, nada fácil escolher dois filmes que abordem com intensidade a justiça social (ou falta dela), pois há uma variedade muito grande. Então, optei por relacionar a (in)justiça social ao mundo do trabalho.

O primeiro filme, recém lançado é “Nomadland”.

Um impressionante retrato do mundo capitalista estadunidense do qual não se tem noção quando se idolatra uma sociedade cuja realidade está muito longe do imaginário paradisíaco hegemônico no sul da linha do Equador. Após a crise de 2008 e o fechamento de importantes fábricas, milhares de pessoas ficam desempregadas, perdem suas casas e passam a viver em situações precárias de subemprego ou trabalhos informais (difícil não associar com a reforma trabalhista no Brasil). Sem casa, mas não sem teto, segundo a protagonista principal, milhares destas pessoas vivem em vans se deslocando pelo país atrás de serviços sazonais/provisórios, vendendo sua força de trabalho por salários miseráveis para poderem se manter. Quer seja trabalhando em galpões da Amazon na distribuição de mercadorias, em parques de diversões fazendo limpezas/faxinas, em restaurantes, na colheita de beterrabas, enfim.

Nas EDRs (encontro de desabrigados sobre rodas) relatam suas perdas, compartilham desajustes familiares, refletem sobre a realidade, sobre a falta de amparo social por parte do Estado: aposentadoria irrisória, nenhuma política de empregos ou assistência social/à saúde, fazendo com que até a morte seja uma alternativa. Mas há também a solidariedade, a troca e venda de objetos pessoais e, por vezes, se distanciando da realidade, um sentimento de íntima completude e liberdade. São os nômades! Não há portos seguros (incompatibilidade com parentes, estacionamentos em que são proibidos de pararem e dormir). A única certeza é a do movimento, do sacrifício, dos encontros e desencontros, dos ciclos que se abrem e fecham de acampamento em acampamento atrás da sobrevivência e a constatação de que nascer nos Estados Unidos não é necessariamente uma benção (“sorte”) dependendo do segmento da sociedade em que você está inserido.

No transcorrer do filme temos o contato com a poesia, a paisagem geográfica, a astronomia, geologia, música e natureza. Não há glamour nesta vida, seja por opção ou necessidade, somente a certeza de que.... nos vemos pelo caminho.

A injustiça social pode ser encontrada no final de uma vida também, após anos e anos de trabalho. É o que nos relata o filme “Eu, Daniel Blake”. Dividido entre o auxílio doença e o seguro desemprego, Daniel se perde na burocracia, nos infindáveis formulários para serem preenchidos e nas demoras de atendimento dos call centers, após um ataque cardíaco o colocar na condição de incapaz (médicos) em contraste com a condição de apto a trabalhar (sistema público de saúde).

Entre estes dois polos, enquanto ajuda uma mãe solteira que busca solução de seus problemas econômico-financeiros na prostituição e um vizinho cujo rompimento com o trabalho formal e exploratório é o contrabando, está o desespero de Daniel para que seus direitos sejam atendidos. De concreto, o fato do Estado (empresa terceirizada) não reconhecer tais direitos.

O sistema é indecifrável para Daniel, e seu longo cotidiano de operário da carpintaria torna a tecnologia, necessária para a resolução de sua situação, coisa de outro mundo. Para um idoso sozinho, doente, tachado de vagabundo, que luta pela sobrevivência passando a vender seus pertences e considerado improdutivo para o mercado de trabalho, só resta o protesto através da pichação na parede de um prédio público, o que, para sua surpresa, rendeu apoios, mostrando que muitas pessoas vivem incomodadas com este mesmo tratamento do Estado (funcionalismo público?), mas fez também com que sua dignidade como cidadão e contribuinte encontrasse o fim da linha numa delegacia de polícia.

O reconhecimento, prestes a chegar, foi tarde demais. O filme debate o desemprego, a privatização, a dependência em relação ao assistencialismo e mostra que a única coisa que um Estado (ineficiente, desrespeitador e desprovido de qualquer consideração com aqueles que construíram sua vida com sacrifício e trabalho) espera de você é desistir de lutar. Se aqui estamos falando da Inglaterra, facilmente podemos nos refletir enquanto país neste espelho.

Sinopses:

- NOMADLAND - Em Nomadland, após o colapso econômico de uma cidade na zona rural de Nevada, nos Estados Unidos, Fern (Frances McDormand), uma mulher de 60 anos, entra em sua van e parte para a estrada, vivendo uma vida fora da sociedade convencional como uma nômade moderna.

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- EU, DANIEL BLAKE - Após sofrer um ataque cardíaco e ser desaconselhado pelos médicos a retornar ao trabalho, Daniel Blake (Dave Johns) busca receber os benefícios concedidos pelo governo a todos que estão nesta situação. Entretanto, ele esbarra na extrema burocracia instalada pelo governo, amplificada pelo fato dele ser um analfabeto digital. Numa de suas várias idas a departamentos governamentais, ele conhece Katie (Hayley Squires), a mãe solteira de duas crianças, que se mudou recentemente para a cidade e também não possui condições financeiras para se manter. Após defendê-la, Daniel se aproxima de Katie e passa a ajudá-la.


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