Geração distração

Geração distração

Geração distração

O desafio da docência para capturar e manter a atenção dos estudantes tem sido uma das questões mais debatidas pelas IES

Qual é o tempo médio de atenção que podemos esperar durante as aulas? Apesar de não encontrar um dado que especifique com exatidão o período de retenção, o campo da psicologia afirma que um estudante convencional permanece atento de 10 a 15 minutos. No entanto, nas formações de professores tenho ouvido com frequência diferentes relatos de docentes que expressam a sensação de precisar se esforçar mais para conseguir capturar e manter a atenção. 

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Mudanças na atenção podem ser usadas como excelente maneira de diferenciar as gerações


É comum encontrarmos argumentos que explicam a sensação dessa perda relacionada ao aumento da exposição à tecnologia, tornando-se mais difícil alcançá-los e ensiná-los.

Uma pesquisa da Pew Internet aplicada com quase 2.500 professores mostrou que 87% acreditam que é o excesso de telas que está criando uma “geração com curtos períodos de atenção”. E 64% destes mesmos professores entrevistados acreditam que as tecnologias digitais mais distraem que ajudam os estudantes.

Um estudo conduzido pela Microsoft trouxe evidências sobre essa suposta distração. Realizado no Canadá, mostrou que o tempo médio da atenção em contextos digitais tem caído nos últimos anos de 12 segundos para 8 segundos.

Tecnologia sob a ótica positiva

A explicação desta queda ocorre em grande parte pela natureza da tecnologia. E pelo estímulo constante que ela oferece, tornando os alunos “mais exigentes” com relação aos aspectos capazes de manter a atenção. Há um resultado positivo, no entanto.

Apesar de distrair, os dispositivos podem melhorar a capacidade de agir no modo “multitarefa”. De acordo com a pesquisa, os participantes que têm um estilo de vida mais digital são muito melhores no processamento de informações simultâneas. Que chegam de diferentes fontes com maior agilidade, ou seja, “usuários de múltiplas telas acham difícil filtrar estímulos irrelevantes – são mais facilmente distraídos por múltiplos fluxos de mídia”.

Um menor poder de concentração pode ser efeito colateral da evolução do acesso aos dispositivos móveis. Vale destacar que o fenômeno é resultante da capacidade do cérebro de se adaptar e modificar ao longo do tempo. Ou conforme as próprias palavras publicadas no relatório da pesquisa, “estilos de vida digitais afetam a capacidade de manter o foco por longos períodos”.

Isso significa que a sensação dos docentes sobre a necessidade de maior esforço para conseguir capturar e manter a atenção dos estudantes é realidade, mas vale uma reflexão relevante. O que estamos chamando de “perda de atenção” pode ser na verdade o modo como acreditamos que esses estudantes processam as informações a partir das nossas expectativas. 

Por isso, não interpreto o aumento da distração como algo bom ou mesmo como um fato que não há nada a se fazer. As mudanças na atenção podem ser usadas como excelente maneira de diferenciar as gerações. Mas convido os profissionais da educação a refletirem sobre o rótulo de “geração distração” que tem sido lançado sobre os estudantes da contemporaneidade.

Revisão de proposta

Os níveis de atenção são influenciados pela motivação, humor, relevância, sentimento de pertencimento, clareza de propósito, envolvimento com a tarefa, valor percebido no tema ou material. Significa que não podemos usar este aspecto como uma justificativa. E amenizar o fato que é mandatório: rever como propomos as experiências de aprendizagem capazes de captar e manter a atenção e engajamento.

Para que as instituições de ensino superior possam capturar e manter a atenção dos estudantes, selecionei 5 premissas. Que podem ser incorporadas no planejamento acadêmico estratégico, independente da modalidade da educação.

  • Efeito montanha russa na sequência didática 

Já sabemos que os estudantes possuem diversos picos de atenção. Estruture a atividade pedagógica levando em consideração o melhor aproveitamento destas oportunidades. Lembre-se que os minutos iniciais são aqueles em que há um pico de atenção. Então comece com algo que conecte o estudante com um problema cotidiano, uma pergunta intrigante ou mesmo uma citação, para então, apresentar conceitos ou fundamentos. Por que eles deveriam se interessar pelo assunto? Isso os ajuda a manterem-se próximos da realidade, para que possam compreender a dimensão prática e aplicável do conhecimento. Uma sugestão é inserir aquecimentos mentais como as dinâmicas de ativação para estimular a dedicação plena. 

Na metade da aula, pode ser um momento propício para trabalhar metodologias mais ativas por meio da experimentação e fomento da participação dos estudantes. Já mais para o final é possível retomar os conhecimentos, palavras-chaves e pontos principais auxiliando-os a refletir sobre a experiência com o intuito de consolidar o processo de aprendizagem. Denomino esta organização didática favorecedora dos picos de atenção de efeito montanha russa. 

Vale uma recomendação. A postura do profissional também é um estímulo ao engajamento, assim como pode atuar de forma contrária, inserindo os estudantes em um contexto de passividade. Então mantenha-se com foco e motivação.

  • Experiências de aprendizagem memoráveis

Por isso, a necessidade de planejar experiências de aprendizagem memoráveis não só favorece a captura da atenção, mas a apropriação do conhecimento. Para ofertar uma experiência de aprendizagem memorável requer uma dinâmica que inclua as dimensões cognitiva, emocional e relacional do ser humano. 

Certamente você já dever ter tido contato com o tema “curva de esquecimento”. Trata-se do nome atribuído por Hermann Ebbinghaus sobre sua pesquisa que explica fenômeno de esquecer-se de cerca de 50% das informações recebidas uma hora atrás. Ebbinghaus ainda descobriu que 70% dessas mesmas informações são esquecidas em 24 horas. E 90% do conteúdo pode ser esquecido em um mês. Se os conhecimentos não são relembrados ou colocados em prática, são esquecidos.

Outro aspecto a ser considerado é a capacidade de se sentir aceito, ouvido e participante no grupo, com a interação entre os pares. É um indicador muito relevante quando se pretende qualificar a experiência do estudante e torná-la memorável. 

  • Prática ativa e criativa

A sala de aula deve ser um reflexo do mundo para o qual estamos preparando os estudantes. Se as expectativas almejam que eles criem e inovem, logo nossas salas de aulas devem ser lugares criativos e inovadores para aprender.

Substituir aulas monólogas para um aprendizado ativo não apenas aumenta a captura da atenção, mas também ajuda a mantê-la durante os períodos de aula imediatamente após essas atividades. 

Ao apropriar-se dos conhecimentos por meio de uma prática ativa e criativa, os estudantes serão capazes de compreender o mundo e transpor em algo concreto para transformar a própria vida. Ou da comunidade. Em outras palavras, serão capazes de propor soluções para problemas reais e transformar as ideias em realidade. E não faltam estratégias pedagógicas para criar uma ponte entre conhecimentos teóricos e práticos com foco no desenvolvimento de uma postura protagonista e resolutiva.

Vale um ponto de reflexão. Ao propor atividades ativas, a máxima do quanto mais difícil, melhor, é válido? Nem sempre. É importante equilibrar o nível de dificuldade para manter o engajamento, embora seja tarefa quase imperceptível aos olhos docentes. É preciso avaliar a capacidade de assimilação de determinado conhecimento em uma turma, e para cada estudante. Isso porque tanto a hiperestimulação quanto a hipoestimulação podem ser prejudiciais para o processo de aprendizagem.

Na hiperestimulação cria-se um nível de dificuldade acima da capacidade do estudante. Como consequência ocorrerá a desmotivação pela percepção das dificuldades, e o sentimento de incapacidade de vencê-las. A hipoestimulação faz com que consigam captar todas as atividades e desenvolvê-las. Por se encontrar em um nível abaixo do que é capaz de desempenhar, pode ser algo que altere a motivação, não colocando esforço ou até desistência da atividade, disciplina ou curso.

  • Docência multimodal e utilização de recursos tecnológicos

Todos aprendem mais quando o conhecimento é apresentado por meio de modos visual, auditivo, cinestésico. Neste sentido, precisamos buscar uma docência multimodal.

Na obra Visible Learning and the Science of How We Learn os autores Hattie e Yates afirmam que somos aprendizes visuais e auditivos, não apenas alguns de nós. Seus estudos revelaram que se aprende mais quando as entradas que experimentamos são multimodais ou apresentadas por diferentes mídias. 

Isso significa que além de incorporar o aprendizado ativo em nossas aulas, podemos usar a tecnologia para envolver e manter o conteúdo e seus recursos. Deve-se apresentar de modo didático e relevante, visto que a mente humana não consegue lidar com tanta abstração. Quando os estudantes têm à sua frente material altamente visual e envolvente, resulta em um excelente potencial para captura e constância da atenção.

Investir no uso de tecnologias, criar espaços inteligentes, elaborar materiais digitais, fomentar o desenvolvimento de um mindset capaz de transformar ideias em realidade é possível. A docência multimodal cria novas oportunidades aos estudantes. No entanto é mandatório que essas tecnologias e metodologias venham acompanhadas de práticas pedagógicas. E que atendam os modos de aprender e ensinar distintos, mais amplos, e com acesso facilitado por meio de experiências alinhadas com as transformações no nosso momento histórico.

Proibições de uso de celular e tablets não funcionam mais. Invista no uso consciente e ressignifique esses dispositivos em sala de aula, com o intuito de beneficiar o processo de aprendizagem. 


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  • Diversificação da avaliação da aprendizagem

A diversificação dos modos de avaliar pode ser uma estratégia poderosa para contemplar e favorecer os diferentes perfis estudantis. Muito além das provas tradicionais considere outros modelos avaliativos. Como portfólios, observação profunda das dinâmicas entre grupos. E durante a realização das atividades propostas de forma coletiva, a frequência do estudante são indicadores do próprio engajamento e na atenção em sala de aula.

A auto avaliação aplicada como elemento metacognitivo também é potente para promover reflexões sobre o engajamento. Nela, o estudante pode avaliar dificuldade das aulas e das atividades, além de propor melhorias colaborando com a reflexão sobre a própria experiência.

A partir dessas 5 premissas é possível melhorar o engajamento com resultados significativos na captura e constância atencional. Novas abordagens mais contextualizadas e que promovam a autonomia precisam fazer parte de uma mudança de mentalidade e modo de operação pedagógica das IES. 

Afinal, o sucesso de uma instituição de educação superior tem relação direta com a qualidade do serviço ofertado. Um estudante satisfeito é uma ponte para alcançar outros potenciais estudantes e de fato aumentar a percepção de valor sobre o trabalho pedagógico desenvolvido pelas IES.

 

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