Getúlio, o mais complexo

Getúlio, o mais complexo

Getúlio, o mais complexo

Vargas suicidou-se em 24 de agosto de 1954

 

    Todo ano, em 24 de agosto, lembramos do homem que preferiu se matar a ser desonrado: Getúlio Vargas. Ele foi conservador, revolucionário, presidente eleito indiretamente, conforme a Constituição de 1934, ditador (1937-1945), presidente eleito pelo voto direto, em 1950, e certamente a maior personalidade política da história do Brasil. Numa votação de tevê, perdeu apenas para a Princesa Isabel. Resultado injusto. Getúlio era homem de frases. Um dia teria dito que não gostava de ser ditador, mas que as circunstâncias o obrigavam. Desculpa de ditador? Nem todos se desculpam. Mas desculpas não apagam fatos nem mudam estatísticas.

    Num discurso de comemoração do terceiro ano do Estado Novo, em 10 de novembro de 1940, Getúlio surpreendeu a ala germanófila do seu governo (Gaspar Dutra, Góis Monteiro, Lourival Fontes, Filinto Müller) indicando posição contra o nazi-fascismo: “Onde estiver qualquer nação americana deverão estar as nações irmãs do hemisfério, e nós estaremos entre elas, prontos a empenhar-nos na defesa comum”. Assim como mandara desmantelar a conspiração comunista, em 1935, determinou o sufocamento do fascismo tropical, o integralismo, em 1938. O governo flertava com o fascismo europeu. O partido nazista do Brasil, tido pelo maior fora da Alemanha, foi esmagado. Em 3 de outubro de 1930, dia da revolução, fez a primeira anotação no seu diário: “Sinto que só o sacrifício da vida poderá resgatar o erro de um fracasso”.

O escritor Menotti del Picchia dizia Vargas tinha “o olhar periférico da mosca e mais uma supervisão das distâncias”. Getúlio Vargas será sempre uma incógnita. Em meu romance sobre a sua vida, dois anciãos, num reencontro no Museu da República, antigo Palácio do Catete, onde Getúlio se deu o tiro no coração, lembram o passado:

— Getúlio não era um caudilho, balbuciou o velho, enquanto procurava uma cigarrilha escura no bolso interno do casaco.

— Vê-se, de imediato, pela sua tosse que o senhor não devia fumar, disse a anciã, metida num vestido vermelho que a fazia parecer ainda mais excêntrica e impetuosa.

— Caudilho foi o Perón, disse o velho, despejando um catarro no lenço branco de pano. Getúlio foi muito mais do que isso. Ninguém o alcançou em tino político e complexidade.

— Vargas foi mais em tudo, riu a velha senhora. — Foi um ditador à brasileira. Fez tudo o que os outros fizeram (...) mas a clareza disso tudo se perdeu na típica confusão brasileira.

    A cada agosto eu releio partes do que escrevi – meus livros sabem muito mais do que eu – e penso em Getúlio Vargas: “Agosto, mês de cachorro louco, pensou Getúlio Vargas, desviando os olhos do rosto angustiado do ainda jovem ministro Tancredo Neves, sentado à sua esquerda. Mês do delírio total do Corvo do Lavradio, do ‘mar de lama’ que parecia inundar o Palácio do Catete e de vento norte na campanha — a ‘savana verde’ gaúcha que abandonou para mudar o Brasil e da qual, no fundo, nunca saiu”. Getúlio nasceu para ser personagem de romance. A história não passa de um romance com muitos pontos de vista.

 

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