Groenlândia não é delírio
Groenlândia não é delírio: é imperialismo sem disfarce
Tratar Trump como louco oculta a lógica do império: a Groenlândia expõe poder cru, geopolítica de mercado e o fim do disfarce diplomático

Isso soa como delírio, mas é, na verdade, uma forma extrema de pragmatismo imperial, sem filtros diplomáticos. Onde presidentes anteriores agiam nos bastidores, Trump fala em voz alta.
Talvez seja um erro grave - e conveniente - classificar as investidas desse líder como pura patologia. Ao se fazer isso, corre-se o risco certo de absolver o sistema que ele representa. Não, não estamos diante de um caso de distúrbio mental. Estamos diante de imperialismo afirmado aos berros.
Quando Trump fala em “comprar”, em se apoderar da Groenlândia apesar do território não estar à venda, ele não está inventando nada. Apenas abandona a liturgia diplomática e revela, sem pudores, a lógica crua do poder imperialista: território é vantagem estratégica; gelo derretendo é oportunidade; soberania alheia é detalhe negociável. Tudo isso soa como delírio, mas é, na verdade, uma forma extrema de pragmatismo imperial, sem filtros diplomáticos. Trump proclama seus desejos aos gritos.
A Groenlândia concentra tudo o que define a geopolítica do século 21: controle do Ártico; novas rotas marítimas abertas pela crise climática; grandes jazidas de minerais críticos (terras raras) para tecnologia e defesa; presença militar decisiva dos Estados Unidos.
Governantes norte-americanos anteriores pensaram exatamente o mesmo - só não disseram.
Assim, chamar Trump de “louco” significa cumprir uma função política perigosa: transforma decisão estratégica em excentricidade pessoal. Dessa forma, o problema deixa de ser o expansionismo imperialista norte-americano e passa a ser o temperamento de um indivíduo. Essa narrativa protege o império e demoniza o mensageiro.
Trump, na verdade, não rompe com a tradição imperial dos EUA; ele rompe com a hipocrisia que a encobria. Sua linguagem é a do mercado, não a da diplomacia. Países viram ativos. Alianças viram contratos. Geopolítica, imobiliária global. Não há melhor exemplo disso que seu projeto relacionado a Faixa de Gaza: transformá-la num imenso e lucrativo balneário de luxo às margens do Mediterrâneo oriental. Com os palestinos que sobraram ao massacre - e que são os legítimos donos daquelas terras - transformados em serviçais dos hóspedes dos hotéis e resorts.
O que choca não é apenas a ideia de se apoderar da propriedade alheia e ter total controle da Groenlândia: O que assusta é a naturalidade e despudor com que essa ambição é verbalizada, como se o mundo fosse um tabuleiro privado e povos inteiros, peças deslocáveis. Não, Trump não enlouqueceu o debate. Ele está expondo sua verdade de forma nua e crua.
Reduzir tudo a um suposto distúrbio mental é confortável, mas falso. A obsessão pela Groenlândia não nasce na mente de um homem - nasce na ansiedade estratégica de um império em transição, incapaz de aceitar seus novos limites num mundo que já não lhe pertence sozinho.
Não é loucura. É poder sem máscara. A obsessão com a Groenlândia diz mais sobre o declínio da diplomacia clássica, a brutalização do discurso político e a ansiedade estratégica dos EUA do que sobre a saúde mental de um indivíduo.
Não se trata de distúrbio mental. Trata-se de imperialismo explícito, linguagem primitiva de poder que quer sobreviver num mundo em que líderes já não disfarçam com verniz diplomático suas ambições desmedidas e a arrogância dos seus impulsos de poder geopolítico.
Luís Pellegrini é jornalista e editor da revista Oásis
FONTE:
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"TRUMP OU É INSANO OU É UM GANGSTER", RESUME JEFFREY SACHS
Economista afirma que Estados Unidos perderam sua democracia e prevê dias turbulentos para a Humanidade
O economista Jeffrey Sachs, professor da Universidade Columbia, reagiu com indignação ao conteúdo de uma carta atribuída ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na qual o mandatário reivindica “controle completo e total” sobre a Groenlândia e sugere que já não se sente obrigado a pensar “puramente” em paz. A avaliação de Sachs foi contundente: “Eu acho aterrorizante porque ou ele é insano ou ele não é insano. Nós não sabemos qual dos dois”. As declarações foram feitas em entrevista publicada no YouTube, em um programa dedicado a política internacional, no qual o tema central foi a escalada de tensões entre Washington e governos europeus.
No mesmo trecho, Sachs afirmou que, se o documento for verdadeiro e refletir a maneira como um presidente norte-americano está se comportando, a crise é mais profunda do que uma disputa diplomática. “Se isso é sério e é assim que um presidente fala, nós perdemos nosso país, nossa democracia, nosso sistema e nossa segurança”, disse, apontando para o que considera uma degradação institucional acelerada e perigosa, com efeitos que podem ultrapassar as fronteiras dos EUA.
A carta sobre a Groenlândia e o choque com a Europa
A entrevista começa com a leitura da carta atribuída a Trump. No texto, o presidente afirma que a Dinamarca não poderia “proteger” a Groenlândia de supostas ameaças e sugere que a soberania sobre o território seria questionável, concluindo que “o mundo não é seguro” sem que os EUA tenham “controle completo e total” sobre a ilha.
Sachs disse considerar o episódio “selvagem”, “estranho” e incompatível com qualquer padrão institucional minimamente responsável. Para ele, a gravidade não está apenas na ameaça em si, mas na naturalização de um discurso que, na prática, trata a anexação de territórios como opção aceitável de política externa. Ele alertou que tratar esse tipo de postura como algo “normal” é um sinal de colapso moral e político.
Tarifas, intimidação e a lógica do “vale tudo”
O entrevistador também menciona postagens atribuídas a Trump sobre aumento de tarifas contra países europeus e relaciona a agressividade comercial a uma percepção de força política em Washington após ações recentes no exterior. Sachs rebate a tese e afirma que o que está em curso não é estratégia, mas descontrole.
Ele insiste que esse rumo não representaria “a vontade do povo americano” nem do Congresso e não refletiria qualquer processo constitucional. Em seguida, usa uma expressão que atravessa toda a entrevista: “Isso é gangsterismo. E gangsterismo geralmente termina em tiroteios”. Na avaliação do economista, esse tipo de conduta tende a produzir escaladas perigosas, não soluções, porque substitui diplomacia e direito por coerção e ameaça.
Sachs também critica a fragilidade europeia diante da pressão norte-americana. Segundo ele, a Europa teria se tornado um “vassalo” dos Estados Unidos nas últimas décadas, perdendo capacidade de reação autônoma. Ainda assim, observa que governos europeus começam a sinalizar limites, citando manifestações que tratariam a Groenlândia como uma “linha vermelha” e afirmariam que a ideia de anexação não seria tolerada.
Hipocrisia internacional e o precedente de Gaza
Um dos pontos centrais da entrevista é o debate sobre a incoerência do Ocidente ao defender princípios apenas quando lhe convém. O entrevistador questiona como governos europeus podem falar em soberania absoluta da Groenlândia, mas ao mesmo tempo apoiar ou tolerar operações e narrativas em outras regiões, abrindo espaço para que Washington avance sem freios.
Sachs concorda e afirma que a política externa dos EUA é “sem lei” há décadas, com a diferença de que, agora, o caráter agressivo estaria mais explícito e acelerado. Ele cita uma sequência de intervenções e operações para sustentar que a ausência de restrições legais não é novidade, mas que o atual momento teria ampliado a velocidade, a ostentação e a brutalidade do método.
Nesse contexto, ele menciona Gaza como exemplo extremo, afirmando que houve uma “operação genocida” diante dos olhos do mundo e que os EUA teriam financiado, armado e apoiado diplomaticamente a ofensiva, com conivência europeia. Para Sachs, quando violações graves são relativizadas em outras situações, fica mais difícil sustentar, depois, um discurso de princípios quando o alvo passa a ser um aliado ou um território europeu.
O “Conselho da Paz” e a distopia do assento pago
A entrevista aborda ainda a proposta de um “Board of Peace”, descrita durante a conversa a partir de uma reportagem mencionada no programa. O apresentador lê detalhes de um rascunho que sugeriria contribuições bilionárias de países para garantir assentos e uma estrutura na qual Trump atuaria como presidente do órgão, com poder de aprovação sobre decisões.
Sachs reage com ironia e indignação. “Se George Orwell tivesse escrito isso, você acharia levemente engraçado”, afirma, antes de classificar a proposta como “triste” e “patética”. Ele diz que a iniciativa, além de absurda, nasce de um ambiente de coerção, pressão e barganha e não teria condições de substituir organismos internacionais.
Para o economista, há “adultos” e lideranças no mundo que entendem que esse tipo de projeto não se sustenta, embora ele reconheça que, por algum tempo, iniciativas dessa natureza podem produzir ruído, medo e riscos reais. O perigo, segundo ele, é o período em que a intimidação funciona, ampliando instabilidade e aproximando crises de pontos de não retorno.
Um efeito colateral: a aceleração do mundo multipolar
Apesar do tom sombrio, Sachs afirma que a postura errática e agressiva de Washington pode provocar uma reação global na direção contrária, estimulando alianças regionais e acordos que reduzam dependência dos EUA e fortaleçam alternativas. Ele menciona conversas diplomáticas em várias regiões e cita os BRICS como parte dessa reorganização.
Na visão do professor, o comportamento imprevisível do governo norte-americano empurra países a buscar estabilidade, sobretudo em um mundo nuclear, no qual decisões impulsivas podem ter consequências catastróficas. Ele critica a ideia de que bravatas, ameaças e ações espetaculosas significariam força real e sustenta que isso não aumenta segurança nem prosperidade para a população dos EUA, mas sim amplia o risco para todos.
Ao fim, a entrevista deixa uma mensagem clara: se o presidente dos EUA fala e age como se não existissem leis, tratados e limites, a crise deixa de ser apenas diplomática. Para Sachs, trata-se de um colapso político e moral que, se não for contido, pode abrir uma fase de turbulência global, com impactos diretos sobre a paz e a segurança internacional.





