Guilherme Boulos surpreende

Guilherme Boulos surpreende

Guilherme Boulos: “Estamos focados na inversão de prioridades e na colocação da periferia no centro da política”


Na reta final da cam­panha elei­toral, a can­di­da­tura de Gui­lherme Boulos pelo PSOL sur­pre­ende e o líder do Mo­vi­mento dos Tra­ba­lha­dores Sem Teto apa­rece com chances reais de avançar para o se­gundo turno. Algo ines­pe­rado dentro de um con­texto de avanço ul­tra­con­ser­vador e ne­o­fas­cista na ins­ti­tu­ci­o­na­li­dade bra­si­leira, mas que também re­pre­senta o início de novos ci­clos po­lí­ticos e mi­li­tantes à es­querda. Em en­tre­vista ao Cor­reio da Ci­da­dania, Boulos elenca suas pri­o­ri­dades e fala da ne­ces­si­dade de am­pliar a par­ti­ci­pação po­pular nos pro­cessos co­ti­di­anos de de­cisão.

“Temos a pro­posta de renda so­li­daria como po­lí­tica de trans­fe­rência de renda, so­bre­tudo no ce­nário de crise econô­mica brutal que se apro­fun­dará na ci­dade no pós-pan­demia. Nossas pro­postas en­volvem in­ves­ti­mento pe­sado em atenção pri­mária de saúde, nas UBS, con­curso pú­blico para mé­dicos atu­arem nas pe­ri­fe­rias, re­a­ber­tura de hos­pi­tais fe­chados, cri­ação de frentes de tra­balho pra con­tratar a mão de obra local nos bairros, es­tí­mulo à eco­nomia so­li­dária e às co­o­pe­ra­tivas”, afirmou.

Na en­tre­vista, Boulos co­menta a pos­si­bi­li­dade de forte abs­tenção elei­toral por conta da pan­demia do co­ro­na­vírus, cri­tica a gestão tu­cana di­vi­dida entre João Doria, que se tornou go­ver­nador em 2018, e Bruno Covas e é ta­xa­tivo em de­fender o re­di­re­ci­o­na­mento do or­ça­mento para as áreas menos aten­didas por po­lí­ticas pú­blicas na ci­dade.

“Nós que­remos fazer de São Paulo uma ca­pital da re­sis­tência, uma ci­dade que faça con­tra­ponto a essa agenda econô­mica. A ci­dade tem margem de ma­nobra pra isso, é um dos poucos mu­ni­cí­pios que tem tal margem. É uma ci­dade que tem con­di­ções de fazer po­lí­ticas pró­prias, contra-he­gemô­nicas, mesmo com go­vernos es­ta­dual e fe­deral hostis”, disse.

Para além do pleito mu­ni­cipal, Boulos en­xerga as elei­ções como im­por­tante mo­mento de con­tenção do der­re­ti­mento de­mo­crá­tico bra­si­leiro, re­pre­sen­tado pela fi­gura de Jair Bol­so­naro e diz acre­ditar na pos­si­bi­li­dade de grandes trans­for­ma­ções so­ciais por dentro do atual mo­delo de de­mo­cracia, desde que esta co­loque a par­ti­ci­pação po­pular à frente dos in­te­resses econô­micos par­ti­cu­la­ristas.

“Nossa pro­posta não é go­vernar para o povo de São Paulo, mas go­vernar com o povo de São Paulo, cri­ando me­ca­nismos de par­ti­ci­pação, trans­pa­rência e con­trole po­pular sobre as po­lí­ticas pú­blicas”.

A en­tre­vista com­pleta com Gui­lherme Boulos pode ser lida a se­guir.

Cor­reio da Ci­da­dania: Em pri­meiro lugar, como en­xerga o con­texto elei­toral em meio à pan­demia? A abs­tenção pode ser maior do que a média his­tó­rica?

Gui­lherme Boulos: Existe um risco de alta abs­tenção por conta da pan­demia, evi­den­te­mente. Temos tra­ba­lhado no diá­logo com as pes­soas que vão votar no sen­tido de co­locar a im­por­tância desta eleição. É uma eleição não apenas mu­ni­cipal, mas muito na­ci­o­na­li­zada pela tra­gédia que Bol­so­naro re­pre­senta.

Tem muita coisa em jogo, não só o fu­turo das ci­dades, mas da de­mo­cracia bra­si­leira. Por isso, com todos os cui­dados sa­ni­tá­rios, so­bre­tudo para quem faz parte de grupos de risco, es­tamos es­ti­mu­lando as pes­soas a irem votar.

Cor­reio da Ci­da­dania: Acre­dita que algum es­pectro po­lí­tico-ide­o­ló­gico po­deria tirar pro­veito de uma menor pre­sença nas urnas?

Gui­lherme Boulos: É di­fícil dizer o im­pacto que teria para um ou outro es­pectro. A ten­dência é que se, de fato, au­mentar a abs­tenção, seja mais li­near. Teve até pes­quisa que mos­trou que os elei­tores mais en­ga­jados na po­lí­tica e in­te­res­sados na eleição têm menor ten­dência de abs­tenção.

Nossa cam­panha é de mo­bi­li­zação forte e pode ser menos pre­ju­di­cada pela abs­tenção. Mas o nosso ob­je­tivo tem sido o de es­ti­mular cada vez mais as pes­soas a votar.

Cor­reio da Ci­da­dania: No caso de São Paulo, onde você con­corre, quais se­riam as prin­ci­pais pautas da ci­dade?

Gui­lherme Boulos: A grande pauta de São Paulo, e da minha cam­panha com Luiza Erun­dina, é do en­fren­ta­mento à de­si­gual­dade. São Paulo é a ci­dade mais rica da Amé­rica La­tina e uma das mais de­si­guais do mundo. Tem ín­dices so­ciais de No­ruega e Suécia, ex­pec­ta­tiva de vida de 81 anos em al­guns bairros; e tem os ín­dices dos países mais po­bres do mundo em bairros pe­ri­fé­ricos, com ex­pec­ta­tiva de vida, ou idade média ao se morrer, de 57 anos na Ci­dade Ti­ra­dentes ou no Jardim Ân­gela, ex­tremos leste e sul da ci­dade.

É pre­ciso en­frentar as de­si­gual­dades, in­verter pri­o­ri­dades do or­ça­mento, en­frentar os es­quemas da­queles que pensam a po­lí­tica e a ci­dade como ne­gócio e di­re­ci­onar o or­ça­mento para po­lí­ticas so­ciais nas pe­ri­fe­rias.

Temos a pro­posta de renda so­li­daria como po­lí­tica de trans­fe­rência de renda, so­bre­tudo no ce­nário de crise econô­mica brutal que se apro­fun­dará na ci­dade no pós-pan­demia.

Nossas pro­postas en­volvem in­ves­ti­mento pe­sado em atenção pri­mária de saúde, nas UBS, con­curso pú­blico para mé­dicos atu­arem nas pe­ri­fe­rias, re­a­ber­tura de hos­pi­tais fe­chados, cri­ação de frentes de tra­balho pra con­tratar a mão de obra local nos bairros, es­tí­mulo à eco­nomia so­li­dária e às co­o­pe­ra­tivas, a partir de com­pras pú­blicas da pre­fei­tura, seja nas me­rendas das es­colas, em sa­co­lões po­pu­lares e de pe­quenos agri­cul­tores, seja de co­o­pe­ra­tivas de cos­tu­reiras para uni­formes es­co­lares ou ou­tras com­pras, por exemplo.

Enfim, nosso pro­grama está fo­cado na in­versão de pri­o­ri­dades e na co­lo­cação da pe­ri­feria no centro da po­lí­tica.

Cor­reio da Ci­da­dania: Você é uma fi­gura cons­truída através do mo­vi­mento de mo­radia. Como en­xerga o tema nessas elei­ções e qual o grau de pri­o­ri­dade a questão do acesso à mo­radia teria em sua gestão?

Gui­lherme Boulos: Mo­radia, a meu ver, não é questão elei­toral, como é para muitas can­di­da­turas que se de­bruçam sobre o tema para fazer pro­messas a cada quatro anos. Mo­radia é a pauta à qual me de­dico nos úl­timos 20 anos ao lado dos meus com­pa­nheiros de luta do MTST.

Evi­den­te­mente, num go­verno meu e de Erun­dina a mo­radia será pri­o­ri­dade, seja nas po­lí­ticas para aco­lher a po­pu­lação em si­tu­ação de rua, subs­ti­tuindo al­ber­gues, que são pro­fun­da­mente de­su­manos, por casas so­li­dá­rias, seja também na cons­trução de mo­ra­dias po­pu­lares, com de­sa­pro­pri­ação de imó­veis aban­do­nados, en­fren­ta­mento à es­pe­cu­lação imo­bi­liária no centro e re­to­mada da po­lí­tica de mu­ti­rões que a Erun­dina inau­gurou na ci­dade. Neste úl­timo caso, te­ríamos a con­tri­buição da pre­fei­tura com ter­reno e ma­te­rial de cons­trução para as pes­soas se or­ga­ni­zarem e cons­truírem suas pró­prias casas.

Cor­reio da Ci­da­dania: Como avalia a úl­tima gestão da ci­dade, di­vi­dida entre dois anos de Doria e dois de Bruno Covas?

Gui­lherme Boulos: Uma das pi­ores da his­tória da ci­dade. Doria aban­donou a ci­dade e foi mais vezes para Nova York do que para o Capão Re­dondo. Um go­verno vol­tado a pri­va­ti­za­ções e que virou as costas, como é a tra­dição do PSDB, para as pe­ri­fe­rias.

Na pan­demia, em­bora não tenha en­trado no ab­surdo da po­lí­tica ge­no­cida de Bol­so­naro, que mandou as pes­soas às ruas e in­cen­tivou que não se pro­te­gessem, tam­pouco deu con­di­ções reais de as pes­soas po­derem ficar em casa e fazer a qua­ren­tena.

Na saúde foi de­sas­troso. En­tramos no STF para que se fi­zesse a fila única do SUS, apro­vada pela Câ­mara Mu­ni­cipal, mas a pre­fei­tura não aplicou. Fi­zeram quatro hos­pi­tais de cam­panha, três no centro. Ne­nhum na zona leste, a mais po­pu­losa e que tem o bairro onde morreu mais gente de Covid, que foi Sa­po­pemba.

Foi uma gestão ab­so­lu­ta­mente trá­gica.

Cor­reio da Ci­da­dania: Caso eleito, você go­ver­naria num con­texto econô­mico onde a aus­te­ri­dade fiscal pa­rece um dogma in­to­cável e, no caso es­ta­dual, com a pos­sível in­fluência do PL 529, que se san­ci­o­nado pode en­xugar a má­quina pú­blica em di­versas frentes, a exemplo da pos­sível ex­tinção da CDHU. Como pro­mover mu­danças de qua­li­dade na vida so­cial sob tais con­di­ções?

Gui­lherme Boulos: Nós que­remos fazer de São Paulo uma ca­pital da re­sis­tência, uma ci­dade que faça con­tra­ponto a essa agenda. A ci­dade tem margem de ma­nobra pra isso, é um dos poucos mu­ni­cí­pios que tem tal margem.

São Paulo tem or­ça­mento pró­prio, a prin­cipal fonte de ar­re­ca­dação da ci­dade são ISS, IPTU e uma quarta parte do ICMS do es­tado. Por­tanto, é uma ci­dade que de­pende menos do fundo de par­ti­ci­pação dos mu­ni­cí­pios. É uma ci­dade que tem con­di­ções de fazer po­lí­ticas pró­prias, contra-he­gemô­nicas, mesmo com go­vernos es­ta­dual e fe­deral hostis. O maior exemplo disso foi jus­ta­mente a Erun­dina há 30 anos.

Cor­reio da Ci­da­dania: Há con­di­ções de pro­mover trans­for­ma­ções re­le­vantes dentro do atual mo­delo de de­mo­cracia re­pre­sen­ta­tiva?

Gui­lherme Boulos: Sim, acre­dito ser pos­sível fazer trans­for­ma­ções re­le­vantes, sempre junto com o povo. Sou can­di­dato a pre­feito por acre­ditar nisso. Mas é pos­sível também fazer com que este mo­delo de de­mo­cracia, só re­pre­sen­ta­tiva, li­mi­tada, muitas vezes se­ques­trada pelo poder econô­mico, seja ten­si­o­nado pela par­ti­ci­pação po­pular.

É isso que es­tamos pro­pondo: es­ti­mular pro­cessos de par­ti­ci­pação po­pular na ci­dade de São Paulo. Co­locar o or­ça­mento par­ti­ci­pa­tivo, com as pes­soas dos pró­prios bairros de­ci­dindo sobre a des­ti­nação dos re­cursos que vão para as re­giões, de­fi­nindo pri­o­ri­dades, com con­se­lhos que não sejam so­mente con­sul­tivos, mas também de­li­be­ra­tivos, e cha­mando o povo para par­ti­cipar da gestão.

Nossa pro­posta não é go­vernar para o povo de São Paulo, mas go­vernar com o povo de São Paulo, cri­ando me­ca­nismos de par­ti­ci­pação, trans­pa­rência e con­trole po­pular sobre as po­lí­ticas pú­blicas.

Ga­briel Brito é jor­na­lista e editor do Cor­reio da Ci­da­dania.

 

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