Ideologia bolsonarista
Dissonância cognitiva é o mecanismo pelo qual a realidade é distorcida para se ajustar a crenças ideológicas ou religiosas, mesmo quando os fatos as desmentem de forma inequívoca. Essa é uma característica essencial da ideologia bolsonarista. Seus adeptos não sabem, ou fingem não saber, o que são esquerda e direita, fascismo, socialismo ou comunismo. A partir dessa ignorância funcional, constroem uma mentira tipicamente brasileira, uma jabuticaba ideológica que não se sustenta em nenhum lugar do mundo, mas que aqui é repetida mecanicamente por seguidores que confundem crença com argumento, grito com prova e convicção pessoal com verdade histórica.
Este artigo desmonta a fakenews que tenta associar fascismo ao socialismo. Não apenas porque se tratam de correntes historicamente antagônicas, mas porque, no Brasil contemporâneo, o verdadeiro herdeiro político, simbólico e discursivo dos camisas negras italianos é o bolsonarismo.
A divisão entre esquerda e direita surge na Revolução Francesa. À esquerda do parlamento sentavam-se os representantes do povo, defensores da ampliação de direitos ao trabalhador e da limitação do poder das elites. À direita, os representantes da aristocracia, do clero e dos grandes proprietários, interessados na preservação da hierarquia, da tradição e dos privilégios aos ricos. No centro, os grupos que oscilavam conforme a conveniência.
Com o avanço do século XIX e as transformações do capitalismo industrial, surgem os extremos. No século XX, a extrema direita passa a ser identificada com o fascismo e suas variações nacionais, marcadas por autoritarismo, nacionalismo agressivo, culto à ordem, repressão política e ódio à esquerda.
O fascismo italiano nasce como reação direta ao crescimento do socialismo, das greves e da organização sindical no pós Primeira Guerra Mundial. Não surge como projeto emancipador, mas como instrumento de contenção do avanço da consciência e mobilização popular. Industriais, latifundiários e setores conservadores financiavam o fascismo para esmagar a organização dos trabalhadores, especialmente os de esquerda. Isso está explícito nos textos e discursos de Benito Mussolini, que via no socialismo e nos sindicatos a principal ameaça à ordem social que prometia restaurar.
Mussolini teve uma passagem juvenil pelo socialismo, fato explorado de forma desonesta pela extrema direita. O dado relevante é outro: ele rompeu logo cedo e construiu toda a sua trajetória consistente como extremista de direita. O rompimento foi por ressentimento. Ele passou a defender o nacionalismo agressivo, o militarismo, o culto à autoridade e a subordinação total do indivíduo ao Estado. Seus livros e discursos são claros na defesa da religião como instrumento de coesão social, da pátria como entidade sagrada, da família tradicional como pilar moral e da violência política como método.
Mussolini não governou como um ex-socialista. Governou como um conservador autoritário radicalizado.
O fascismo se organiza em cada lugar a partir de elementos recorrentes. Um líder carismático apresentado como salvador da nação. Milícias estruturadas para intimidar, agredir e eliminar opositores políticos. Uma multidão mobilizada emocionalmente, incapaz de questionar o líder e disposta a repetir mentiras como se fossem verdades absolutas. A política deixa de ser debate e se transforma em culto. O adversário político é desumanizado e convertido em inimigo moral.
Essa lógica se manifesta também na encenação do poder. As motorizadas de Mussolini eram demonstrações públicas de força e intimidação. As motociatas de Bolsonaro cumprem a mesma função simbólica. Não são manifestações espontâneas, mas encenações autoritárias destinadas a exibir domínio das ruas e produzir medo entre opositores.
A passeata liderada por Nicolas Ferreira ecoa a Marcha sobre Roma que projetou o fascismo sobre a capital italiana. Não se trata de uma manifestação política, mas sim da ocupação simbólica do espaço público para afirmar que o líder teria o povo e, portanto, estaria acima das instituições.
Há também a estética do ridículo. O fascismo sempre flertou com o grotesco e com a teatralização caricatural do poder. Uniformes exagerados, poses infladas de virilidade e símbolos vazios repetidos à exaustão não expressavam força real, mas compensação simbólica de inseguranças políticas e intelectuais.
No bolsonarismo, essa estética reaparece em versão ainda mais degradada: fantasias verde e amarelas cafonas, roupas de crentes que acham que Israel é um Estado cristão, uniformes militares comprados pela internet e as ridículas bandeiras de Estados Unidos e Israel dos patriotas de país estrangeiro.
O ridículo não é desproposital, mas um método repetido. Serve para rebaixar o debate, ridicularizar limites institucionais e normalizar o autoritarismo como espetáculo. Palavrões aparecem como identidade política, gestos infantis e a encenação da ignorância como virtude. Obviamente isso tem uma overdose de anti-intelectualismo como se negar a ciência os absolvesse da própria limitação.
O fascismo compreendeu cedo o poder da comunicação de massa. Rádios, jornais e depois a televisão foram usados não para informar, mas para saturar o espaço público com mensagens simples, repetitivas e emocionais. O líder falava diretamente ao povo, contornando mediações críticas.
O bolsonarismo atualizou esse método nas mídias digitais. WhatsApp, Telegram, YouTube e redes sociais substituem o rádio e os jornais alinhados ao regime. A diferença está na velocidade e na escala. A mentira se espalha em segundos, o ódio é fabricado em massa e o seguidor se torna agente da propaganda. A comunicação deixa de servir ao debate público e passa a operar como máquina permanente de mobilização emocional.
O fascismo mobilizou o ressentimento da derrota italiana na Primeira Guerra Mundial. A frustração coletiva foi convertida em discurso de ódio contra inimigos internos apresentados como responsáveis pela decadência nacional. Socialistas, comunistas, sindicalistas, intelectuais e estrangeiros tornaram-se bodes expiatórios.
Esse ressentimento foi acompanhado de uma estética da morte, na qual a caveira simboliza desprezo pela vida do adversário e glorificação da violência. As forças policiais foram instrumentalizadas como braço ideológico do regime. O padrão reaparece no bolsonarismo, com a exaltação de símbolos de morte por segmentos das polícias militares e a normalização da lógica da guerra interna.
Desde sua origem, o fascismo perseguiu socialistas e comunistas não por representarem um perigo real, mas por funcionarem como fantasmas úteis. Enquanto a propaganda gritava contra a ameaça vermelha, o verdadeiro perigo avançava por dentro, com a destruição das liberdades, o aparelhamento do Estado e a eliminação do pluralismo político. O bolsonarismo repete o método. Comunistas, muitas vezes inexistentes, conspirações delirantes e pânicos morais ocupam o centro da narrativa enquanto práticas autoritárias reais avançam sem resistência proporcional. Na atualidade, incluíram entre seus bodes expiatórios gays e travestis. Da mesma forma que na Alemanha eram judeus e ciganos e nos Estados Unidos de Trump são os imigrantes.
Antonio Gramsci desmonta essa farsa por si só. Preso pelo regime fascista em 1926 por ser socialista e comunista, teve sua vida destruída pela prisão e morreu em 1937. Nos Cadernos do Cárcere e nas Cartas do Cárcere, desenvolveu conceitos como hegemonia cultural, bloco histórico, intelectuais orgânicos e guerra de posição. Gramsci analisava como o poder se mantém pelo consenso, não apenas pela força. É exatamente por isso que Olavo de Carvalho o transformou em vilão mítico. Precisava de um inimigo abstrato. Os bolsonaristas não o leram porque a leitura desmontaria a narrativa e revelaria que Gramsci descreve precisamente os mecanismos que o próprio bolsonarismo utiliza para disputar o senso comum por meio da moral, da religião e da mídia.
Associar a Carta del Lavoro Mussolini à CLT brasileira é outro disparate histórico. A Carta del Lavoro subordinava o trabalhador ao Estado corporativo, proibia greves e destruía a autonomia sindical. A legislação trabalhista brasileira, ainda que consolidada durante o Estado Novo, resulta de décadas de lutas operárias, greves, associações e pressão social acumulada desde a Primeira República. Direitos trabalhistas jamais fizeram parte do programa fascista, que sempre odiou a organização dos trabalhadores. O fascismo apenas via o trabalhador como um peão a ser mobilizado para seus propósitos, enquanto o socialismo sempre propôs sua emancipação. Confundir essas origens é inverter propositalmente a história de forma grosseira.
Também é erro deliberado confundir Estado forte fascista com Estado socialista. No fascismo, o Estado é forte para reprimir, disciplinar e garantir os interesses dos ricos. A economia permanece capitalista, profundamente desigual, com a propriedade privada protegida e o Estado atuando como fiador da acumulação. No socialismo, a ideia de Estado forte está associada à reorganização das relações econômicas e à subordinação do poder econômico ao interesse coletivo. Por isso o fascismo reaparece sempre que o liberalismo entra em crise e a mobilização popular avança. Enquanto o liberalismo funciona, o fascismo fica no canil. Na primeira crise, é solto para fazer o trabalho sujo.
A violência não é um desvio do fascismo, mas seu modo de operar. Ditadura, tortura, perseguição política e assassinatos integram seu funcionamento normal. Essa violência é exercida pelo Estado, por milícias ideológicas paramilitares e estimulada nos seguidores comuns, que passam a reproduzi-la no cotidiano. Forma-se assim uma sociedade brutalizada, na qual o ódio vira identidade política, o medo substitui o direito e a agressão passa a ser tratada como virtude cívica.
Há também uma diferença reveladora no nacionalismo de cada movimento, que expõe o grau de degradação ideológica do bolsonarismo. O fascismo italiano, apesar de criminoso e violento, construía seu discurso nacionalista a partir da exaltação de um passado próprio: a suposta glória do Império Romano, a ideia de grandeza italiana, a recuperação simbólica de uma soberania perdida após a Primeira Guerra. Era um nacionalismo agressivo, mitológico e autoritário, mas ainda assim centrado na afirmação da nação como projeto autônomo.
No bolsonarismo, o nacionalismo é uma caricatura colonial. O “patriota” veste verde e amarelo enquanto idolatra países estrangeiros, submete-se simbolicamente aos Estados Unidos e transfere devoção quase religiosa a Israel, como se a identidade nacional brasileira precisasse de tutela externa para existir. Trata-se de um nacionalismo vazio, performático e contraditório, que não afirma o país, mas o rebaixa.
Enquanto o fascismo italiano buscava inflar uma identidade nacional imperial, o bolsonarismo pratica um patriotismo de joelhos, que confunde soberania com submissão e orgulho nacional com alinhamento automático a interesses alheios. Assim o bolsonarismo reflete exatamente o que sempre foi: um fascismo pé de chinelo.
Por fim, associar fascismo ao socialismo não é erro inocente, mas uma estratégia de manipulação. Serve para confundir, inverter a realidade e ocultar o fato central. O fascismo sempre foi inimigo histórico da esquerda e da classe trabalhadora, e foi aliado das elites quando estas se sentem ameaçadas. No Brasil, essa herança não está na esquerda. Está no bolsonarismo que se assume de direita. Negar isso não é opinião política, mas uma recusa deliberada da história para fingir que tudo mudou para tudo permanecer como é.
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