Jogados no olho do furacão

Jogados no olho do furacão

Volta às aulas: “já estamos num colapso. Fomos jogados no olho do furacão”

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Fe­ve­reiro de 2021 entra para a his­tória como o mês em que, apesar do pico de casos de co­ro­na­vírus no Brasil, o Es­tado bra­si­leiro e seus ges­tores de­ci­diram ini­ciar o ano le­tivo em con­di­ções pre­ten­sa­mente nor­mais. De acordo com o Sin­di­cato dos Pro­fes­sores do Es­tado de São Paulo, já são 721 casos de con­ta­mi­nação na co­mu­ni­dade es­colar e al­gumas mortes. Na en­tre­vista ao Cor­reio, o pro­fessor Se­ve­rino Ho­no­rato co­menta que a maior parte dos es­ta­be­le­ci­mentos não é apta a fun­ci­onar de forma se­gura e o go­verno só deu ou­vidos às pres­sões do poder econô­mico na or­ga­ni­zação do re­torno às aulas.

“As con­di­ções são pés­simas. Faltam fun­ci­o­ná­rias pra lim­peza. As pes­soas que existem são ter­cei­ri­zadas e ga­nham sa­lá­rios de fome. São mu­lheres que estão na linha de frente da hi­gi­e­ni­zação e lim­peza do am­bi­ente es­colar. Estão ex­postas ao vírus. Têm casos em que só há uma fun­ci­o­nária pra limpar toda a es­cola. Isso é se­mi­es­cra­vidão. Antes de ser do sin­di­cato, sou pro­fessor. Eu sou tes­te­munha disso”.

Se­ve­rino também ataca a má fé do go­verno Bol­so­naro no tra­ta­mento da pan­demia e na vi­a­bi­li­zação da va­cina, e ex­plica as ra­zões pelas quais a greve dos tra­ba­lha­dores da edu­cação não se con­cre­tizou.

“As pers­pec­tivas são de tempos di­fí­ceis, duros, de am­pli­ação do con­tágio e das mortes. Bol­so­naro tem um modus ope­randi ma­lé­fico: boi­cota as me­didas ne­ces­sá­rias e de­pois de um tempo as aplica e diz que foi ideia do go­verno”, re­sumiu.

A en­tre­vista com­pleta pode ser lida a se­guir. 

Cor­reio da Ci­da­dania: Como avalia a volta as aulas na rede pú­blica no con­texto da pan­demia? Havia como fazer di­fe­rente em uma so­ci­e­dade como a nossa?

Se­ve­rino Ho­no­rato: As con­di­ções são pés­simas. Faltam fun­ci­o­ná­rias pra lim­peza. As pes­soas que existem são ter­cei­ri­zadas e ga­nham sa­lá­rios de fome. São mu­lheres que estão na linha de frente da hi­gi­e­ni­zação e lim­peza do am­bi­ente es­colar. Estão ex­postas ao vírus. Têm casos em que só há uma fun­ci­o­nária pra limpar toda a es­cola. Isso é se­mi­es­cra­vidão. Antes de ser do sin­di­cato, sou pro­fessor. Eu sou tes­te­munha disso.

Cor­reio da Ci­da­dania: O que pensa da forma como go­verno e pre­fei­tura con­duzem o re­torno às aulas, con­si­de­rando também sua po­lí­tica de con­tenção do co­ro­na­vírus de um modo geral?

Se­ve­rino Ho­no­rato: A de­ma­gogia e a ir­res­pon­sa­bi­li­dade dos go­vernos ven­ceram. De­ma­gogia porque alegam que as cri­anças es­tavam en­trando em de­pressão, so­frendo vi­o­lência do­més­tica... Mas isso sempre ocorreu e não existem po­lí­ticas pú­blicas sé­rias pra conter esses pro­blemas. A pos­tura do go­verno fe­deral foi de­sas­trosa, con­de­nável e cri­mi­nosa. O ne­ga­ci­o­nismo de Bol­so­naro e sua turma de lu­ná­ticos custou a vida de muita gente. Na ver­dade, foi algo de­li­be­rado e or­ques­trado.

Cor­reio da Ci­da­dania: Quais as con­di­ções ge­rais das es­colas? O que você pode des­crever de acordo com a pró­pria ex­pe­ri­ência?

Se­ve­rino Ho­no­rato: O re­torno foi de­sas­troso do ponto de vista da se­gu­rança em re­lação ao con­tágio. Foi evi­dente que ocorreu uma pressão do setor pri­vado e os go­vernos ce­deram. Era pos­sível fazer di­fe­rente, ouvir os seg­mentos in­te­res­sados. Di­a­logar. Isso não ocorreu.

Cor­reio da Ci­da­dania: Já há muitos casos de con­ta­mi­nação? Como tem sido o dia a dia? Há chance de co­lapso das aulas?

Se­ve­rino Ho­no­rato: O sin­di­cato re­cebeu cen­tenas de no­ti­fi­ca­ções de casos de covid-19, a grande mai­oria de pro­fes­sores. Têm es­cola com quase dez con­ta­mi­nados. Temos casos de ges­tores que mor­reram. Até porque as es­colas não fe­charam em ne­nhum mo­mento. Temos casos de es­colas com 50% de tra­balho re­moto, pois os pro­fis­si­o­nais são do grupo de risco. Já es­tamos num co­lapso. Fomos jo­gados no olho do fu­racão.

Cor­reio da Ci­da­dania: Houve uma ten­ta­tiva de greve no meio do pro­cesso de re­torno? Por que não ocorreu?

Se­ve­rino Ho­no­rato: Greves são mo­vi­mentos que podem ser um tsu­nami ou uma brisa. A greve apro­vada pelo sin­di­cato não pegou na base. São muitos os mo­tivos. Des­taco três: a) a pressão do go­verno, que criou uma es­tru­tura hi­e­rár­quica em que ges­tores e co­or­de­na­dores "ves­tiram a ca­misa do go­verno”; b) a crise so­cial pro­vo­cada pela pan­demia; c) o dis­tan­ci­a­mento do sin­di­cato do chão da es­cola e também da co­mu­ni­dade es­colar. O apelo do sin­di­cato não sen­si­bi­lizou a ca­te­goria. Os poucos que es­tação em greve estão san­grando.

Cor­reio da Ci­da­dania: Que pers­pec­tivas vocês en­xergam neste con­texto, le­vando em conta o ritmo da va­ci­nação do país?

Se­ve­rino Ho­no­rato: Tempos di­fí­ceis, duros, de am­pli­ação do con­tágio e das mortes. Bol­so­naro tem um modus ope­randi ma­lé­fico: boi­cota as me­didas ne­ces­sá­rias e de­pois de um tempo as aplica e diz que foi ideia do go­verno. Exemplo: Paulo Guedes propôs 200 reais de au­xílio emer­gen­cial. O Con­gresso apontou 500, o Go­verno fe­chou com 600 e ga­nhou pontos com um setor da po­pu­lação que não tem tempo pra elu­cu­bra­ções, pre­cisa comer. Só agora Paz­zu­ello fala em agi­lizar a compra de va­cinas, de­pois das inú­meras de­mons­tra­ções de des­pre­paro e mesmo des­prezo sobre a ur­gência da si­tu­ação. São ge­no­cidas.

Ga­briel Brito é jor­na­lista e editor do Cor­reio da Ci­da­dania

 

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