Linchamento digital

Linchamento digital

 Linchamento digital de uma mãe que já perdeu tudo

Renata Bandeira 

 

 

Uma mãe perdeu dois filhos assassinados pelo próprio pai. Dois. Filhos. Mortos. E como se essa dor já não fosse insuportável, ela ainda está sendo condenada pelo tribunal mais cruel que existe: o da internet.

Gente que nunca viu a dor dela de perto, que nunca segurou um caixão de criança, se acha no direito de hostilizar, julgar e apontar o dedo. Uma legião de moralistas normalizando o absurdo, tentando transformar traição em justificativa para assassinato. Como se adultério fosse sentença de morte. Como se crianças fossem dano colateral aceitável.

E a crueldade não parou no crime. Essa mãe nem sequer pôde viver o luto em paz. No primeiro velório, foi hostilizada. Teve que se retirar. Uma mulher que acabou de perder dois filhos sendo expulsa pela própria sociedade que deveria acolher. Isso não é revolta, isso é linchamento moral.

E ainda foram além. Espalharam uma suposta carta atribuída a ela. Uma carta fake. Uma mentira plantada para ferir ainda mais quem já estava no chão. Como se não bastasse a dor real, inventaram mais sofrimento. Fabricaram narrativa para alimentar ódio.

Só que a verdade começa a aparecer e uma coisa precisa ficar muito clara: ela tem o direito de recomeçar quando quiser. Separada, recém-saída de um relacionamento ou até sob o mesmo teto, nada dá a alguém o direito de matar. Nada.

E vamos ser ainda mais diretos: mesmo que ele tivesse pegado ela com 10 caras, ainda assim não existiria justificativa. Traição não é sentença de morte. Relacionamento não é posse. Mulher não é propriedade.

Nenhuma escolha afetiva de uma mulher autoriza violência. Nunca autorizou. Nunca vai autorizar.

Também caiu a farsa do “homem de família”. A tal carta deixada por ele não passa de mais um capítulo de um roteiro velho: o do cidadão de bem de fachada. Moradores relatam outra realidade. Falam em hipocrisia, em contradições, em obsessão por posar de família perfeita nas redes enquanto a verdade era outra.

E mesmo assim ainda tem gente tentando justificar. Tentando dividir culpa. Tentando aliviar o peso de um crime brutal jogando a responsabilidade nas costas de uma mãe devastada.

Não existe justificativa. Não existe “mas”. Não existe traição que transforme assassinato em algo compreensível.

Existem duas crianças inocentes que não tinham culpa de nada. Existe uma mãe que vai carregar uma ausência eterna. E existe uma sociedade doente, que ainda insiste em procurar erro na mulher em vez de encarar a violência masculina de frente.

Quem espalha mentira, quem inventa carta, quem hostiliza uma mãe em velório, não está dando opinião. Está participando da violência.

E quem defende assassino não é neutro. Escolheu lado. E o lado é o da barbárie.

E aqui vai um recado direto: mulheres, precisamos nos unir cada vez mais. Contra o machismo escancarado e contra o machismo disfarçado. Contra os homens que odeiam mulheres e também contra as mulheres que reproduzem esse ódio. Não existe neutralidade quando a violência bate à nossa porta. Ou a gente se une, ou continua vivendo num mundo que normaliza nossa dor.

 FONTE:

Renata Bandeira 

 

 

 

 

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Sandra Santos

O caso do pai que matou os próprios filhos em Goiás escancara uma das faces mais sombrias da violência emocional, do machismo e da incapacidade de lidar com a frustração.

Segundo as informações divulgadas, o crime teria sido motivado pela separação do casal e pela suspeita de infidelidade. A mulher já estava em processo de ruptura, e ele não aceitava o fim da relação. Como vingança, assassinou os dois filhos e, em seguida, tirou a própria vida. Um ato de brutalidade extrema que chocou o país.

Como se a tragédia já não fosse insuportável, durante o velório de uma das crianças, a mãe precisou se retirar por causa de ataques verbais, julgamentos cruéis e agressões morais de curiosos. Pessoas que, sem conhecer a realidade daquela família, se sentiram no direito de apontar o dedo, acusar e condenar uma mulher devastada pela maior dor que alguém pode experimentar: perder dois filhos de forma tão violenta.

Que tipo de insanidade coletiva é essa em que uma mulher não tem o direito de querer se separar, de encerrar um ciclo e buscar uma nova história?

Que tipo de sociedade é essa que transforma uma vítima em culpada e protege, ainda que simbolicamente, a covardia de um assassino?

Ela não é responsável pela escolha monstruosa do marido. Não foi ela quem matou. Não foi ela quem destruiu. A única responsabilidade é exclusivamente dele. Homem de merda, fraco, covarde, sem honra, sem dignidade. Um homem sem dignidade é um ser vil, ignóbil, em outras palavras: ou não presta para nada ou presta somente para provocar tristeza .

Matar os próprios filhos como forma de punição à mulher não é desespero: é perversidade. É covardia absoluta. É a falência completa da humanidade. Um homem que reage assim diante do fim de um relacionamento não tem honra, não tem dignidade, não tem caráter — apenas um ego ferido e uma necessidade doentia de controle.

E você, que ousa julgar essa mulher por ter se apaixonado por outra pessoa e decidido seguir em frente, precisa entender uma coisa: ela é infinitamente mais corajosa do que quem permanece, por medo, em relações falidas, sem amor, sem afeto, sem intimidade, apenas para sustentar uma aparência social.

Mais fácil apontar o dedo do que encarar a própria frustração. Mais confortável repetir discursos vazios sobre “família” do que admitir a própria infelicidade. Muitos preferem viver no silêncio da dor, escondendo ressentimentos e amarguras, enquanto tentam convencer os outros e a si mesmos de que isso é virtude.

Criem vergonha na cara.

Pessoas corajosas pagam um preço alto por escolherem a liberdade, a verdade e a própria dignidade.

Os covardes, ao contrário, se vitimizam, se ressentem e tentam arrastar todos para o mesmo poço escuro onde aprenderam a sobreviver e onde permanecem por covardia e medo de enfrentar o novo, e criticam aqueles que se encaram o medo de frente.

Invejosos. São deprimentes.

Quem é você para julgá-la?

Essa mulher não merece julgamento. Merece respeito, empatia e silêncio.

Porque nenhuma dor no mundo justifica transformar uma mãe, já devastada, no alvo da crueldade alheia.

Edição para acrescentar informações:

Reviravolta: familiares revelam que casal já estava oficialmente separado desde dezembro, mas Thales não aceitava o fim do casamento. As crianças, inclusive, já viviam em guarda compartilhada e estavam com o pai essa semana por conta do seu aniversário. Moradores de Itumbiara relatam que o homem tinha obsessão pela ex-esposa e seria capaz de tudo para prejudicá-la. "Eu o conhecia e ele não era nenhum exemplo de moral.

Tinha muitos podres".

São informações duras para os que tentavam justificar esse crime sob a ótica do adultério.

 FONTE:

Sandra Santos  




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