Matar vira projeto político

Matar vira projeto político

QUANDO MATAR VIRA PROJETO POLÍTICO

René Ruschel

 

 

 

A aprovação na Comissão de Segurança Pública da Câmara do projeto que cria a chamada “Política Nacional de Acesso à Primeira Arma de Fogo” escancara uma visão temerária e ideologizada de segurança pública: a de que o estado falha e, em vez de se fortalecer, transfere ao cidadão a responsabilidade de se armar.

O substitutivo foi relatado pelo deputado federal Luciano Zucco, PL-RS, um dos principais aliados do ex-capitão e pré-candidato ao governo do Rio Grande do Sul.

A proposta, que isenta IPI, Imposto de Importação, PIS/Cofins e ainda prevê subsídios e crédito facilitado para compra de armas, é vendida como política de “democratização da legítima defesa”.

Na prática, trata-se de um pacote de incentivos públicos ao armamentismo, financiado com renúncia fiscal em um país repleto de carências sociais urgentes.

Zucco, tenente-coronel na reserva e notório apologista do uso de armas, afirma que a iniciativa respeita critérios de segurança e responsabilidade.

Mas a pergunta central permanece: ampliar o acesso a armamentos é política séria de segurança pública ou mera bandeira ideológica para alimentar uma base eleitoral radicalizada?

O Partido Liberal tem histórico de defesa quase dogmática do armamento civil. No entanto, os números do próprio Rio Grande do Sul impõem um choque de realidade.

O estado esteve entre os que mais registraram aumento no número de armas nos últimos anos, impulsionado por flexibilizações federais.

Em paralelo, segue convivendo com índices alarmantes de feminicídio e violência doméstica.

É impossível ignorar a relação entre maior circulação de armas e aumento da letalidade em conflitos interpessoais.

Em casos de violência doméstica, a presença de uma arma em casa amplia drasticamente o risco de morte para mulheres. Ainda assim o projeto inclui vítimas com medida protetiva entre os grupos prioritários para aquisição.

A lógica é perturbadora: o Estado falha em proteger e, como resposta, coloca mais uma arma em circulação.

No campo, nas periferias urbanas ou em lares marcados por histórico de agressões, mais armas significam mais potencial de tragédia, mais impulsividade letal e menos margem para reversão de conflitos.

Especialistas em segurança pública defendem investimento em inteligência policial, prevenção, educação e políticas sociais, não subsídios para revólveres.

Se Zucco chegar ao Palácio Piratini, qual será sua prioridade concreta? Fortalecer políticas de prevenção e proteção às mulheres ou ampliar o arsenal civil sob o argumento da “autodefesa”?

O Rio Grande do Sul precisa de gestão baseada em evidências, não de retórica armamentista e soluções simplistas para problemas complexos.

Transformar o acesso à arma em política pública financiada com recursos e renúncia fiscal é uma escolha política clara. E toda escolha revela um projeto de sociedade.

Neste caso um projeto que flerta com o populismo punitivista, aposta no gatilho e ignora que mais armas, longe de resolver, tendem a produzir mais mortes.

FONTE:

https://www.facebook.com/rene.ruschel.79?locale=pt_BR 

 

 

 

 

Armas ou Políticas Sociais. O que Vale Mais?

Por René Ruschel, jornalista 

 

 

 

A crescente instabilidade geopolítica, impulsionada por potências como EUA, Rússia e China, coloca a defesa nacional como uma questão cada vez mais central.

Em países com recursos limitados surge um dilema: até que ponto é justificável investir em Forças Armadas quando as necessidades básicas da população ainda não são atendidas? Aumentar os gastos militares é a solução mais eficaz para garantir segurança?

A Venezuela oferece um exemplo emblemático. Apesar de possuir um dos maiores arsenais bélicos da América Latina, com aviões e armamentos sofisticados, o presidente Nicolás Maduro foi sequestrado em sua própria casa em uma operação que durou, segundo a imprensa, apenas 42 segundos.

Esse contraste entre o poder bélico e a vulnerabilidade sugere que a quantidade de armas nem sempre é a chave para a segurança. Muitas vezes, estratégias rápidas e a inteligência têm um papel mais decisivo.

O caso da Coreia do Norte também levanta questões cruciais. O regime de Kim Jong-un, mesmo sendo um dos países mais pobres do mundo, investe entre 25 e 30% do PIB no desenvolvimento de armas nucleares.

Esse foco, embora justificado pela constante ameaça de ataque de potências como os EUA, não tem garantido a estabilidade interna nem a melhoria da qualidade de vida da população.

Pelo contrário, ao negligenciar as necessidades mais básicas de seus cidadãos, o regime mantém uma retórica nacionalista e utiliza o poder bélico para sustentar seu domínio opressor.

A questão central é: todo esse gasto vale a pena? Qual o verdadeiro custo da segurança? No contexto onde os países enfrentam problemas como pobreza, desigualdade, saúde pública precária, a obsessão por armamentos pode acabar agravando ainda mais as disparidades sociais.

Em um mundo cada vez mais interdependente, a segurança não pode ser reduzida a investimentos em Forças Armadas. Deve englobar políticas públicas que promovam a inclusão social e a sustentabilidade econômica e ambiental. Segurança alimentar, saúde e educação são tão essenciais quanto à proteção de fronteiras.

Embora a defesa militar seja necessário para dissuadir ameaças externas, ela não pode ser o principal foco das políticas nacionais.

A reflexão sobre o valor real das armas e o impacto de seus custos deve fazer parte de uma discussão mais ampla sobre o tipo de sociedade que queremos construir.

Em um mundo em constante transformação, os dilemas sobre segurança, armamentos e prioridades sociais continuam a nos desafiar de maneiras complexas, exigindo uma visão mais estratégica para o futuro.

A única guerra que a humanidade deveria travar é contra a fome, a miséria e a ignorância.




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