No reino dos corvos

No reino dos corvos

No reino dos corvos, o Corvo Bolso convocou uma reunião em seu palácio. Não compareceu nenhum dos príncipes herdeiros, o que transformou a reunião em mero convescote porque nenhum dos que tem poder de decisão e veto se fez presente por engano lamentável do protocolo convocatório! Corvo Bolso ainda não conseguiu retirar do palácio todos os dissidentes do passado remoto.

Mas forma servidos os comes e bebes de sempre. Entre um e outro aperitivo mais picante, a conversa começou a rolar.

– Chamei a todos aqui porque estando reunidos os poderes de meu reino, posso compartilhar minha augusta preocupação. Entraremos pelo vizinho adentro com nossa humanitária mão?

Os comensais se entreolharam, meio chocados. Um deles, muito apressadinho, precisamente o Corvo Togado, representante do apequenado poder de resguardo da Constituição, começou a falar:

– Fica Vossa Excelência, Corvo Bolso, absolutamente livre e com carta branca para fazer o que lhe vier à cabeça [por pouco não comete o Corvo Togado o vexame de dizer “às cabeças dos três que o comandam”]. Qualquer problema que os aloprados apresentarem a nossa Corte, nós cortesãos lhes garantimos o que desejarem, sob os efeitos da lei. A Constituição é o que queremos que seja. E como nosso querer é subordinado a seus quereres, estamos prontos para o serviço.

Outro membro da corte, este recém-chegado pelas graças do Palácio, seguiu na mesma toada:

– Não tenho a carta, mas se tivesse lhes daria: carta branca.

Então o Poder veio às falas. Afinal, entre os poderes, há o Poder, este exercido em uníssonos uniformes, diversos de cara mas coesos na ação. E o Poder já havia anunciado: nada de invadir coisa alguma, que não temos sequer munição para os dois primeiros dias.

Secundou-lhes com voz branda outro cortesão, este vindo da chamada Casa do Povo, onde povo algum entra:

– Temos presente, Excelências, a voracidade do Corvo do Norte. Mas não podemos ser somente capacho como desejam outros poderes. Há 150 anos não há guerra por cá. Eles de lá que guerreiem acolá, nos deixem ir lhes dando tudo segundo a pauta das votações: entregas pequenas passam, uma só entrega não passa não!

E assim, reunidos os cortesãos, foi preciso que o Corvo Bolso prometesse que não adentraria no país vizinho pela mão do Corvo do Norte. Avisou que levaria muitas bicadas de lá vindas, mas que ficaria por aqui mesmo.

Informado disso tudo pelo painel, extrai logo um conselho ao Corvo Togado: não se fala antes dos generais. Mas quis saber e fui correndo perguntar ao Corvo Estogado, que não é sábio mas é sabido, sua opinião sobre este encontro palaciano:

– Como analisa, Excelência, esta reunião de palácio dos poderes?

Infelizmente, o Corvo Estogado se mostrou cego, surdo e mudo. Isto parece ser uma doença própria do subpalácio da justiça. Um outro, um Falcão que por lá esteve, sempre falava: – Nada a declarar.

O Corvo Estogado não se dá nem a este desgaste. Teme a boca que pode fazer perder a boca futura.

 

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