O cão Orelha

O cão Orelha

 

 

 

Gente, vamos conversar aqui sobre um ponto muito sério que pode ter conexão com a tortura e morte do cão Orelha. Pra começar, vou pontuar aqui o que diz a juíza Vanessa Cavalieri, da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, que estuda há anos a radicalização de adolescentes.

Pra ela, o caso revela mais do que indignação: expõe um fenômeno de crescimento de atos violência extrema cometidos por jovens, muitos deles de classes médias e altas, alimentados pela violência digital e pela falta de supervisão familiar.

Cão Orelha: 'O que adolescentes fizeram acontece todas as noites em casas do Brasil, ao vivo no Discord', alerta juíza Vanessa Cavalieri - BBC News Brasil https://share.google/H6XLWIDJdZyCHpV5q

Caso do cão Orelha: Grupos de ódio na internet incitam adolescentes a torturar animais | Watch https://share.google/DeR1DWH1BGqYlld0q

Diante disso vamos mirar no Discord e outras plataformas digitais, no impacto sobre crianças e adolescentes que através destas portas entram em contato com violência, misoginia e ideologias extremistas.

Desde que plataformas como o Discord deixaram de ser ambientes restritos a comunidades de jogos eletrônicos pra se tornarem espaços gerais de interação entre jovens, sem moderação de fato, um fenômeno grave passou praticamente despercebido pela maioria das famílias, professores e da sociedade em geral: a radicalização e a violência explícita contra vidas de animais, de meninas, de mulheres, de pessoas trans, dentro de comunidades privadas e aparentemente “inofensivas” de chats.

No Discord, crianças e adolescentes - muitos com menos de 13 anos - transitam livremente, sem verificação de idade efetiva ou proteção adequada. Embora a própria plataforma tenha regras que hipoteticamente proíbem conteúdo sexual envolvendo menores e violência gráfica, por exemplo, na prática a moderação luta para acompanhar o volume e a criatividade dos usuários que buscam explorar as brechas, e isso tem consequências reais e documentadas.

Radicalização e violência: casos reais e alarmantes:

Organizações criminosas e redes hostis exploram essa vulnerabilidade. Um dos nomes mais emblemáticos é o de 764, um grupo virtual que nasceu em 2021 em servidores de Discord e se espalhou internacionalmente. Esse grupo e seus ramais organizaram um sistema de violência psicológica e física contra vítimas entre 9 a 17 anos, coagindo crianças a autoagressão, tortura e matança de animais, realização de vídeos de abuso sexual e, em casos extremos, tentativa de suicídio ao vivo como forma de “provação” para a comunidade interna.

E esse não é um caso isolado: apesar da prisão de seu fundador, operações policiais e investigações continuam em muitos países, como Estados Unidos, Canadá e Europa, porque essas redes continuam ativas ou ressurgem sob outros nomes.

Outro caso que chamou a atenção global foi o de uma adolescente nos Estados Unidos que foi coagida por um usuário chamado “King” a se automutilar e tentar suicídio, até que os serviços de emergência conseguiram intervir a tempo. Esse episódio levou senadores dos EUA a exigir respostas do Discord sobre a exposição de menores a grupos predatórios que promovem brutalidade e autoagressão.

E atenção, esses problemas não se limitam a contextos estrangeiros. No Brasil, investigações policiais revelaram que adolescentes administravam servidores que incentivavam automutilação e crueldade contra animais, inclusive com apologia ao nazismo, mostrando como essas práticas violentas se cruzam com discurso de ódio e ideologias extremistas entre jovens.

O papel da misoginia e da desumanização nesses grupos:

Vários promotores de Justiça no Brasil têm identificado um fio condutor de promoção e aprofundamento da misoginia dentro desses espaços, onde mulheres são constantemente culpabilizadas e ridicularizadas por grupos de jovens que veem no ódio de gênero um elemento central da sua identidade online. A misoginia, nesse contexto, não é apenas sinalizada por um conjunto de insultos: é uma construção cultural que envenena a forma como jovens aprendem a se relacionar com meninas e mulheres e com qualquer pessoa que desafie normas rígidas de gênero, como mulheres e homens trans por exemplo.

Para muitas pessoas trans e jovens queer, essa violência assume formas ainda mais cruéis, porque os discursos de ódio aliados a práticas de humilhação, desumanização e exclusão transformam esses ambientes em locais de risco constante para saúde mental e integridade física.

Desafios perversos: como o aplicativo Discord virou ferramenta para envolver adolescentes em um submundo de violência extrema | G1 https://share.google/lezdCzrJgHtou5Wa8

Como comunidades redpill e anti-woke capturam jovens para redes de ódio – Jornal da USP https://share.google/fEtTNu62QWpEW7lGf

Especialistas alertam para conteúdos violentos direcionados a crianças e adolescentes em plataformas digitais - Notícias - Portal da Câmara dos Deputados https://share.google/CQSiJ0bZC8uG9IcyP

Desafios institucionais e ausência de respostas eficazes:

Diversos órgãos públicos no Brasil reforçam a gravidade do cenário. Em seminários da Câmara dos Deputados, especialistas alertaram para a proliferação de conteúdos violentos e extremistas que aliciam crianças e adolescentes em plataformas digitais incluindo grupos que incentivam apostas, desafios de automutilação, violência e conteúdos de ódio. Ao mesmo tempo, investigações da Polícia Civil de São Paulo apuram a possível responsabilização penal da própria plataforma por não remover conteúdos violentos mesmo após ordens judiciais, destacando falhas graves no controle desses espaços.

Ideologia extremista e aceleracionismo:

A violência presente nesses servidores não é gratuita. Ela está frequentemente entrelaçada com ideologias extremistas, incluindo versões de aceleracionismo, que é um conjunto de ideias que vê o caos social como algo desejável e até necessário para o “renascimento” de uma nova ordem. Essas correntes não dependem de líderes nem manuais específicos: sua propaganda circula em linguagem de memes, vídeos chocantes e trocas de símbolos criptografados. O objetivo não é apenas chocar, mas normalizar a violência e desumanizar grupos considerados “fracos” ou “indesejáveis”.

Por que isso acontece e como as crianças são afetadas:

A adolescência é um período de formação identitária, em que pertencimento social e afirmação pessoal são fundamentais. Plataformas como o Discord, projetadas para interação rápida, com grupos privados e comunicação em tempo real, oferecem um ambiente perfeito para que discursos extremos ganhem muita força. Jovens vulneráveis, isolados ou buscando aceitação podem ser atraídos por comunidades que prometem status, amizade, pertencimento, poder, mesmo que essa pertença venha acompanhada de práticas violentas.

Pesquisas em dados públicos também confirmam que uma porcentagem significativa do conteúdo gerado por adolescentes nessas plataformas contém linguagem de ódio, indicando que comportamentos agressivos entre jovens não são raros nem marginais. Eles estão integrados à experiência cotidiana de muitos usuários.

Concluindo, esse é um alerta urgente para famílias, escolas e sociedade:

O que está em jogo aqui é mais do que privacidade ou liberdade de expressão online. É a formação moral e psicológica de uma geração, exposta, sem supervisão adequada, a práticas que promovem crueldade, ódio e desumanização. A violência contra animais, a pressão para se machucar, o incentivo à misoginia, aos discursos de ódio e a ideologias extremistas são sinais de que esses ambientes virtuais estão moldando comportamentos perigosos e antiéticos em jovens.

É essencial que famílias conversem abertamente com seus filhos sobre quem e o quê eles tem encontrado online, que os responsáveis se interessem em se manter informados sobre o que acontece de fato nessas plataformas e se as crianças e adolescentes de seu convívio estão sendo vítimas dessa manipulação.

Muita atenção a esses nomes de plataformas amplamente acessadas por crianças e adolescentes:

▪️DISCORD

▪️REDDIT

▪️4CHAN

▪️TWITCH

▪️ROBLOX

Reddit, Discord, 4chan e Twitch: as redes que escapam do radar das famílias https://share.google/oJrLdIAWzRXjrODiw

Como o discurso de ódio se espalha em comunidades de games https://share.google/Y7GiMGYXSuKx8Fmp0

Professores e escolas integrem a educação digital crítica nos currículos. Isso é profundamente necessário e urgente hoje em dia.

É fundamental que a sociedade entenda que “violência virtual” não é separada da violência real. Ela a prepara, a reproduz e a naturaliza.

Como cidadãos, exijamos dos governos e órgãos regulatórios transparência, responsabilidade e mecanismos de proteção que funcionem na prática, não apenas no papel.

Este é um alerta coletivo: ignorar esses sinais não só deixa as vítimas desprotegidas, como também permite que uma cultura de brutalidade se torne cada vez mais parte do tecido social das próximas gerações.

O que é Discord, rede social usada para cometer crimes | G1 https://share.google/2g8zMa8f1KzWfbCah

Internet virou “campo minado” para crianças e jovens, diz especialista | Agência Brasil https://share.google/JAwiPalkL7x4giDg8

OBS: Entendam que NÃO EXISTE AINDA COMPROVAÇÃO de que o caso do cão Orelha tenha de fato a ver com o que está sendo tratado nesse texto, mas independente disso é preciso estar atento e ciente do que está acontecendo no universo digital que crianças e jovens acessam todos os dias, dentro dos próprios lares e que crimes como esse tem sido incentivados por essa via.

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Por Gi Stadnicki

 

FONTE:

https://www.facebook.com/giovanna.stadnicki?locale=pt_BR 




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