O escândalo
O escândalo que não pode virar escândalo
Por Sérgio Alarcon
"A luta política contemporânea é também uma luta pelo enquadramento legítimo da realidade. Nem todo crime se converte em escândalo - sobretudo quando ameaça estruturas centrais de poder econômico e político.
O Caso Master apresenta características inequívocas de um evento sistêmico: crise bancária, suspeitas de fraudes complexas, envolvimento de fundos públicos e citações a governadores da direita/extrema-direita, além da atuação direta de instituições como Polícia Federal, Banco Central e Supremo Tribunal Federal.
Ainda assim, a cobertura midiática dominante evita tratá-lo como escândalo estrutural, privilegiando, de forma reveladora, a construção de narrativas de “conflito institucional” e de supostos “excessos do Judiciário”.
O Caso Master não se apresenta como um desvio isolado, mas como indício de uma engrenagem mais ampla de financeirização predatória, captura de atores ligados às máquinas estatais e opacidade institucional.
A presença de atores políticos bozistas, fundos públicos e operadores privados - como igrejas neopentecostais - indica a dimensão da prática bozista e neoliberal de transformar o Estado em plataforma de extração de renda. Trata-se, portanto, de um caso que ameaça expor não apenas indivíduos, mas arranjos estruturais de poder em múltiplas dimensões.
O traço mais relevante da cobertura midiática não é o silêncio, mas o reenquadramento. O foco desloca-se das ilegalidades para os “riscos institucionais”; dos investigados para os investigadores; do crime para o suposto “excesso” das instituições de controle.
Emula-se, de forma explícita, a estratégia bozista de inversão de valor. Juízes, promotores, policiais e ministros do STF passam a ocupar o lugar simbólico de ameaça à ordem, enquanto operadores econômicos e políticos permanecem diluídos, abstraídos ou tecnificados. O efeito político é evidente: o crime se normaliza; o controle se problematiza.
O bozismo fornece a gramática política que radicaliza esse deslocamento. A “caminhada” de Nikolas é o ato espalhafatoso que espelha, no registro grotesco, as matérias elegantes de Malu Gaspar. São retóricas distintas, mas funcionalmente convergentes: ambas convertem fiscalização em perseguição, regulação em censura e justiça em ativismo. Trata-se de uma política sistemática de deslegitimação institucional, que redefine como inimigo qualquer instância capaz de limitar a ação das elites.
Não é surpresa que a gramática bozista encontre ressonância na mídia corporativa. Em 2018, convém lembrar, caminharam juntas com o lavajatismo para escantear o povo e o PT do poder. E, quando a corda aperta, é sempre o mesmo pescoço que se deixa sufocar. Isso ocorre porque essa mídia - a dos Marinho, dos Frias, dos Mesquitas - converge com interesses históricos do neoliberalismo e da oligarquia brasileira: enfraquecer o Estado enquanto instância de controle, ao mesmo tempo em que se preserva a opacidade dos fluxos financeiros e políticos.
Portanto, o escândalo central do Caso Master não reside apenas nas ilegalidades investigadas, mas na dificuldade de narrá-las como sintoma de um sistema de poder estruturalmente antipovo. Ao deslocar o foco do crime para quem investiga, a grande imprensa protege a si mesma, neutralizando o escândalo e normalizando, por extensão, o saque institucional operado por figuras como os governadores bozistas do Rio de Janeiro e do Distrito Federal.
A verdade é que todo escândalo só produz efeitos políticos quando expõe práticas que as elites prefeririam manter invisíveis. No campo da comunicação, porém, a mídia corporativa tende a alinhar seus enquadramentos aos seus próprios interesses estruturais e aos das elites econômicas às quais serve. É ela quem filtra o que deve - ou não - se tornar manchete e escândalo. E, entre uma marcha de congressistas vagabundos e as batidas da Polícia Federal nos governos bozistas do Rio de Janeiro e de Brasília, não é por acaso que a manchete eleita seja o espetáculo do “força, Nikolas”.
FONTE:
https://www.facebook.com/marilinda.marquesfernandes?locale=pt_BR






