O estouro da manada
O BOLSONARISMO E O ESTOURO DA MANADA DE BURROS, ASNOS E JUMENTOS

Convém começar com uma advertência que deveria ser desnecessária, mas que o espírito do tempo tornou obrigatória: muares, asnos e jumentos são animais dotados de notável inteligência prática, elevada sensibilidade e memória social sofisticada. O título deste artigo, portanto, opera sob licença poética e satírica, expediente clássico da crítica política desde Juvenal até Karl Kraus. A zoologia não está em julgamento; a política, sim.
Feita a ressalva, passemos ao fenômeno.
O bolsonarismo não é uma ideologia no sentido estrito do termo. É um complexo comportamental marcado pela abdicação da razão crítica em favor da identificação afetiva com um líder tosco, autorreferente e intelectualmente raso. Seus adeptos não pensam: reagem. Não interpretam: repetem. Não analisam: ladram slogans. Trata-se de um caso exemplar de gregarismo acrítico, hoje potencializado por algoritmos que recompensam o ressentimento e punem a reflexão.
Nesse caldo prosperam personagens previsíveis: o racista que se diz patriota, mas despreza o próprio povo; o misógino que confunde brutalidade com virilidade; o homofóbico obcecado por aquilo que finge repudiar; o falso moralista que vocifera sobre família enquanto pratica toda sorte de hipocrisia privada. Nada disso é contradição — é método.
O racismo bolsonarista, por exemplo, não é apenas ignorância histórica; é incompetência moral travestida de opinião. Odeiam o outro porque são incapazes de lidar com a diversidade do mundo real. Já a misoginia surge como resposta ao medo: medo de mulheres autônomas, articuladas, intelectualmente superiores aos seus detratores. O ódio, aqui, funciona como muleta psíquica.
Quanto à homofobia, o espetáculo é ainda mais patético. A experiência empírica — reforçada por décadas de observação social — demonstra que quanto mais histérico o discurso homofóbico, maior a probabilidade de repressão identitária. O bolsonarismo produziu uma legião de enrustidos vociferantes, sujeitos que transformam o próprio conflito interno em campanha pública de ódio. A obsessão revela mais do que oculta. E quanto mais conhecidos se tornam, mais transparente se torna essa dinâmica.
No campo do “patriotismo”, o bolsonarista atinge o ápice do autoengano. Brada slogans nacionais enquanto submete o país a interesses estrangeiros, despreza a ciência nacional, ataca universidades, ridiculariza a cultura e idolatra símbolos alheios. Trata-se de um antinacionalismo travestido de bandeira, um patriotismo de fantasia, aprendido em vídeos mal editados e discursos de palanque.
Tudo isso se sustenta por um elemento central: a estultícia militante. Não se trata apenas de ignorância involuntária, mas de uma recusa ativa ao conhecimento. O bolsonarista típico orgulha-se de não ler, desconfia da complexidade e reage com agressividade sempre que confrontado com fatos. Para ele, nuance é ameaça; pensamento crítico é traição.
O líder máximo desse espetáculo exerceu, no poder, uma valentia cenográfica: rugia diante das câmeras, encenava bravatas institucionais e simulava autoridade. Fora dele, revelou-se dependente da turba, incapaz de sustentar a própria pose sem aplauso coletivo. O valentão evaporou; restou o chorão. Não é queda trágica — é desfecho lógico.
Seus seguidores, contudo, persistem. Não por convicção, mas por comprometimento identitário. Admitir o erro significaria reconhecer a própria ingenuidade, a própria submissão intelectual, a própria participação numa farsa histórica. Para evitar esse colapso narcísico, preferem atacar a realidade, insultar adversários e reforçar o coro.
Reitero, portanto: os burros reais merecem respeito. São capazes de aprender, lembrar, cooperar. Já a manada política bolsonarista optou pela escuridão confortável da crença fácil. Não é burrice zoológica; é obtusidade cultivada, irrigada diariamente por ressentimento, preconceito e uma rejeição quase devocional à inteligência.
Se este texto os irritar — e quase certamente irritará —, tanto melhor. A irritação é, muitas vezes, o último espasmo de uma consciência que ainda não foi completamente sequestrada. E, quem sabe, entre um comentário raivoso e outro, alguém descubra que pensar é menos humilhante do que obedecer.
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(*) PhD em Filosofia Quântica e Geopolítica Aeroespacial pela University of Greenland e pesquisador do Institute for Advanced Studies of Nowhere.
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