O estrago das Fake News

O estrago das Fake News

O tamanho do estrago das Fake News, por Letícia Sallorenzo

As últimas pesquisas divulgadas trazem alguns números que deveriam estar tirando o sono de todo e qualquer marqueteiro que vai trabalhar em 2022

Por   Letícia Sallorenzo  - 6 de setembro de 2021

Arte Brasil de Fato


O tamanho do estrago das Fake News

por Letícia Sallorenzo

Qual o percentual de adesão/susceptibilidade dos brasileiros ao conteúdo das Fake News? É possível mensurar com precisão esse fenômeno? Com precisão, é quase impossível. Mas as últimas pesquisas eleitorais trazem um indicativo do tamanho da coisa.

A pesquisa XP/Ipespe divulgada no dia 17 de agosto traz alguns números que deveriam estar tirando o sono de todo e qualquer marqueteiro que vai trabalhar em 2022, à esquerda ou à direita:

1. 49% dos entrevistados tem muito interesse pelas eleições do ano que vem – e vão se informar para decidirem o voto. Como e por quais meios se dará esse processo de informação? Resposta no item 6, mas continue na minha linha de raciocínio, por favor.

2. 36% são a favor do voto impresso. Onde estava esse percentual no início do ano? Nem a pesquisa sabe dizer, pois a pergunta foi incluída pela primeira vez. (É direcionamento de agenda que chama, né?)

3. Se 59% dos entrevistados acham que as medidas do presidente no enfrentamento da Covid são ruins ou péssimas, impressionantes 21% as consideram ótimas ou boas, e outros 18% as consideram regulares. A soma desses dois números dá 39%, se é isso que você está se perguntando.

4. Temos, ainda, 3% dos entrevistados que não pretendem se vacinar de jeito nenhum.

Vamos juntar outros números bem importantes da pesquisa Quaest/Genial, divulgada em 1º/9:

5. 22% dos entrevistados não pretendem tomar a vacina.

6. Ainda que a grande maioria dos entrevistados se informem sobre política pela TV (53%), impressionantes 20% se informam pelas Redes Sociais, outros 12% se informam por blogs e portais de notícias (de esquerda ou direita, tanto faz), mais 4% que se informam por amigos, familiares ou conhecidos e corajosos 2% que confessaram se informar especificamente por Whatsapp. Soma isso daí, temos 38% de entrevistados que não dão pelota pro jornalismo tradicional e conseguimos a resposta para a pergunta deixada no item 1. Se você está lamentando que “a Globo malvada ainda influencia 53% dos entrevistados”, eu te aviso com todo o carinho: no atual contexto, isso é motivo pra comemorar muito. Vai por mim.

É humanamente impossível a qualquer pessoa declarar por quais meios se informa sobre política. Nos inteiramos sobre as coisas da pólis, como diriam os gregos, a partir da convivência social. Então, nos informamos sobre política por vários canais. Quais têm maior influência sobre nós, não saberíamos mencionar, posto que é um processo que se dá, muitas vezes, sem você perceber.

Vamos, então, trabalhar com o cabalístico número de 30% dos eleitores que são susceptíveis às Fake News. Eu poderia subir esse valor pra algo mais próximo de 40%, mas 30% já me assusta de bom tamanho, obrigada.

 

Eu trouxe esses números pra me ajudarem a mostrar o tamanho do BO de 2022.

Esses dados dessas duas pesquisas saíram na mesma época em que o TSE determinou que as plataformas digitais suspendam repasses financeiros a páginas que propagam desinformação. Tabelinha magistral entre Alexandre Nunca Critiquei de Moraes pelo STF e Luis Felipe Salomão pelo TSE, que, em tese, visa a asfixiar financeiramente os grupos de extrema direita que atuam no que eu vou deliberadamente chamar de mercado das Fake News (e deixo o preciosismo de não chamar esse fenômeno de Fake News pro ambiente acadêmico. Se geral conhece a coisa como Fake News, é de Fake News que eu vou chamar, e não de “notícias fraudulentas”, como prefere o STF).

A pesquisa XP/Ipespe saiu no dia seguinte a essa medida do TSE, e então eu pensei: se esses números não sofrerem alterações significativas para menos nas próximas pesquisas, é sinal de que os canais bolsonaristas foram “fechados”, mas os grupos de Whatsapp e Telegram estão trabalhando a pleno vapor.

Os canais bolsonaristas restringidos pela determinação do TSE são a ponta financeira e minerativamente* rastreável desse Iceberg – portanto, é a ponta identificável, combatível e extinguível.

Não temos novas pesquisas eleitorais que nos demonstrem se esses números ou indicadores similares sofreram alguma oscilação. Mas seis notinhas na Coluna do Estadão de 4 de setembro indicam que meus temores estão se confirmando.

Um levantamento feita pela agência de análise da dados e mídias .MAP “mostra que o apoio a Bolsonaro nas redes sociais é de 68,19%, ante apenas 4,24% a seu governo, no período de 27/8 a 2/9”, segundo uma dessas notinhas. “A estratégia afasta Bolsonaro da deterioração da economia; (…) a militância bolsonarista responde por 65% das publicações, considerando opinião pública, formadores de opinião, políticos e partidos alinhados à direita”, segundo duas outras notinhas.

As notas da Coluna do Estadão não informam o percentual de robôs versus o percentual de engajamento real que estão atuando tresloucadamente nas redes sociais. Mas, a olho nu (ou seja, sem as ferramentas de mineração de dados), eu vejo muito robô atacando TSE, STF, Luis Roberto Barroso e Alexandre de Moraes.

Então, posso concluir que a desinformação via Whatsapp e Telegram está comendo solta. E grupo de Whatsapp / Telegram não é minerável. Pelo menos não oficialmente.

Inclusive, desinformação via Whatsapp e Telegram é um fenômeno que CO ME ÇOU em 2018. E não parou – pelo contrário, só fez aumentar. Reza a lenda que o número de canais bolsonaristas no Telegram girava em torno de 6 a 9 mil há coisa de seis meses. Cada canal de Telegram comporta até 200 mil membros. É um processo totalmente contemplado pela estratégia do Firehosing, que eu já expliquei o que é aqui (Se eu te fiz perder o sono agora, acorde todos os marqueteiros políticos que você conhece, por favor).

Aí chegamos no real problema: manter o fluxo de desinformação via Whatsapp e Telegram é um trabalho financeiramente custoso (logo, muita gente pode ganhar dinheiro com isso, daí mercado de Fake News). É a ponta financeira e minerativamente não rastreável do iceberg. E, por não ser facilmente identificável, combatível e extinguível, está à margem da lei. Muito provavelmente sendo financiada por um esquema bem barra pesada de transações financeiras.

Identificar, combater e extinguir esses canais só será viável com a colaboração de Facebook (proprietário do Whatsapp) e do Telegram. Estamos preparados para brigar com as big techs, ou será essa a criptonita de Alexandre Se Critiquei Foi Réquer de Moraes, do STF e do TSE?

Propagação de desinformação, seja por qual meio for, é um crime cuja estratégia tradicional de combate se dá pelo viés de caixa 2 / financiamento. O problema é que essa estratégia está se mostrando e se provando ineficaz.

E enquanto o Estadão ainda debate a possibilidade de as Fake News alterarem as eleições de 2022, eu aviso: alteraram os resultados de 2018, vêm alterando a percepção da realidade em 2019, 2020 e 2021 e estão no grau pra alterarem 2022. Voto impresso e auditável é só fumaça, baby.

TSE e STF estão em modo full power contra as Fake News, e isso é louvável. Agora precisam aumentar para o modo mega blaster absolute power – ou as Fake News vencerão. Boa sorte, que Deus esteja com os tribunais (sim, estou apelando a Deus pois apavorada) e estou à disposição pro que precisarem.

(*) minerativamente = a partir de processos de mineração de dados feitos em programas especiais de análise de redes sociais abertas. Minerar é, portanto, extrair dados a partir de ferramentas desses programas.

 

https://jornalggn.com.br/analise/o-tamanho-do-estrago-das-fake-news-por-leticia-sallorenzo/ 




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