O peso da história

Há algo de profundamente mesquinho na lógica das ditaduras em qualquer lugar do mundo. Elas não se contentam em controlar territórios ou instituições. Querem controlar a cabeça, a palavra, o gesto, o tempo e até o silêncio das pessoas. Querem decidir o que pode ser dito, escrito, pensado. A que horas alguém pode sair de casa, onde pode estar, com quem pode andar. No Brasil, não foi diferente. A ditadura militar interrompeu a vida comum dos brasileiros de forma minuciosa e cotidiana. O controle não era só físico. Era mental. Era sobre o ser.
É dentro desse tipo de controle que a história de Dulce Maia se torna possível.
Para entender o que aconteceu com ela, é preciso voltar a janeiro de 1969. Um Brasil que havia decidido abandonar qualquer disfarce. Um mês antes, em dezembro de 1968, o regime decretara o Ato Institucional nº 5. O habeas corpus para crimes políticos foi suspenso. Na prática, isso significava algo simples e devastador. O Estado podia levar alguém e não dar explicação alguma. Famílias perderam o direito de perguntar. A prisão deixou de ser um ato jurídico. Passou a ser um buraco.
Dulce não era militante. Não participava de ações armadas. Não frequentava reuniões clandestinas. Era dona de casa. O que a colocou no centro da repressão foi um vínculo afetivo. Dulce era companheira de José de Araújo Nóbrega, ex-sargento do Exército que havia se integrado à Vanguarda Popular Revolucionária. Para o regime, isso era imperdoável. Um ex-militar que atravessasse a fronteira simbólica da farda precisava ser punido. Quando o alvo não era alcançado, atingia-se o entorno.
Dulce foi presa e levada para a Operação Bandeirante, em São Paulo. A OBAN funcionava como laboratório de repressão. Um lugar criado para operar sem testemunhas, sem freios e sem perguntas.
Ali, Dulce foi despida, amarrada e suspensa no pau de arara, com braços e pernas presos a uma barra. O corpo ficava pendido de modo que a dor se espalhasse pelas articulações. Recebeu choques elétricos nos pés, nas mãos, nos seios e na boca. A cada descarga, espasmos involuntários percorriam o corpo. Vieram os espancamentos em sessões, não para matar rápido, mas para quebrar. Palmatórias nas mãos, pancadas nas costas, socos no rosto. Os interrogadores repetiam o nome do companheiro enquanto batiam. A violência era física e simbólica. O recado era claro: o corpo dela era a mensagem.
Em uma dessas sessões, o corpo cedeu. Dulce sofreu um derrame cerebral. Um lado ficou paralisado. Mesmo assim, as agressões continuaram por algum tempo. Não por engano, mas por coerência interna de um sistema que já havia decidido não reconhecer limites.
Em 1970, o Brasil vivia um impasse que o regime tentava esconder. Grupos da guerrilha passaram a sequestrar diplomatas estrangeiros para pressionar a ditadura a libertar presos políticos mantidos sob tortura ou em cárcere ilegal. Naquele ano, o embaixador da Alemanha Ocidental, Ehrenfried von Holleben, foi sequestrado. O recado era direto: ou o governo libertava presos políticos específicos, ou o diplomata não seria solto. Pressionado internacionalmente, o regime aceitou negociar. Montou-se uma lista de prisioneiros que seriam banidos do país em troca da libertação do embaixador. Dulce estava nessa lista não porque estivesse apta a retomar a vida, mas porque já havia sido quebrada. Ela deixou o Brasil em uma cadeira de rodas, com sequelas graves da tortura, expulsa do próprio país como parte de uma transação política. O Estado não a libertou por justiça. Libertou porque foi obrigado.
O exílio passou pela Argélia, por Cuba e pelo Chile. No Chile, Dulce ainda viveu o trauma de um novo golpe militar, em 1973, e precisou fugir outra vez. A violência não terminou na fronteira.
Quando retornou ao Brasil após a Lei da Anistia, em 1979, encontrou um país disposto a seguir em frente rápido demais. O corpo de Dulce não permitia esse apagamento. As marcas físicas e mentais a acompanharam até o fim da vida. Ela se tornou um exemplo claro do que se chama de tortura por extensão. Quando o Estado não alcança o alvo principal, destrói quem está ao redor.
Dulce Maia morreu em 2017, aos 83 anos. Sua história está registrada em relatórios oficiais e estudos acadêmicos, mas segue pouco conhecida. Talvez porque desmonte uma narrativa confortável. A de que a ditadura tinha alvos bem definidos. A de que a vida comum estava protegida.
Não estava.
A história de Dulce revela um projeto de controle total. Um poder que quis governar não apenas instituições, mas consciências. Controlar o que se pensava, dizia, escrevia e amava. Se este texto pesa, é porque a história pesa. Algumas violências só cumprem seu papel quando são ditas sem atalho, com empatia e sem repetição automática de fórmulas.
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Fagner Oliveira
FONTE:
Zonacurva
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