O prelúdio da barbárie
Mitocracia e o prelúdio da barbárie
23 de outubro de 2026
Heverton Lacerda (*)
O cenário que se projeta para o Brasil nos próximos anos não é nada animador. Na verdade, é extremamente preocupante. Estamos a poucos dias do segundo turno das eleições presidenciais, que definirá quem tentará governar o país pelos próximos quatro anos. Independente de quem for o vencedor, uma imensa parcela da população permanecerá descontente, em um ambiente político marcado pela polarização e pela tensão social.
O resultado do primeiro turno e a configuração política que dele emerge acendem um alerta para a democracia brasileira. Caso Lula não vença o segundo turno, poderá ter início uma complexa experiência política que aqui denomino mitocracia: um sistema em que a imagem mitificada de um líder se sobrepõe à realidade dos fatos, à responsabilidade pública e à autonomia das instituições, convertendo a devoção pessoal em instrumento de concentração de poder.
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A força da figura identificada como “mito” por parte de seus apoiadores no Brasil não deve ser subestimada. Ela se alimenta de narrativas, expectativas e promessas que nem sempre resistem ao confronto com a realidade. Mas essa força não reside na figura do líder. Está mais posicionada nos métodos daqueles que exploram o descontentamento social, instrumentalizam as esperanças populares e mobilizam interesses econômicos e políticos em benefício próprio. Entre os apoiadores, há tanto pessoas que aderem conscientemente a determinado projeto, quanto cidadãos que, movidos por frustrações legítimas, podem ter sido conduzidos a uma escolha contrária aos próprios interesses.
A figura de um mito para os desesperançados é particularmente útil a operadores políticos e econômicos que sabem transformar insatisfação em capital eleitoral. O mito, em uma definição sucinta, é uma figura ou narrativa carregada de significados simbólicos, compartilhados por determinado grupo social. Não precisa ser inteiramente fictício: uma pessoa real pode ser transformada em mito quando sua imagem passa a representar – mesmo sem estar fundamentada na verdade – valores, esperanças e promessas que ultrapassam sua própria trajetória.
O mito, portanto, não é a pessoa em si, mas a imagem que se constrói em torno dela. É uma representação que pode adquirir tamanha força simbólica que passa a ser protegida até mesmo contra os fatos que a contradizem. Nesse sentido, por exemplo, identifica-se uma contradição reveladora em setores religiosos que rejeitam imagens sacras, mas depositam devoção quase incondicional em figuras políticas.
Mas por que esse fenômeno importa?
O candidato Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, apresenta-se nesse contexto como herdeiro de uma imagem política construída em torno do pai. Sua força eleitoral precisa ser compreendida não apenas pelas propostas que defende, mas também pela identificação simbólica que mobiliza entre parcelas do eleitorado.
As investigações e suspeitas relacionadas à sua trajetória, amplamente apontadas pela imprensa, devem ser avaliadas à luz dos fatos e das decisões judiciais pertinentes, sem que a identificação política substitua o exame crítico das evidências. Aqui temos um ponto importante de reflexão crítica para aqueles que votaram no candidato no primeiro turno e prezam pelo bom senso.
Caso Flávio vença as eleições, a composição do Congresso Nacional e a correlação de forças nos governos estaduais poderão ampliar sua capacidade de ação e reduzir os espaços de resistência institucional. Nesse cenário, existe o risco de aprofundamento de um modelo político personalista e fortemente submisso a outras nações, com o poder concentrado em torno de uma família e de seus aliados, sustentado por uma democracia formal progressivamente enfraquecida pela influência do dinheiro e pela fragilização dos mecanismos de controle.
É nesse contexto que proponho o uso do conceito de mitocracia: uma forma de exercício do poder na qual a imagem idealizada de um líder se torna um instrumento de legitimação política, mesmo quando suas ações, seus interesses ou suas propostas entram em conflito com os valores que lhe são atribuídos. O mito passa a funcionar como escudo contra a crítica, enquanto a fidelidade ao líder se sobrepõe à defesa das instituições e ao interesse público.
Se Flávio Bolsonaro vencer e cumprir a promessa de libertar o pai, Jair Bolsonaro, será necessário observar de que maneira essa decisão se relacionará com as competências constitucionais, os limites legais e a independência do Judiciário. O problema democrático não está, em si, na possibilidade de revisão de uma decisão judicial pelos meios previstos em lei, mas no risco de que o poder político seja utilizado para subordinar a Justiça a interesses pessoais.
Quando a lealdade a um líder passa a valer mais do que a autonomia das instituições, abre-se um caminho perigoso para o autoritarismo. Este ponto relaciona-se à composição majoritariamente ligada ao bolsonarismo no Congresso Nacional e ao anúncio de alterações na Constituição Federal feito pelo candidato. Intensifica a composição de apoio à formação da mitocracia o fato de que o próximo presidente, sendo Flávio, poderá indicar novos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Nesse caso, os três poderes estariam mais alinhados ao bolsonarismo, dificultando o exercício da democracia plena.
Os conflitos sociais que poderiam resultar desse processo não devem ser tratados como uma consequência inevitável, tampouco podem ser ignorados. A deterioração da confiança nas instituições, a radicalização política e a percepção de que as regras democráticas deixaram de valer para todos podem ampliar as tensões e comprometer a convivência social.
O quadro internacional também inspira preocupação. As manifestações e os conflitos que atingem diferentes países refletem, em contextos distintos, tensões econômicas, políticas e sociais que não podem ser reduzidas a uma única causa, mas permitem a identificação de alinhamentos ideológicos. O rearranjo geopolítico em curso, a concentração da riqueza, a militarização, o desenvolvimento de tecnologias de guerra e o agravamento da crise climática compõem um cenário especialmente ameaçador para as populações mais vulneráveis.
A supercomputação — batizada erroneamente de inteligência artificial —, os sistemas autônomos e os drones coordenados por tecnologias computacionais avançadas ampliam as possibilidades de utilização da força militar. Em paralelo, a concentração de recursos econômicos e tecnológicos nas mãos de poucos grupos privados aumenta a capacidade de determinados atores influenciarem governos, populações, disputas políticas e decisões que afetam a coletividade. Não se trata de afirmar que todos esses fenômenos obedecem a um único comando, mas de reconhecer que a desigualdade de poder pode comprometer a soberania popular e a capacidade das sociedades de decidir seus próprios destinos.
O Brasil, detentor de uma riqueza ambiental estratégica e historicamente marcado por relações econômicas desiguais, não está à margem dessas transformações. A exploração de seus recursos naturais, frequentemente orientada por interesses privados de curto prazo, e a persistência de desigualdades sociais tornam ainda mais importante a defesa de um projeto de desenvolvimento que concilie soberania, justiça social e proteção ambiental.
Se Lula, prestes a completar 81 anos, vencer sua última eleição presidencial, terá diante de si um desafio igualmente difícil. Precisará governar em um ambiente institucional fragmentado, com forças políticas majoritariamente contrárias ao seu projeto em diferentes espaços de poder e sob a influência de interesses econômicos nacionais e internacionais. A relação com os Estados Unidos, potência econômica e militar que historicamente procura preservar sua influência global, também será um elemento relevante desse cenário.
Com Lula, os danos sociais e institucionais poderão ser reduzidos, mas não se pode presumir que a democracia estará automaticamente protegida. A vitória de um candidato comprometido com pautas progressistas não elimina os riscos decorrentes da concentração econômica, da fragilidade institucional ou da polarização. O desafio será construir sustentação política para governar, preservar direitos e enfrentar as estruturas que perpetuam a desigualdade.
Para quem defende uma proposta progressista, contrária à concentração extrema de riquezas e à subordinação dos interesses nacionais a elites econômicas, o momento exigirá mais do que a vitória eleitoral. Será necessário construir apoio social, ampliar o diálogo e fortalecer as instituições democráticas. A democracia não se sustenta apenas nas urnas: depende também da participação cidadã, da transparência, da responsabilidade pública e da capacidade de conviver com as diferenças.
Resumo da ópera: evitar, ou ao menos adiar, a ascensão de uma mitocracia é uma escolha que ultrapassa as fronteiras partidárias. É uma opção que pode ser compartilhada por pessoas que não votaram em Lula no primeiro turno, mas que reconhecem os riscos de um projeto autoritário sustentado pela devoção a um líder.
É também uma possibilidade para quem votou em Flávio Bolsonaro por diferentes razões — inclusive pelo antipetismo ou pela rejeição a Lula —, mas não deseja abrir mão do compromisso com a democracia, a independência das instituições e o interesse público. Mudar o voto não exige necessariamente abandonar todas as próprias convicções políticas. Pode significar apenas reconhecer que, diante de determinados riscos, é preciso estabelecer prioridades.
O Brasil não está condenado à barbárie. Mas evitar que ela se instale exige lucidez, responsabilidade e disposição para rever escolhas. Quando a imagem de um mito passa a valer mais do que a realidade e o bom senso, a democracia corre o risco de se tornar apenas uma fachada para o exercício personalista do poder. É esse o perigo que a mitocracia procura nomear — e é contra ele que precisamos agir.
(*) Jornalista e ambientalista.
FONTE:
https://sul21.com.br/opiniao/2026/10/mitocracia-e-o-preludio-da-barbarie-por-heverton-lacerda/





