O púlpito vazio

O PÚLPITO VAZIO E O MEDO DE ENCARAR O ADVERSÁRIO
Na política brasileira, há candidato que prefere enfrentar uma urna a enfrentar uma pergunta. A urna, pelo menos, não faz réplica, não pede explicações e não pergunta por que o sujeito fugiu do debate.
Segundo a coluna de Igor Gadelha, no Metrópoles, Flávio Bolsonaro (PL) confirmou que não participará do debate da Band, marcado para domingo (18 de outubro). A emissora, porém, decidiu manter o encontro com Lula, candidato à reeleição pelo PT, e deixar no cenário o púlpito reservado ao adversário.
Um púlpito vazio. Eis uma metáfora pronta, dessas que dispensam até o talento do chargista.
Lula estará presente. Flávio, ausente. E a televisão fará o favor de mostrar ao eleitor aquilo que o discurso político costuma esconder: na hora de confrontar ideias, nem todo candidato tem disposição para confrontar perguntas.
A Band decidiu não cancelar o encontro. Lula poderá falar, defender seu governo e criticar o adversário que resolveu não comparecer. O espaço vazio, por sua vez, ficará ali, silencioso, sem precisar de microfone para participar do debate.
Na primeira tentativa, a Globo cancelou o confronto depois da desistência de Flávio, que alegou interferência da Justiça Eleitoral. A emissora havia sido impedida pelo Tribunal Superior Eleitoral de manter vazio o púlpito destinado a Lula e de permitir que os demais candidatos dirigissem perguntas ao petista.
Agora, o roteiro mudou. Lula confirmou presença e desafiou Flávio a comparecer. A Band resolveu abrir as portas, acender as luzes e preparar o cenário. Falta saber se o candidato do PL ainda encontrará coragem para ocupar o lugar que lhe foi reservado.
É curioso observar como a política adora falar em coragem, liberdade de expressão e respeito ao eleitor, até o instante em que chega a hora de responder sem roteiro, diante das câmeras e sob o olhar de milhões de brasileiros.
Debate não é desfile de biografias nem concurso de frases ensaiadas. É confronto de propostas, prestação de contas e oportunidade para o cidadão comparar os candidatos. Quem pretende governar o país precisa, ao menos, demonstrar disposição para conversar com quem pensa diferente.
E há uma ironia especial nisso tudo: o púlpito vazio pode acabar dizendo mais do que muitos discursos preparados por marqueteiros.
Se Lula falar sozinho, terá o espaço que o adversário deixou livre. Se criticar Flávio, o eleitor poderá julgar o conteúdo e a oportunidade das críticas. Mas a ausência também entrará na conversa pública, porque fugir de um debate não apaga as perguntas. Apenas deixa que elas circulem sem resposta.
No fim, a televisão terá dois protagonistas: um presidente diante do microfone e um púlpito sem ninguém.
A política brasileira, que já nos ofereceu tantas cenas surreais, ganha mais uma. O candidato que não aparece continua na disputa, mas sua ausência ocupa o cenário inteiro.
E o eleitor, esse personagem quase sempre convocado apenas na hora de votar, fica com uma pergunta simples: quem quer governar o Brasil precisa temer o debate ou encará-lo?
No domingo, talvez o púlpito vazio responda sem pronunciar uma única palavra.
Fonte: Igor Gadelha, coluna no portal Metrópoles, conforme publicação reproduzida nas redes sociais da Band e informada no material de referência.
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