Com todas as pesquisas indicando a vitória de Jair Bolsonaro na eleição deste domingo, as atenções se voltam para os dias depois de amanhã, quando termina o período de silêncio imposto pelo candidato à equipe que trabalha nas primeiras medidas. Embora o PT ainda não tenha jogado a toalha e seus militantes se empolguem com as pesquisas que indicam redução da vantagem de Bolsonaro sobre Fernando Haddad, os mais realistas admitem que uma virada é praticamente impossível.  

Sabe-se muito pouco do que virá pela frente, seja porque o plano de governo é uma imprecisa carta de intenções, seja porque o candidato não participou de debates e só deu entrevistas a veículos escolhidos a dedo neste segundo turno. 

O economista Paulo Guedes, único que poderia esclarecer os pontos críticos do ajuste fiscal, foi posto em uma espécie de quarentena desde que falou sobre a criação de um imposto nos moldes da CPMF, para substituir outros tributos, e foi desautorizado pelo candidato. 

De certa forma, os brasileiros que escolheram Bolsonaro estão comprando um pacote fechado para uma viagem surpresa, em que o destino não será revelado nem no porto de embarque. 

A promessa feita na propaganda do pacote é que Bolsonaro os levará para outro Brasil, um país seguro, de ordem e progresso, onde não haverá corrupção nem “ideologia de gênero”. 

Esse país oferecido aos eleitores terá Deus acima de todos, será “liberal na economia e conservador nos costumes” e intransigente com quem não rezar pela cartilha dos vitoriosos. Diz a propaganda que o capitão do navio é honesto (ainda que inexperiente) e vai proteger os passageiros de uma suposta ameaça comunista, tantos anos depois do fim da Guerra Fria. 

O favoritismo de Bolsonaro não se explica somente por esse resumo das ideias esboçadas em suas manifestações em vídeos distribuídos nas redes sociais. As propostas para a segurança e para a educação têm a profundidade de um pires, mas quem se importa? 

A ideia de facilitar a compra de armas seduziu milhões de eleitores acossados pela violência no campo e nas cidades. Seu maior trunfo é ser o opositor do PT, credencial que lhe garante votos até de uma parcela do eleitorado que faz ressalvas a seu discurso racista, homofóbico, saudosista da ditadura e de admiração a um torturador. 

Em uma eleição plebiscitária, até empresários que jamais contratariam uma pessoa com o perfil do capitão para uma vaga de gerente de departamento adotaram sua candidatura com entusiasmo, só por ser a antítese do PT e pela promessa de “quebrar o sistema”.

Bolsonaro também conquistou o coração do mercado financeiro com a conversão ao liberalismo, ele que no passado era nacionalista e, no Congresso, nunca se mostrou defensor das reformas. Seu bom desempenho nas pesquisas derrubou o dólar e impulsionou a bolsa. 

Como serão os dias depois de amanhã, com o país dividido? Bolsonaro terá de trocar a camiseta de candidato pelo figurino de presidente eleito de um Brasil que precisa se reconciliar. Terá de usar o capital político adquirido nas urnas para fazer reformas impopulares no primeiro ano de governo, já que não se faz ajuste fiscal sem dor. 

 

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