Obrigado Paulo Freire

Obrigado Paulo Freire

Muito obrigado, Paulo Freire!

Por José Luís Ferraro* / Publicado em 10 de agosto de 2021

Foto: Divulgação

 

Em um país de dimensões continentais, muitas poderiam ser as referências quando se trata de analisar os quadros de sua intelectualidade. No entanto, é consenso que – entre esses – o nome de Paulo Freire seja o mais proeminente. Mais que um professor, um educador. Seu ativismo pela educação tem deixado marcas significativas na formação de gerações de docentes e de outros profissionais da educação no Brasil e reverbera pelo mundo.  Há cem anos de seu nascimento, o intelectual brasileiro tem inspirado cada vez mais educadores e pesquisadores de diversos países.

Em tempos de democracia abalada por arroubos autoritários e pela tentativa de captura do significante liberdade – por um sistema econômico que faz apenas produzir iniquidades, projetando meticulosamente suas formas de exclusão e propondo como solução midiática formas de representatividade vazias –, revisitar Paulo Freire é um bálsamo de esperança para quem acredita em um futuro melhor. Um futuro de transformação que passa, invariavelmente, pela educação.

Paulo Freire tinha um projeto de educação para o Brasil a partir de uma pedagogia centrada na ideia de emancipação e autonomia, conceitos essenciais quando se pensa a formação humana e suas formas de transformação de indivíduos em sujeitos. Assim, a liberdade seria alcançada por um despertar de consciências instigado por uma educação crítica e criativa. Ser consciente na perspectiva freireana significa fazer com que os indivíduos compreendam sua real situação na sociedade, produzindo formas de identificação subjetiva. Foi esse movimento que permitiu que Freire abordasse a dicotomia opressor/oprimido em seu livro Pedagogia do oprimido, em 1968, como continuidade de outra importante publicação, feita em 1967, Educação como prática de liberdade, ambos escritos durante seu período de exílio no Chile.

Educação libertadora

Nesse sentido, Freire propôs o rompimento com modelos educativos opressores a partir de uma educação libertadora, que se insinua sobre as esferas política, cultural, humana e social como forma de emancipação a partir de uma pedagogia fundada em uma ética da alteridade, do respeito e da dignidade como sinônimo de autonomia. Para tanto, valeu-se do conceito de práxis, entendendo que, para a transformação social, era necessária uma educação que aliasse teoria e prática: uma praxiologia potente, capaz de transformar também a produção da história.

A partir desses elementos, é possível inserir a ideia de educação freireana no rol das pedagogias críticas. Sua dialética vai ao encontro, exatamente, de um método que tem como imperativo evidenciar a relação indivíduo/realidade, o que acaba por aproximá-la da corrente materialista. Destarte, em Freire, a educação é evidenciada definitivamente como ato político – seu dever por meio da práxis é a inserção social de indivíduos historicamente marginalizados –, sendo assim, impossível de ser dissociada de quaisquer pedagogias.

Inspirado por essas crenças, Freire desenvolveu um método educativo que alfabetizou 300 alunos em 40 horas ao longo de 45 dias. Foi o que bastou para que, em 1963 – durante o governo do então presidente João Goulart –, ele assumisse a coordenação da Campanha Nacional de Alfabetização de Adultos, que foi descontinuada com o golpe militar em 1964, ano em que foi preso por 72 dias acusado de doutrinação marxista, embora afirmasse: “Cristo levou-me a Marx, mas eu nunca me neguei o direito de questionar a ambos”. Em seguida, no mesmo ano, foi obrigado a se exilar.

Paulo Freire retornaria ao Brasil em 1980, pós-Lei da Anistia, para retomar suas atividades acadêmicas na Universidade de Campinas e, logo após, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, cidade onde, em 1989 – aos 67 anos – assumiria o cargo de secretário de Educação no governo de Luiza Erundina.

O fato é que, inegavelmente, Paulo Freire é um divisor de águas na educação mundial. Imaginemos como seríamos um país diferente se seus Círculos e Centros de Cultura tivessem prosperado Brasil afora, e não sido proibidos pela ditadura. Ou, ainda, Paulo Freire hoje, com sua coragem e seu pensamento, aliando-se nas trincheiras dos movimentos sociais engajado na luta contra o fascismo. Pois bem, de alguma forma ele está lá, ele permanece em nós, professores. Um Paulo Freire redivivo em cada docente que se esforça para pôr em prática uma pedagogia baseada na solidariedade e na colaboração, capaz de integrar elementos técnicos, éticos, estéticos e políticos. Mais do que vivas e parabéns, muito obrigado, Paulo!

*Doutor em Educação. Professor dos Programas de Pós-Graduação em Educação e Educação em Ciências e Matemática da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). E-mail: jose.luis@pucrs.br

 

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