Oportunismo e descaso

Oportunismo e descaso

NIKOLAS FERREIRA. PODER, OPORTUNISMO E DESCASO

Rene Ruschel

 

 

 

A caminhada do deputado federal Nikolas Ferreira, PL-MG, entre Paracatu, MG e Brasília, DF, percorrendo cerca de 235 quilômetros, foi vendida por seus apoiadores como um gesto heroico, quase épico.

Em um delírio retórico típico do bolsonarismo, houve quem tentasse equipará-lo a figuras históricas como Mahatma Gandhi e Martin Luther King Jr.

A comparação não se sustenta nem por um instante diante da história, dos valores e, principalmente, do comportamento político do parlamentar mineiro.

Gandhi caminhou para desafiar um império colonial, mobilizando milhões em torno da desobediência civil, da ética e da não violência.

Martin Luther King liderou marchas que enfrentaram o racismo institucional, a segregação racial e a brutalidade do Estado, colocando o próprio corpo em risco em nome da igualdade e dos direitos civis.

Ambos tinham um projeto coletivo baseado em justiça social, verdade e ampliação de direitos.

Nikolas Ferreira, ao contrário, usa a caminhada como performance política, mais preocupado com engajamento nas redes sociais e culto à própria imagem do que com qualquer transformação concreta da realidade.

Seu histórico no Parlamento ajuda a entender o vazio simbólico de sua encenação. O deputado construiu sua projeção nacional não por iniciativas legislativas relevantes, mas pela disseminação de desinformação, ataques a minorias e confrontos calculados para viralizar.

Foi condenado pela Justiça Eleitoral por divulgação de fake news, tornou-se réu em processos por calúnia e difamação e acumula episódios de manipulação de informações, inclusive em campanhas eleitorais.

Não se trata de erros pontuais, mas de um método político baseado na mentira como instrumento de mobilização.

Protagonizou episódios de transfobia amplamente denunciados, usando a tribuna da Câmara para ridicularizar pessoas trans e reforçar preconceitos. Essa postura não é compatível com qualquer ideia de libertação.

Gandhi e King lutaram para ampliar direitos e garantir dignidade a grupos historicamente oprimidos.

Nikolas faz o oposto. Atua para restringir direitos, normalizar o ódio e transformar minorias em alvos permanentes de sua retórica.

Sua caminhada também se insere em um contexto de defesa de pautas antidemocráticas, como a relativização dos ataques golpistas de 8 de janeiro e a tentativa de deslegitimar instituições quando elas contrariam seu campo político.

Nada disso dialoga com a tradição da desobediência civil ética e responsável.

Gandhi e King enfrentaram leis injustas para ampliar a democracia. Nikolas confronta a democracia para atender interesses ideológicos e pessoais.

Compará-lo a esses líderes históricos é um desrespeito à memória de quem realmente sacrificou a própria segurança, a própria liberdade e, no caso de King, a própria vida, para enfrentar sistemas de opressão.

Nikolas não enfrenta estruturas injustas. Ele se alimenta do conflito raso, da desinformação e da polarização permanente.

Sua caminhada pode até cansar as pernas, mas não carrega peso moral, nem densidade histórica. Está longe de ser um gesto de libertação.

Gandhi e Martin Luther King caminharam para libertar consciências. Nikolas Ferreira caminha para reforçar a própria caricatura política.

reneruschel

FONTE:

https://www.facebook.com/rene.ruschel.79?locale=pt_BR 

 

 

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Sergio Alarcon

 

Na Escritura, qualquer crente minimamente alfabetizado sabe: raio não é neutro. Raio, na Bíblia, é linguagem. É juízo. É interrupção. É o céu dizendo: chega!

E, ainda assim, houve quem achasse razoável convocar gente pobre, idosa e fanatizada para marchar sob chuva torrencial, como se fé fosse capa impermeável e irresponsabilidade parlamentar fosse virtude cristã. Resultado? Dezenas de feridos e pelo menos oito pessoas em estado grave, entupindo emergências do SUS.

Ironia das ironias: quem tenta salvar essas vidas agora são servidores públicos - médicos, enfermeiros, técnicos - os “vagabundos”, segundo a seita bozista, trabalhando no limite para reverter uma tragédia causada por um ato irresponsável, messiânico e criminosamente inconsequente.

Mas voltemos à Bíblia, que é onde essa gente finge morar.

“O Senhor troveja nos céus; o Altíssimo faz ouvir a sua voz, com saraiva e brasas de fogo.”

(Salmos 18:13)

A chamada “caminhada”, liderada pelo Deputado Chupetinha, não tinha nada de fé. Era ato em causa própria, organizado por quem está atolado em suspeitas, cercado por escândalos e sempre orbitando o submundo: PCC, Banco Master, INSS… Não à toa queria a PEC da bandidagem para se blindar de sabe-se lá quais crimes. Perdeu, mas mantém o velho jogo da vitimização performática.

Chupeta tentou emular a Paixão de Cristo - sem cruz, mas com câmera; sem martírio, mas com marketing. Jesus? Ele próprio, Chupetinha. Só esqueceu de um detalhe central: Deus sive Natura não é figurante de palanque. Não age por fins, nem por ira pessoal; age ex necessitate, da mesma necessidade pela qual existe. Não entra em encenação de deputado que usa a Bíblia como escudo para defender a si mesmo de se tornar mais um presidiário da seita.

O raio que caiu não foi apenas “um acidente”. Foi também interrupção simbólica. Sub specie aeternitatis, um modo da substância única manifestando-se, sem propósito final, sem vingança antropomórfica.

Foi a natureza (sive Deus) dizendo “não” - impessoal e inevitável, como todo conatus que se opõe ao que ameaça sua perseverança no ser.

Ainda assim, essa negativa não conteve aquele deputado desumano que, mesmo com dezenas de corpos feridos, mesmo sob risco de novos raios, decidiu continuar sua pantomima.

“Ai dos que ao ímpio justificam por suborno, e ao justo negam justiça.”

(Isaías 5:23)

O bozismo não passa de uma seita de delinquentes e fanáticos, que insistem em se colocar repetidamente sob raios. Construiu uma teologia lumpesina, com uma inversão moral grotesca: para eles, criminoso vira perseguido, golpe vira liberdade de opinião, traição à pátria vira patriotismo, Chupetinha vira Jesus. Jair - chefe da organização criminosa, preso na Papuda - é tratado como messias, enquanto a lei que nos garante a única liberdade real - a liberdade civil - é demonizada como obra do diabo e rotulada como ditadura.

Mas a Escritura não deixa margem para delírio:

“O trono que se firma na injustiça não pode ter comunhão contigo.”

(Salmos 94:20)

E quando o céu rasga a marcha da impunidade com um raio, ecoa outro versículo que falsos piedosos fingem não conhecer:

“Sobre os ímpios fará chover brasas, fogo e enxofre; vento abrasador será a porção do seu cálice.”

(Salmos 11:6)

O raio não acertou a cabeça de Chupeta - e isso é importante. Não foi vingança divina. Vingança é coisa humana, é paixão triste.

Foi, repito, limite. Foi Deus, a substância infinita, a causa sui, manifestando-se em um modo finito a colidir com outro modo finito: o bozismo.

Trágico é que os atingidos tenham sido, mais uma vez, os corpos descartáveis de sempre: seguidores enganados, lançados à tempestade por um deputado que representa o anticristo da nossa democracia.

Mesmo assim, quando o raio cai, ele revela: há marchas que não sobem ao céu - algumas acabam chamuscadas no pronto-socorro; outras acabam na Papuda.Deus sive Natura não perdoa nem pune; simplesmente é - e quem não compreende essa ordem insiste em perecer cego em meio a superstições.

FONTE:

https://www.facebook.com/sergio.alarcon.752?locale=pt_BR

 

 

 




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