Parlamento em colapso
A CÂMARA E O SUBTERRÂNEO DO PODER

Na calada da noite, às 2h43 da madrugada, quando o país dormia e a democracia deveria estar protegida por quem a representa, o projeto da dosimetria foi aprovado.
A operação teve o mesmo espírito das ações feitas às escondidas, nos becos e submundos da história. Aquilo que não se sustenta à luz do dia, aquilo que se faz quando a transparência é um risco.
Só que, desta vez, não ocorreu em alguma viela clandestina, mas no plenário da Câmara dos Deputados.
O dia que antecedeu essa manobra foi igualmente sombrio. Tumultos, empurra-empurra, gritos e uma violência simbólica que envergonhou o país.
Um espetáculo degradante que ficará registrado como a maior demonstração do descaso pelo pacto democrático desde a redemocratização.
Deputados zombaram do povo que, em sua maioria, apoiou o rigor do Supremo Tribunal Federal no julgamento de um ex-presidente e dos oficiais do Estado-Maior envolvidos na tentativa de golpe de Estado.
No STF o processo levou mais de dois anos, seguiu todos os ritos e respeitou o devido processo legal. No Legislativo, bastou um conchavo bem costurado, o velho jeitinho e uma madrugada estratégica.
No centro desse enredo está o deputado Hugo Motta, Republicanos-PB.
Aos 35 anos, alcança o terceiro cargo mais importante da República sem apresentar qualquer qualificação compatível com o posto.
Herdeiro de uma família de políticos do interior da Paraíba ascende de forma meteórica, mas sem lastro institucional, técnico ou histórico.
A Presidência da Câmara já foi ocupada por políticos de diferentes partidos, alinhados a distintas ideologias, mas nenhum ousou rebaixar a cadeira a um nível tão raso de compromisso público.
Hugo Motta se apequenou. Agiu como um cangaceiro político, impondo sua vontade não pela legitimidade democrática, mas pela lógica brutal do mando, pela manipulação dos ritos e pela autoridade vazia de quem ocupa uma cadeira sem compreender seu peso histórico.
A Presidência da Câmara nunca havia descido tão baixo. A própria cadeira que deveria simbolizar equilíbrio e liderança republicana se tornou palco da violência praticada contra o deputado Glauber Braga, PSOL-RJ.
Foi o retrato fiel de uma Casa que abandonou a Constituição e escolheu trilhar o subterrâneo da política.
E quem empurrou a democracia nessa direção estava sentado no comando da Câmara dos Deputados, o sinal mais evidente de que a crise não vem das margens, mas do próprio centro do poder.
Charge: Gilmar Fraga/Agência RBS
FONTE:
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O PARLAMENTO EM COLAPSO
O Brasil nunca foi país para amadores. Entender sua dinâmica política exige atravessar uma realidade peculiar, onde o jeitinho ainda dita regras e a esperteza se confunde com inteligência.
Nesse ambiente distorcido, os poderes da República deixaram de atuar como pilares de equilíbrio e se transformaram em arenas de confronto permanente, nas quais golpes abaixo da cintura substituem qualquer noção de debate democrático.
No centro desse caos está o Congresso Nacional, hoje vivendo seu pior momento desde a redemocratização.
A lógica das emendas parlamentares, geradas na gestão anterior e convertidas em instrumento de chantagem institucional, transformou a Casa em um balcão de negócios.
Deputados e senadores priorizam sua própria sobrevivência política, pressionam o Executivo, afrontam o Judiciário e alimentam crises que, cedo ou tarde, retornam como bumerangue. A instituição perdeu a compostura e parte de sua legitimidade.
A falta de transparência na distribuição das emendas é um exemplo claro. O presidente da Câmara, Hugo Motta, Republicanos-PB, controla um cofre bilionário e libera recursos conforme a conveniência de grupos internos, não por critérios minimamente republicanos.
O escândalo recente que envolve parlamentares presos, foragidos ou condenados recebendo milhões por meio de emendas pagas via Pix, como Carla Zambelli, Alexandre Ramagem e Eduardo Bolsonaro, expõe um sistema sem freios, no qual a máquina pública se converteu em patrimônio eleitoral privado.
No Senado, birras pessoais e disputas por indicações ao STF revelam uma infantilização da política que compromete o funcionamento das instituições. Apesar de tudo, o país navega hoje em águas menos turbulentas do que aquelas deixadas pelo ex-capitão.
Isso não se deve ao Parlamento, mas à atuação firme do Judiciário que garantiu a continuidade da democracia, preservou liberdades básicas e evitou que o Brasil escorregasse para um experimento autoritário.
Não se trata de defesa irrestrita dos tribunais ou do Executivo, mas a constatação de quem segurou as pontas nos momentos mais críticos.
O Brasil segue resistindo, apesar de seu Parlamento. E enquanto o Legislativo permanecer em colapso moral, ético e institucional, o país continuará caminhando com mais dificuldade do que deveria, carregando o peso de uma crise fabricada por aqueles que deveriam representar os interesses públicos.
FONTE:
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CONGRESSO NOCAUTEA O PAÍS
Discordar de um governo faz parte do jogo democrático. O que o Congresso vem fazendo, porém, passa longe de qualquer debate legítimo. Transformou divergências políticas em instrumento de retaliação, usando o parlamento como arma de pressão e chantagem.
A derrubada dos vetos ao chamado PL da Devastação é apenas o capítulo mais recente dessa escalada.
Ao restaurar dispositivos que fragilizam a proteção ambiental, deputados e senadores não apenas ignoraram evidências científicas como escolheram demolir marcos legais construídos ao longo de décadas.
Deram aos estados e municípios o poder de atropelar regras federais, abrindo brechas para disputas locais, flexibilização predatória e insegurança jurídica.
Essa postura não nasce do acaso. Vem de um Congresso que, movido por interesses próprios, coleciona derrotas impostas ao país.
As recentes PECs, como a da Blindagem, que tenta proteger parlamentares de investigações, e outras iniciativas que travam políticas públicas essenciais, revelam uma lógica perversa que quer ampliar privilégios, limitar controles e esvaziar o Executivo sempre que isso ajuda nas negociações de bastidor.
A motivação é tão transparente quanto vergonhosa. A irritação do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, após não ser consultado sobre a escolha de Jorge Messias para o STF, mostra como parte do Legislativo opera: como se vagas em tribunais, orçamentos e projetos fossem moedas privadas num balcão de interesses.
Em vez de legislar pelo país, usam a instituição para forçar indicações, pressionar o governo e ampliar seu próprio poder.
O resultado é um Parlamento que joga contra o Brasil. Em nome de disputas pessoais e ambições corporativas, parlamentares sabotam avanços, desmontam políticas ambientais, travam reformas e enfraquecem a capacidade do Estado de planejar o futuro.
Não é oposição é irresponsabilidade. E quem paga a conta é a sociedade, que assiste perplexa à deterioração de regras, valores e compromissos essenciais para um país que ainda luta para se reencontrar.





