Perturbar garimpo ilegal, pena de morte

Perturbar garimpo ilegal, pena de morte

No Brasil de Bolsonaro, perturbar garimpo ilegal pode ter pena de morte

Se havia risco de ficar pior, ficou: presidente disse que uma das vítimas era "malvista" porque expunha a realidade sem lei da Amazônia

MARTA SFREDO

No Brasil de Bolsonaro, perturbar garimpo ilegal pode ter pena de morte | GZH

 

O que passou por mal-entendido na segunda-feira (13) acabou se confirmando, com contornos de barbárie, nesta quarta-feira (15). Antes da entrevista coletiva da Polícia Federal, surgiu a informação de ao menos um dos suspeitos confessou o assassinato com detalhes que a coluna se recusa a repetir.

Pouco antes, o presidente Jair Bolsonaro havia dado sua versão sobre as causas do desaparecimento: 

— Esse inglês era malvisto na região, fazia muita matéria contra garimpeiros, questão ambiental. Então, naquela região bastante isolada, muita gente não gostava dele. Deveria ter segurança mais do que redobrada consigo próprio. 

"Esse inglês" é o jornalista Dom Phillips, que, pelo rumo das investigações pode vir a ser considerado um "dano colateral" do assassinato do indigenista Bruno Pereira. No mesmo dia em que o presidente do Brasil pronunciava essa frase sombria, no Reino Unido, a congressista Theresa May, ex-primeira-ministra do país, usava seu mandato para representar um eleitor. 

Em nome de Dominique Davis, sobrinha do jornalista, perguntou cara a cara ao primeiro-ministro Boris Johnson se o caso era uma "prioridade diplomática" e se ele faria todo o possível para "revelar a verdade e descobrir o que aconteceu com Dom e Bruno". Johnson, claro, respondeu que sim, e revelou, ainda, que os britânicos estão trabalhando vários dias com autoridades brasileiras.

As escolhas de palavras e atitudes falam por si. No Brasil, o poder se coloca ao lado de quem ataca a lei e degrada o ambiente. Dessa forma, sugere que perturbar o garimpo ilegal pode acabar em pena de morte. No Reino Unido, a democracia representativa funciona com a prestação semanal de contas do primeiro-ministro ao Congresso e a possibilidade de que a voz do eleitor, com o único filtro de seu representante, seja ouvida.

Se o mundo já olhava para o Brasil com desconfiança pelo que acontece na Amazônia e em Brasília, o desfecho dessa história de pesadelo só vai pintar o país lá fora com cores ainda mais feias. Isso ocorreria independentemente das frases selecionadas pelo chefe de Estado. Mas  a escolha feita no momento mais crítico do caso mostra completo desprezo pelo eventual estrago adicional feito à imagem do país.

 

https://gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/marta-sfredo/noticia/2022/06/no-brasil-de-bolsonaro-perturbar-garimpo-ilegal-pode-ter-pena-de-morte-cl4fwva0v001n019iyeuiviwk.html?fbclid=IwAR02ylTFkdelsOP3AjV0mS1t-lr8h_wFIFNX_pRqdh4jaot7W4nSqH0BLqM 




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