A pesquisa também buscou avaliar se acadêmicos que têm vínculos com as Big Techs têm mais visibilidade ou prestígio – e é isso que os dados parecem indicar. 1/5 de todos os 1210 pesquisadores têm alguma relação com as Big Techs, sendo o mais comum relações com a Meta (14% deles) e depois com o Google (8%) e a Microsoft (6%). Os pesquisadores que publicaram três ou mais artigos têm maior probabilidade de possuir vínculos, e quem tem mais de seis com certeza têm vínculos com as indústrias.
Depois de levantar os dados, ainda resta uma pergunta: “não está claro se o prestígio de um cientista leva à formação de vínculos com a indústria, ou se é o contrário”, escrevem.
Mas talvez a conclusão mais relevante de todo o estudo tenha a ver com o tema das pesquisas realizadas por profissionais ligados às Big Techs. Segundo o levantamento, havia quatro principais temas abordados: compartilhamento de desinformação, dinâmica das plataformas, saúde mental, análise de redes sociais e comportamento político.
“É especialmente notável que a pesquisa sobre a dinâmica das plataformas seja subfinanciada pela indústria”, escrevem os pesquisadores. O resultado? “Há quase o dobro de artigos na categoria de compartilhamento de desinformação, possivelmente como resultado das disparidades de financiamento da indústria”.
Segundo uma das coautoras, Cailin O’Connor, filósofa da ciência na Universidade da Califórnia, Irvine, afirmou ao site da revista Science, a tática de cooptação da produção acadêmica não é nova.
A indústria alimentícia e a do tabaco financiam pesquisas que ajudam suas estratégias de lobby para impactar a opinião pública. Um exemplo conhecido é a Coca Cola, que investe em pesquisas sobre exercícios e obesidade há anos, diz O’Connor. “São pesquisas reais, e frequentemente descobrem coisas importantes ou interessantes”, afirma ela. Mas o objetivo destes financiamentos acaba sendo cumprido: eles tiram os holofotes dos malefícios dos seus produtos.
Ou seja, as Big Techs financiam ciência que aponta o dedo para os comportamentos dos indivíduos no compartilhamento de Fake News, e evitam financiar pesquisas sobre a arquitetura dos seus próprios produtos que ajudam a espalhar a desinformação.
“Encontramos evidências de que os vínculos com a indústria estão associados a um foco temático distanciado dos impactos das características em escala das plataformas. Juntas, essas descobertas sugerem que a influência da indústria na pesquisa sobre mídias sociais é extensa, impactante e frequentemente opaca”, conclui a pesquisa.
Natalia Viana natalia@apublica.org Diretora Executiva da Agência Pública
|