Por que tanto apoio popular?

Esse não é um texto pra tacar pedra em bolsominion, é o resultado das minhas reflexões dessa semana observando posts nas redes sociais publicados, curtidos e comentados por pessoas de extrema-direita sobre a dita cuja caminhada protagonizada pelo Nikolas Ferreira...
Sabe gente, a extrema-direita não cresceu dessa forma tão preocupante e sólida porque o povo que aderiu a ela é "burro". Será que um dia vamos avançar desse juízo tão raso?
Reduzir esse fenômeno político/social a essa conclusão é um dos motivos pelos quais ele se solidificou.
A questão é que as lideranças entenderam algo que a esquerda parou de levar a sério faz MUITO tempo: o povo está profundamente insatisfeito, exausto, humilhado e sem horizonte. Nada faz realmente sentido no campo das utopias pra quem sabe que é desrespeitado como cidadão.
Todos nós sabemos que somos enxovalhados pelo sistema político, admitindo isso ou não.
E quem consegue dar nome/sentido/razão a esse mal-estar, mesmo que de forma ABSOLUTAMENTE
MENTIROSA, ganha escuta, afeto e lealdade.
A extrema-direita olha para a frustração real das pessoas com o sistema e diz: “Você está certo em odiar tudo isso.”
A ex-querda, em boa parte, responde: “Calma, veja bem, as instituições são importantes, a democracia precisa ser defendida e tals”...
Só que o grande problema é que essa democracia que deve ser defendida, à custa de todo sofrimento possível, não aparece na vida concreta do povo...
Entendam que eu tô falando de vida real:
O sujeito acorda 4h da manhã, pega o transporte lotado, trabalha o dia inteiro pra ganhar uma miséria, volta pra casa com medo da violência, do desemprego, do preço da comida, da conta de luz, do aluguel, da doença...
Ele nunca viu essa democracia funcionar a favor dele. Nunca foi protegido por ela. Nunca foi escutado por ela.
O PROBLEMA EXISTE tá?
Então quando aquilo que dizem que é a esquerda pede que ele “defenda o sistema democrático”, o que ele escuta é: defenda algo que só te explora!
Daí a extrema-direita entendeu isso e sequestrou esse ódio legítimo.
Então ela vem e se apresenta como "anti-sistema", como força “revolucionária”, como quem vai “quebrar tudo isso aí”..
E é mentira? É!! É MENTIRA BRABA! Porque eles são o próprio sistema, o braço mais brutal do capital, do colonialismo, do patriarcado, do racismo estrutural. Mas isso não importa no primeiro momento, porque o que está em jogo não é coerência política: é identificação emocional...
À partir do momento que a captura emocional foi feita, vai ser muito difícil de desapagar da sensação de pertencimento, de acolhimento que foi proporcionada.
É exatamente como religião entende?
É religião pura na veia.
Nikolas Ferreira não empreendeu essa caminhada à Brasília (com amplo apelo religioso), dando tiro no escuro.
Ele e seus iguais sabiam exatamente o que estavam fazendo, sabiam que ia ser sucesso, eles manejam a fórmula como ninguém...
Tanto que a tal teve um desfecho, digamos, trágico - mas não abalou a fé dos fiéis.
Aquilo teve apoio popular real, massivo, orgânico. Milhões de curtidas, dezenas de milhares de comentários de gente dizendo: “É isso, você me representa.”
Eu passei tempo vendo aquilo, é chocante mas é essa a realidade que nós de esquerda não aguentamos encarar.
E por quê?
Bora se fazer essa pergunta! Por que não queremos encarar que isso não nasce do nada? Que nasce dum abismo que só existe porque a esquerda historicamente abandonou o povo, cada vez mais centrada em si mesma, em seus queridinhos da elite, seus jargões academicistas, seus debates internos sofisticados, suas disputas morais inalcançáveis pelo chão duro e sujo do dia a dia da realidade das massas humanas?
Tudo muito institucional, muito partidário, muito concentrado nas mãos de líderes que sequer de esquerda são, não passam de um rótulo cínico...
Bora encarar poxa!
Nos afastamos da vida comum sim. Do sentir, do participar, do experenciar das demandas reais do povo. Não porque nossas pautas sejam erradas, jamais, pelo contrário! Mas porque paramos de conversar com quem sente a dor antes de saber explicá-la...
E até por isso, se inflama ao ponto do radicalismo à direita.
Entendam que eu estou falando nesse texto especificamente de povo, povo de fato, classe trabalhadora ok?
Esse é o ponto. E eu, faladeira de esquerda, também sou povo, classe trabalhadora é a minha classe.
As dores e temores que falo aqui, são também as minhas.
Só que a grande fração do povo que a extrema-direita arregimenta não é politizada, não tem letramento de classe, raça ou gênero e por favor, isso não é defeito moral...
É resultado de um sistema que produz desinformação, produz precariedade e luta extrema pela sobrevivência permanentemente. É sua estrutura.
Geralmente quem tá lutando pra não afundar tem tempo ou energia pra elaborar teoria política. Mas essa pessoa sabe exatamente que algo está muito errado.
E a extrema-direita chega dizendo:
“Você está sofrendo porque a esquerda te roubou.”
“Você foi esquecido pela esquerda.”
“Ela te humilha.”
"Ela quer acabar com a tua família."
"Ela vai fechar as igrejas."
E tome mais e mais terror psicológico...
Mesmo quando aponta os culpados errados, ela valida o sentimento.
E isso que chamam de esquerda, muitas vezes, chega dizendo, de cima pra baixo:
"Vcs são burros, tem defeito cognitivo, é tudo gado"...
E aí perde a chance.
Eu nem sei se ainda tem jeito tá?
Horas eu realmente duvido se ainda há chance de diálogo um dia...
Eu só acho que não é que as pessoas sejam burras. É que elas buscam sentido onde alguém parece enxergá-las. Buscam pertencimento onde alguém diz “eu sei o que você está vivendo”.
E hoje, além das igrejas, quem está fazendo isso com eficiência brutal é a extrema-direita. Mentindo sim, manipulando sim, instrumentalizando sim o ódio, mas falando cara a cara com o povo.
É perverso? Nossa, demais!
Mas a estratégia funcionou.
E aí?
Como vai ser agora?
Enquanto a esquerda insistir em defender um sistema que o povo só experimenta como violência, exclusão e medo; enquanto tratar o sofrimento popular como algo que precisa ser “educado” antes de ser escutado; enquanto confundir deliberadamente superioridade moral com força política, enquanto um único partido -que se diz de esquerda- controlar todo discurso — esse abismo só vai crescer.
E olha, esse texto não é um ataque à esquerda não, até porque se for pra eu atacar algo não será a esquerda de fato mas sim os espantalhos que se vendem como tal.
Esquerda não defende sistema!
Quando esse dado deixou de ser o centro da coisa toda???
Entendam que só tô compartilhando as minhas reflexões e a minha conclusão de que a insistência nessa linha, já provou que não tem como conter o aprofundamento desse abismo, do contrário, só faz aumentar.
A esquerda continuará assistindo a extrema-direita ocupar esse espaço, enganando o povo com mentiras, mas oferecendo algo que a esquerda abandonou: a capacidade de fazer o povo se sentir visto.
A extrema-direita mente mas ilude de forma muito forte fazendo as pessoas se sentirem participantes, colaboradores, de um processo de "salvação da nação"...
É nojento, a gente sabe, mas elas acreditam e estão dispostas a ser o exército civil de suporte a isso...
E é bom admitirmos que na ausência de Jair Bolsonaro no campo das disputas, Nikolas Ferreira está sendo levantado...
Independentemente de toda lama na qual está metido, seus seguidores irão com ele até o fim.
O bolsonarismo é uma fênix meus amigos.
Doa a quem doer.
E agora?
O que a gente faz?
Continua absurdando, delirando, sem encarar a real?
"Ain, mas eu tô fodida pelo sistema e não virei bolsominion". Ok, mas não é sobre você.
Muita, mas muita coisa mesmo no mundo não é sobre você.
Só tô pensando, remoendo tá gente? Obrigada aí a quem me fizer companhia nisso.
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Gi Stadnicki
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