Por que vencem as mentiras?

Por que vencem as mentiras?

Eleições: por que vencem as mentiras?

Elaine Tavares  17/09/2022

RS: Comício de Lula e Edegar Pretto em Porto Alegre reúne | Política

 

As novas tec­no­lo­gias têm sido de­nun­ci­adas como um grande en­trave para a de­mo­cracia e em muitos casos são apon­tadas como res­pon­sá­veis pela eleição de al­guém, como foi no Brasil, ou pelo re­chaço de algo, como foi no Chile. As cor­rentes no ua­ti­zapi, a en­xur­rada de men­tiras nas redes so­ciais, a ma­ni­pu­lação nas pla­ta­formas, a ali­e­nação em ou­tras. Bom, isso pode ser a apa­rência da coisa, mas se­gu­ra­mente não é a es­sência.

Como já apontou Ál­varo Vi­eira Pinto todas as épocas são tec­no­ló­gicas e não são as tec­no­lo­gias que mudam o mundo. O que move o mundo são as pes­soas. A tec­no­logia po­ten­ci­a­liza uma ou outra coisa, mas é o sis­tema or­ga­ni­za­tivo da so­ci­e­dade, e sua ação con­creta na re­a­li­dade, que ori­enta rumos. Por­tanto, culpar a in­ternet pelo re­sul­tado da vida po­lí­tica não tem qual­quer sen­tido. A menos que se queira es­conder os reais mo­tivos que fazem uma so­ci­e­dade ca­mi­nhar para aqui ou ali.

Quando em 2018 o can­di­dato Jair Bol­so­naro co­meçou a “bombar” nas redes, usando o ar­ti­fício da men­tira, grande parte da es­querda bra­si­leira ficou sur­pre­en­dida. Como pode uma pessoa acre­ditar na exis­tência de uma ma­ma­deira de pi­roca nas es­colas? Por que acre­ditam que o filho do Lula é dono da Friboi ou de man­sões? Como pu­deram cair no conto da Lava Jato? Então, no es­tupor do mo­mento, a culpa foi di­re­ci­o­nada para o fato de as novas tec­no­lo­gias agora per­mi­tirem a co­mu­ni­cação sem me­di­ação. Grupos de fa­mília se co­mu­ni­cando, grupos de amigos, redes de­mo­crá­ticas. Ora, é certo que essas redes po­ten­ci­a­li­zaram a men­tira, mas se­riam elas as res­pon­sá­veis pela as­censão da men­tira como ele­mento cen­tral da po­lí­tica? Ob­vi­a­mente que não.

No Brasil, assim como em grande parte dos países da Amé­rica La­tina, já faz muito tempo que a for­mação da po­pu­lação saiu de pauta nas or­ga­ni­za­ções par­ti­dá­rias. De uma ma­neira geral os par­tidos de es­querda ou pro­gres­sistas não tra­ba­lham mais – ou tra­ba­lham pouco - na or­ga­ni­zação de base. Isso ficou por conta dos mo­vi­mentos so­ciais que, em função de suas pautas par­ti­cu­lares, muitas vezes não con­se­guem tra­ba­lhar com a to­ta­li­dade da re­a­li­dade. Isso len­ta­mente foi re­du­zindo a ca­pa­ci­dade de com­pre­ensão do todo. Da mesma forma, dentro destas or­ga­ni­za­ções, não há a for­mação de van­guardas ca­pa­ci­tadas para dis­se­minar o co­nhe­ci­mento na base. Não é à toa que os par­tidos per­deram cre­di­bi­li­dade.

Além disso, no campo da edu­cação formal a po­pu­lação também foi per­dendo fer­ra­mentas de com­pre­ensão crí­tica a cada nova re­forma, sempre tra­ba­lhada no sen­tido de barrar a apre­ensão da to­ta­li­dade. En­sino téc­nico, re­ti­rada das hu­ma­ni­dades, edu­cação ban­cária. E isso não foi coisa que acon­teceu do nada. Não. Teve pla­ne­ja­mento. É a classe do­mi­nante de­ter­mi­nando o ca­minho.

A luta pelo so­ci­a­lismo é um ca­minho ge­ne­roso que aponta uma so­ci­e­dade nova, capaz de eman­cipar o hu­mano em todas as suas di­men­sões: a mu­lher, o in­dí­gena, o negro, o sem-casa, o sem-teto, o eco­lo­gista e assim por di­ante. O par­ti­cular não é ne­gli­gen­ciado, mas o uni­versal é o foco. E o so­ci­a­lismo é uma or­ga­ni­zação que está ab­so­lu­ta­mente vol­tada para a mai­oria das pes­soas, ou seja, os tra­ba­lha­dores, aqueles que efe­ti­va­mente cons­troem a ri­queza de um país e do mundo todo. É por isso que o so­ci­a­lismo e o co­mu­nismo causam tanto medo àquele 1% da po­pu­lação que hoje detém o con­trole da ri­queza e dos meios de pro­dução. Porque se vier essa so­ci­e­dade eles terão de se sub­meter aos que hoje eles do­minam.

Por­tanto, como o que vi­vemos é uma guerra de classes, eles – os que con­formam o 1% - pro­duzem ar­ma­di­lhas o tempo todo vi­sando de­sor­ga­nizar e de­ses­tru­turar a luta pelo so­ci­a­lismo. Cabe aos tra­ba­lha­dores co­nhecer o sis­tema e iden­ti­ficar as ar­ma­di­lhas.

Sobre como nasce e como se or­ga­niza o sis­tema ca­pi­ta­lista o alemão Karl Marx já deu a dica. Ler seu livro lu­mi­noso cha­mado “O Ca­pital” já abre uma in­fi­ni­dade de portas para a com­pre­ensão da re­a­li­dade bem como para a ne­ces­si­dade de mudar a to­ta­li­dade do pro­cesso que nos do­mina. Não há “em­po­de­ra­mento” da mu­lher, do in­dí­gena, do negro, do sem-terra ou qual­quer outro dentro do ca­pi­ta­lismo, sem a des­truição das es­tru­turas todas. Não há. O ma­chismo não se acaba com de­creto. A com­pre­ensão sobre o in­dí­gena também não. Muito menos o ra­cismo. E dis­tri­buir uma ter­rinha aqui ou acolá também não muda a es­tru­tura fun­diária de um país. É pre­ciso que tudo seja der­ru­bado. Tudo ao mesmo tempo, agora.

Ob­vi­a­mente que as de­mandas par­ti­cu­lares pre­cisam ser or­ga­ni­zadas e lutas devem ser tra­vadas vi­sando as mu­danças. Por isso os mo­vi­mentos so­ciais são fun­da­men­tais. Mas, pre­cisa ter o ho­ri­zonte da trans­for­mação geral, a re­vo­lução de tudo. Senão, não há poder. A re­a­li­dade ma­te­rial da mai­oria da po­pu­lação é a que pre­cisa ser o centro da atenção. Co­mida na mesa, para viver sau­dável. Edu­cação de qua­li­dade para com­pre­ender cri­ti­ca­mente a re­a­li­dade. Saúde pre­ven­tiva e aces­sível a toda gente, eco­nomia do país vol­tada aos in­te­resses da mai­oria, pa­trimônio pú­blico na­ci­onal e ri­quezas ser­vindo aos tra­ba­lha­dores. Se­gu­rança para viver feliz e em paz. Cada pessoa no Brasil ou em qual­quer canto do mundo quer isso. Esses são os temas que mexem com a ca­beça e o corpo. São temas que exigem ra­di­ca­li­dade, no sen­tido de ir à raiz das coisas.

Quando uma po­pu­lação vive sem saúde, sem co­mida na mesa, sem es­cola para os fi­lhos, sem posto de saúde para suas dores, sem pro­teção da vi­o­lência, é certo que fica vul­ne­rável à men­tira. Como um tra­ba­lhador vai es­tudar e com­pre­ender a re­a­li­dade se ele pre­cisa matar 300 leões para ga­rantir um mí­nimo de pão? A so­ci­e­dade ca­pi­ta­lista, com sua pe­da­gogia da se­dução – se tu te es­for­çares, con­segue – em­bota o sen­tido, en­gana, co­opta. Ela é da­nada. E para com­batê-la é pre­ciso ga­rantir aos tra­ba­lha­dores ins­tru­mentos para ver a re­a­li­dade. For­mação, or­ga­ni­zação e um ob­je­tivo que al­cance toda a gente. O poder para os tra­ba­lha­dores. Feito isso, as par­ti­cu­la­ri­dades co­meçam a ser re­sol­vidas e, aí sim, vem o em­po­de­ra­mento. Porque a pa­lavra já diz tudo: poder. E quem tem poder é quem de­fine o ca­minho. Isso não pode ser obra de um só mo­vi­mento. Isso tem de ser obra da mai­oria da so­ci­e­dade, dos tra­ba­lha­dores.

Dito isso é bom que fi­quemos alertas. Por vezes, não é nem a men­tira dis­tri­buída pelas redes so­ciais que faz com que as massas votem num can­di­dato ou de­sa­provem uma Cons­ti­tuição, mas a falta de ver­dades re­al­mente sig­ni­fi­ca­tivas para elas.

Elaine Tavares é jornalista e colaboradora do Instituto de Estudos Latino-Americanos da UFSC

 

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