Produção de desigualdade cognitiva

Produção de desigualdade cognitiva

Produção de desigualdade cognitiva: o desafio da inteligência artificial para a educação

A rápida difusão da inteligência artificial tem sido apresentada como um destino tecnológico incontornável. No campo educacional, porém, seu avanço está longe de ser neutro ou inevitável: suscita cautela, alarme e disputas profundas sobre seus efeitos formativos. Embora o discurso dominante celebre a IA como instrumento de produtividade e democratização do conhecimento, uma análise histórica e sociológica revela um risco distinto e mais profundo: a inauguração de um novo regime de desigualdade, menos visível e mais radical

O entusiasmo corporativo contrasta com a crítica sobre seus efeitos sociais, particularmente em escolas e universidades. O discurso dominante sugere que a inteligência artificial aumenta exponencialmente a produtividade e democratiza o acesso ao conhecimento; porém, vista sob uma lente histórica, ela pode estar inaugurando um regime de desigualdade qualitativamente distinto. Menos visível, mais radical. E uma nova sociologia da educação precisa nascer, para dar conta do que se apresenta.

As reflexões de autores como GramsciAlthusser e Bourdieu continuam centrais para compreender a escola como espaço estratégico de reprodução social. Para Gramsci, a escola auxilia na formação da hegemonia, difundindo normas e valores das classes dominantes. Para Althusser, ela é o principal aparelho ideológico do Estado, assegurando a reprodução das relações de produção sob o véu da neutralidade. Em Bourdieu, a escola é o local da violência simbólica, onde se legitima o capital cultural das elites como se fosse universal.

O traço comum a esses autores é a concepção da escola como transmissora e legitimadora de conteúdos, saberes e disposições originados das classes dominantes. A desigualdade se dava, assim, enquanto disputa em torno do conteúdo do saber, de sua legitimação simbólica e de seu papel na estrutura social. O que está sendo disputado agora, porém, é de outra natureza: não mais o conteúdo do conhecimento, mas a própria conformação do aparelho cognitivo dos indivíduos.

A introdução da IA em escolas e universidades, especialmente quando não planejada, antecipa uma separação entre dois regimes educativos que se expressam de forma profundamente distinta. Em países desenvolvidos e nas instituições de elite, a IA tende a aparecer como ferramenta auxiliar de formação: algo próximo de um instrumento científico, destinado a potencializar projetos complexos, organizar dados ou ampliar horizontes criativos. O estudante, nesses contextos, continua a debater em sala, a ler textos longos, a argumentar oralmente, a escrever sem atalhos, a errar, reescrever e refazer operações matemáticas. A IA opera como extensão da inteligência e não como seu substituto.

Em sistemas escolares e universitários menos estruturados, contudo, já é perceptível um movimento oposto: a IA é recebida como atalho cognitivo, produtora de textos e respostas prontas, dispensando o estudante de operações mentais fundamentais: sintetizar, comparar, contrapor, argumentar. É a lógica da “eficiência” aplicada ao próprio ato de pensar. A máquina aparece como substituto da atividade intelectual, e não como seu acessório. Enquanto nos países desenvolvidos – e nas escolas privadas de elite, no Brasil – se desenha o modelo de uso regulado e pedagógico da IA, nas redes públicas e periferias a IA tende a ser incorporada como solução rápida, com discursos de inclusão e modernidade tecnológica, mas sem a mediação crítica que impede a atrofia cognitiva.

 

Produção de desigualdade cognitiva: o desafio da inteligência artificial para a educação: menino segura um tablet
Crédito: verkeog/Flickr

 

E é justamente aí que surge o ponto não previsto pelos clássicos. Gramsci, Althusser e Bourdieu analisaram um mundo em que as elites precisavam incutir valoresmodelar comportamentoslegitimar saberes e formar consensos. A reprodução social dependia de um mínimo de formação intelectual das classes subalternas, até para que aceitassem a ordem fundada na burguesia. A escola, ao transmitir cultura erudita, ainda que de forma desigual, dava acesso (parcial, seletivo, mediado) ao repertório de ideias disponíveis.

A IA altera essa equação. O objetivo das elites deixa de legitimar valores universaise passa a controlar o acesso ao exercício autônomo da cogniçãoNão se trata mais de ensinar o que pensar, mas de garantir que a capacidade de pensar abstrata e criticamente permaneça concentrada em poucos. A desigualdade deixa de ser, portanto, ideológica, para se tornar neurocognitiva.

O que se observa é um deslocamento do modelo clássico: a reprodução cultural, baseada na transmissão de conteúdos convenientes às elites, é substituída por uma diferenciação cognitiva, na qual o acesso ao próprio trabalho mental se torna desigual. A hegemonia ideológica cede lugar a uma assimetria de processamento cognitivo; a violência simbólica transforma-se em terceirização cognitiva; e a disputa em torno dos saberes converte-se em disputa sobre os circuitos mentais que tornam os saberes possíveis. Estamos diante da passagem de um regime de dominação que precisava convencer para um regime que apenas precisa atrofiar.

Nesse cenário, a IA oferece às classes populares uma espécie de nutrição cognitiva ultraprocessada: pronta, saborosa, econômica e pobre em valor formativo. A analogia com a alimentação é esclarecedora: assim como os alimentos ultraprocessados são consumidos em maior escala pelas camadas populares – enquanto as elites cultivam dietas orgânicas e restritivas –, a IA tende a ser consumida sem mediação pedagógica nas camadas populares, enquanto as elites regulam seu uso de forma a preservar o valor nutricional do trabalho intelectual árduo.

Se essa tendência se cristalizar, o que se perde não é apenas o capital cultural, mas o próprio músculo cognitivo. A capacidade de ler sem distração, de sustentar um argumento, de articular conceitos abstratos, de escrever longamente, de formular perguntas. Tornar-se-á cada vez mais difícil subverterquestionar e imaginar alternativas, precisamente porque esses exercícios dependem de autonomia mental que não pode ser terceirizada à máquina.

Em outras palavras, a IA inaugura um modelo de reprodução onde a ascensão social se torna matematicamente improvável, não por falta de diplomas, mas por atrofia cognitiva planejada. A escola pode até certificar, mas não formará aparelhos mentais capazes de disputar hegemonia.

Isso coloca o debate num plano novo. Já não se trata de lutar para que a escola ensine “a cultura das elites” às classes populares, como queriam os republicanos franceses do século XIX, nem apenas de denunciar a “reprodução simbólica” bourdieusiana. O desafio agora é impedir que se consolide uma nova aristocracia cognitiva, blindada pela tecnologia, onde uma minoria atuará como produtora de pensamento, e a maioria, como consumidora de respostas.

A lógica que se desenha é a de uma divisão cognitiva do trabalho humano: de um lado, uma minoria formada para produzir conhecimento, decidir, projetar e criar, sujeitos treinados para intervir no mundo; de outro, uma maioria preparada para executar, consumir e obedecer, adaptados a interagir com sistemas fechados que lhes dizem o que fazer. Aos primeiros se reserva a experiência integral da cognição: dúvida, pesquisa, escrita, cálculo, imaginação. Aos segundos, se oferece a simulação da cognição, com respostas prontas, interfaces amistosas e tarefas pré-formatadas. Trata-se de uma separação silenciosa entre aqueles cujo destino é comandar e criar, e aqueles cuja função será operar e acatar, distinção que antes era mediada por capital cultural, status e diplomas, mas que agora tende a inscrever-se na própria arquitetura mental dos indivíduos, consolidando uma desigualdade cuja naturalização será tanto mais profunda quanto menos visível.

A pergunta que se impõe é simples e brutal: quem, no futuro, terá o direito de pensar?

Se não enfrentarmos esse debate agora, a inteligência artificial terá cumprido, com perfeição silenciosa, uma tarefa que o capital persegue desde o início: reduzir as brechas de questionamento e crítica, confinando o exercício pleno da inteligência a um pequeno grupo. O restante poderá navegar por interfaces elegantes, responder prompts, obter resumos, pensar pouco. E agradecer a eficiência.

José Ruy Lozano é sociólogo, autor de livros didáticos, conselheiro da Revista Educação e mentor do Core (Reinventando a Educação).

FONTE:

https://diplomatique.org.br/producao-de-desigualdade-cognitiva-o-desafio-da-inteligencia-artificial-para-a-educacao/ 




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