Que pai é esse?
QUE PAÍS É ESSE, QUE PAI É ESSE?
Fabrício Carpinejar

Ele não sentia nada pelos filhos. Não sentia coisa alguma. O ódio só entra no coração vazio.
O mais assustador é a calma antinatural, a frieza diante de dois meninos indefesos e vulneráveis que partiram sem jamais entender o que aconteceu, sem acreditar em tamanha brutalidade de quem se mostrava íntimo, de quem os levava para o futebol, de quem se dizia pai.
Os pequenos não desconfiavam da macabra dissimulação. Sem a esposa ao lado, eles não serviam mais.
Um pai deveria cuidar, proteger, zelar, dar a sua vida pelas vidas das crianças.
É o amor incondicional acima da própria existência. Acima da ideologia. Acima da fome, da sede, do desespero. Acima de um relacionamento.
Mas aquele era um genitor assassino. Só queria condenar, castigar a esposa, custasse o que custasse. Se ela não seria dele, não seria de mais ninguém. Não teria mais ninguém.
Como se os filhos fossem dela, nunca dele. Assinou a vingança com o sangue de inocentes, com o sangue de anjos.
Ele era secretário em Itumbiara (GO), pessoa influente, casado com a filha do prefeito, e gostava de exibir a sua família nas redes sociais. Esse mesmo sujeito, que se proclamava um cidadão de princípios, foi o responsável por um crime hediondo que chocou o Brasil. Aproveitou que a mãe estava viajando e matou os dois filhos, Miguel, 12 anos, e Benício, 8, com uma rajada de balas, e depois cometeu suicídio na madrugada de quinta-feira (12). Nem as paredes daquele lar conseguiram esconder o barulho ensurdecedor da covardia.
Que pai é esse? Que país é esse, onde é comum acabar com os filhos para não conceder o divórcio?
Agora não bastam mais, para as mulheres, medidas protetivas que garantam a distância do ex — precisam ser estendidas à prole, que corre perigo.
Crianças se transformam em alvos de represália contra o fim do casamento, são usadas como castigo à independência feminina.
É a alienação parental no seu estágio mais avançado. Primeiro, arranca-se o coração materno. Em seguida, esvazia-se o ventre.
Homens não vêm admitindo a rejeição. Se não conseguem assassinar as parceiras, assassinam os próprios rebentos.
Nem o diabo é capaz de perdoar esse falso pai.
FONTE:
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